GPA: empresa fecha acordo com credores para reestruturar dívida de R$ 4,57 bilhões
Publicado em 12 de março de 2026 às 18h22.
Última atualização em 12 de março de 2026 às 18h43.
Por *Oscar Malvessi
O Grupo Pão de Açúcar passou por várias transformações ao longo da última década. Em setembro de 2013 o Casino assumiu o controle da empresa.
Desde 30/12/2013, houve uma expressiva destruição de riqueza dos acionistas do GPA. Houve uma perda de RS 16 bi no valor de mercado em 13 anos, ou 58% de desvalorização.
Em 10 de março de 2026, o GPA anunciou um acordo para recuperação extrajudicial, na tentativa de reestruturar sua dívida financeira. Longe de ser uma surpresa, o movimento é o desfecho previsível de um longo processo de deterioração econômico-financeira que, nos últimos anos, destruiu sistematicamente o valor da empresa no mercado.
Entendendo o histórico do valor de mercado do GPA
Em 30/12/2019 seu valor havia recuado dos R$ 27,8 bi para R$ 23,6 bi. Com o anúncio da cisão do Assaí em 09/09/2020, o valor de mercado do GPA caiu significativamente, desabou para R$ 4,0 bi. em 30/12/2020.
Entretanto, valor de mercado do GPA em 30/12/2021 subiu para R$ 5,8 bi e, com a abertura do capital do Assaí, a nova empresa atingiu o valor de mercado de R$ 17,4 bi. Desta forma, a soma das duas empresas naquele momento atingia R$ 23,2 bi, valor este ainda inferior, ao do GPA de R$ 27,8 bi em 30/12/2013.
Nos anos seguintes a deterioração continuou. Em 30/12/2025 o valor de mercado do GPA caiu para R$ 1,8 bi, enquanto o Assaí recua para R$ 9,8 bi. Portanto, a destruição de riqueza associada às duas empresas chegou aos R$ 16,2 bi mencionados acima.
Evolução econômico-financeira do GPA
Com a oscilação de governança do GPA nos últimos anos, observou-se, a partir de 2022, o surgimento de lucros operacionais negativos.
A análise com o método VEC® envolvendo as informações financeiras mais recentes da empresa, entre 2022 e 2025, ajuda a entender as razões que levaram ao rebaixamento do rating pela Fitch em março de 2026 e, posteriormente, ao anúncio do acordo de recuperação extrajudicial com credores.
Ao avaliar o nível de geração de caixa da empresa e compará-lo com a dinâmica do endividamento, percebe-se que o problema central é o valor do endividamento de curto prazo e os juros a serem pagos em 2026, dado a falta do fluxo de caixa operacional (FCO) positivo para bancar esses desembolsos.
A estrutura financeira pressionada já era visível em 2022. A dívida onerosa de curto prazo era de R$ 1,1 bi, e a de longo prazo de R$ 4,9 bi, com disponibilidades e aplicações financeiras de curto prazo de R$ 3,7 bi. A partir desse ponto, é possível perceber a problemática da dinâmica financeira e o comportamento nos anos seguintes, como:
A recuperação extrajudicial anunciada, nada mais é, que a materialização do desequilíbrio entre a geração de caixa operacional e a estrutura de capital, um descompasso que o método VEC® já denunciava, enquanto a análise tradicional ainda celebrava o EBITDA. No lado financeiro, o problema central está na combinação entre o nível de endividamento de curto prazo, mais os juros a serem pagos, especialmente, quando comparados com o nível de liquidez disponível e com a baixa geração de caixa operacional.
O diagnóstico é inequívoco: garantir a continuidade do GPA e elevar seu valor de mercado exige mais do que ajustes marginais, requer uma cirurgia estratégica financeira profunda.
Somente o método VEC® de Criação de Valor permite enxergar o que a análise tradicional oculta. Dessa maneira, a reestruturação operacional visando transformar o lucro operacional em positivo é inegociável, para restaurar a lucratividade econômica e aumentar a produtividade dos ativos. Isso representa conseguir o ROIC superior ao custo do capital (WACC).
Mas isso não basta. O GPA agora com a recuperação extrajudicial, deverá obter uma nova arquitetura da estrutura de capital, considerando o refinanciamento da dívida e a capitalização efetiva.
A análise financeira convencional, refém de indicadores superficiais como o EBITDA, jamais revelaria essa radiografia completa. O VEC® entrega, com clareza cirúrgica, os KPIs que separam a sobrevivência da extinção. Agora, a execução determina o destino.
* Oscar Malvessi é especialista no tema criação de valor. Autor do livro “Como Criar Valor na sua Empresa - método VEC”. Publica artigos e livros sobre temas de Finanças Corporativas e Valuation. Atua também como Professor da FGV nos cursos executivos e foi professor de carreira na área financeira da EAESP FGV por mais de 30 anos.