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Em rodovias, Brasil passou a disputar capital

As rodovias do futuro deixarão de ser apenas ativos de infraestrutura para serem plataformas permanentes de desenvolvimento

Rodovia Presidente Dutra, em São Paulo (CCR/Divulgação)

Rodovia Presidente Dutra, em São Paulo (CCR/Divulgação)

Publicado em 30 de agosto de 2026 às 07h22.

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Por Marcelo Stachow, Diretor-Presidente da Nova Rodovias

 

Há pouco mais de duas décadas, o principal desafio das concessões rodoviárias brasileiras era atrair operadores privados dispostos a assumir ativos que o poder público já não conseguia expandir na velocidade necessária. Hoje, o desafio é outro: o Brasil deixou de disputar apenas concessionárias, passou a disputar capital.

Essa mudança parece sutil, mas representa uma transformação profunda na forma como devemos enxergar a infraestrutura nacional. Em um cenário global em que recursos para grandes projetos se tornam cada vez mais seletivos, conseguirão acelerar seus investimentos os países que, além da maior necessidade de obras, ofereçam um ambiente de estabilidade regulatória. Ou seja: aqueles capazes de apresentar, sob demanda previsível, contratos inteligentes o suficiente para transformar confiança em investimento. Essa é a principal mudança que estamos vivendo.

Depois de quase três décadas acompanhando a evolução das concessões rodoviárias brasileiras, nunca vimos um ambiente tão favorável para novos investimentos. Não apenas pelo volume de projetos, mas pelo amadurecimento institucional que passou a sustentá-los. Os números ajudam a explicar essa percepção.

Entre 2023 e 2026, desde a padronização da modelagem, segundo dados da própria Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), foram realizados 24 leilões rodoviários, abrangendo mais de 11,8 mil quilômetros de rodovias concedidas à iniciativa privada e mobilizando cerca de R$ 270 bilhões em investimentos previstos. Apenas neste ano, segundo o Ministério dos Transportes, pelo menos outros três projetos podem ser levados ao mercado. Esses números revelam que o Brasil iniciou um ciclo estruturado de expansão da infraestrutura, sustentado por uma carteira de projetos com investimento recorde. Trata-se de uma agenda sem paralelo na história recente do país.

Mas o volume, por si só, não explica esse movimento. O maior diferencial está na qualidade dos contratos. Infraestrutura é, antes de tudo, uma indústria de confiança. Projetos rodoviários exigem investimentos bilionários, financiamentos de longo prazo e decisões que precisam atravessar diferentes ciclos econômicos e governos. Nenhum investidor toma decisões dessa magnitude olhando apenas para o ativo. O que ele analisa é a qualidade das regras que sustentam aquele investimento. É justamente nesse ponto que os contratos mais recentes da ANTT representam um avanço importante: além de distribuir riscos e responsabilidades, eles passaram a alinhar incentivos.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa evolução está no tratamento dado às variações extraordinárias de demanda. Durante muitos anos, quando uma operação registrava tráfego diferente das projeções, o risco permanecia com a concessionária – o que impactou muitas operações Brasil afora. Os contratos mais recentes adotaram uma lógica diferente. Assim, quando determinados limites não são atingidos, há um reequilíbrio para manter a operação. E a mesma lógica vale para o caso em que as projeções são superadas, com uma parcela significativa destes eventuais ganhos retornando ao poder concedente, criando a possibilidade, por exemplo, para antecipação de investimentos, novas obras ou mecanismos de modicidade tarifária.

Essa mudança estabelece um princípio simples: quando uma concessão performa melhor, toda a sociedade deve compartilhar esse resultado. Ao mesmo tempo, preserva aquilo que move qualquer investidor: a possibilidade de capturar valor por meio da eficiência. É justamente essa combinação que torna o modelo mais sofisticado e atraente.

A concessionária continua sendo estimulada a executar obras mais rapidamente, incorporar tecnologia, otimizar custos e aumentar a capacidade logística dos corredores sob sua gestão. O investidor ganha previsibilidade regulatória para decisões de longo prazo. O poder público amplia sua capacidade de investimento. E os usuários passam a capturar parte dos ganhos gerados pelo sucesso do próprio contrato. Todos passam a trabalhar na mesma direção.

Outras possibilidades, como a antecipação de obras previstas, atuam em benefício de toda sociedade e da otimização dos contratos.

Essa experiência reforça uma convicção: a próxima geração de operadores será definida não só pela capacidade de vencer leilões, mas também por transformar financiamento em infraestrutura entregue. Em um ambiente cada vez mais competitivo, capital parado não gera desenvolvimento. O verdadeiro diferencial está na velocidade de execução.

E nesse contexto, cresce a importância de fatores como governança, capacidade financeira, histórico de execução, estabilidade regulatória e incorporação de tecnologias capazes de reduzir riscos operacionais. A tecnologia deixa de ser apenas um ganho de eficiência e passa a ser um instrumento de mitigação de risco.

Modelos como o pedágio eletrônico (free flow), monitoramento inteligente, conectividade integral das rodovias, pesagem em movimento e inteligência artificial aplicada à manutenção preditiva reduzem custos estruturais, aumentam a disponibilidade dos ativos e tornam os fluxos financeiros mais previsíveis ao longo de décadas de concessão.

A verdadeira vantagem competitiva neste novo ciclo passará a acontecer depois do arremate do ativo: virá do rigor na execução e da capacidade de mitigar riscos operacionais em tempo real. Esse é, provavelmente, o principal desafio, e também a maior oportunidade, da infraestrutura brasileira neste momento.

O país ainda possui milhares de quilômetros de rodovias estratégicas aguardando investimentos, especialmente nos corredores que sustentam o crescimento do agronegócio, da mineração e da integração logística nacional. Capital existe. Engenharia existe. Tecnologia existe. O que determinará a velocidade dessa transformação será a capacidade de preservar um ambiente institucional confiável, capaz de mobilizar investimentos privados em escala.

Cada contrato bem estruturado amplia a concorrência, reduz o custo do capital, fortalece a confiança dos investidores e cria condições para que os projetos seguintes sejam ainda mais competitivos. No fim das contas, essa é a grande evolução das concessões brasileiras.

As rodovias do futuro deixarão de ser apenas ativos de infraestrutura para serem plataformas permanentes de desenvolvimento. E os países que liderarem essa transformação serão aqueles capazes de transformar confiança em investimento, investimento em infraestrutura e infraestrutura em competitividade. O Brasil reúne hoje todas as condições para ocupar esse espaço. O próximo ciclo das concessões já começou. A oportunidade, agora, é consolidá-lo.