"O Brasil está de volta", reforçou Lula durante a visita (Ricardo Stuckert/PR/Divulgação)
Publicado em 23 de maio de 2026 às 08h34.
Por Giácomo Paro, Marcos Gimenez e Rodrigo Reis
O Brasil não precisa mais convencer o investidor chinês de que é um mercado relevante. Isso já está dado. O ponto, agora, é outro: mostrar que o país sabe transformar interesse em operação sólida, previsível e duradoura. Os dados mais recentes do Conselho Empresarial Brasil-China deixam claro que esse interesse não é marginal. Em 2024, o Brasil foi a economia emergente que mais recebeu investimentos chineses, com 39 projetos confirmados e US$ 4,18 bilhões em aportes.
O dado é importante não apenas pelo volume, mas porque mostra uma presença cada vez mais espalhada por energia, indústria, mobilidade e tecnologia. A ApexBrasil reforçou essa leitura ao anunciar, em 2025, cerca de R$ 27 bilhões em novos investimentos chineses no Brasil, distribuídos por setores como indústria automotiva, energia renovável, tecnologia, logística, mineração, saúde e alimentos. Isso ajuda a desfazer uma leitura ainda comum no debate brasileiro: a de que o capital chinês se limita a operações pontuais ou a poucos setores tradicionais. Não é mais esse o retrato. Mas o desafio brasileiro nunca foi apenas atrair investimento. Foi fazer esse investimento funcionar. Existe uma tendência de resumir a complexidade do país à questão tributária. Ela é central, sem dúvida.
O sistema brasileiro historicamente impõe custo elevado de conformidade, e a Reforma Tributária adiciona uma transição que exige planejamento e capacidade de adaptação. Mas o problema não se esgota aí. No Brasil, regulação, operação, cultura de negócios e execução prática se misturam o tempo todo. É isso que torna a adaptação local um fator decisivo. A própria agenda oficial entre Brasil e China vem sinalizando essa combinação entre oportunidade e complexidade. Em 2024, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior informou que a missão brasileira à China resultou em R$ 24,6 bilhões em concessões de crédito para o país, além de acordos de aproximadamente R$ 9,1 bilhões entre BNDES, China Development Bank e Asian Infrastructure Investment Bank para projetos de infraestrutura e indústria. Ainda no mesmo ano, o ministério anunciou novos instrumentos de cooperação com o governo chinês voltados ao desenvolvimento sustentável, à indústria e às pequenas e médias empresas, em linha com a Nova Indústria Brasil e o Novo PAC.
Esses movimentos mostram que existe base institucional para aprofundar a relação. Mas existe também uma distância importante entre o anúncio e a operação. E é nesse intervalo que o investidor estrangeiro, especialmente o chinês, encontra o Brasil real: um ambiente em que a norma importa, mas não resolve tudo; em que a interlocução local exige método; e em que a construção de confiança pesa tanto quanto a modelagem tributária ou jurídica. Na prática, entrar no Brasil costuma ser mais simples do que operar bem no Brasil. Foi dessa percepção que surgiu a iniciativa que nos reuniu em torno deste artigo. Promovemos o China-Brazil Business Roundtable, um grupo de diálogo que reúne executivos, empresários e especialistas ligados a operações chinesas no Brasil e que passa a se estruturar em encontros periódicos.
A proposta é discutir desafios tributários, operacionais e culturais enfrentados na entrada e na expansão dessas empresas no país. O que emergiu ali foi algo relevante por si só. Além da convergência de agendas, houve disposição real para colaboração, aprendizado mútuo e continuidade. Esse tipo de espaço ajuda a reduzir ruídos, aproximar perspectivas e criar bases mais sólidas para a atuação de longo prazo. Esse ponto é central porque o investidor chinês já entendeu, em boa medida, que a entrada no país se fortalece com apoio local. A montagem de estruturas locais, a formação de equipes brasileiras e a aproximação com parceiros especializados deixaram de ser complemento e passaram a fazer parte da própria lógica de entrada. Não por acaso. Em operações desse tipo, o desafio não é apenas abrir mercado. É alinhar expectativas, traduzir contexto, integrar culturas empresariais diferentes e dar direção a uma operação que, sem isso, tende a enfrentar mais ruído do que deveria.
É aí que o parceiro brasileiro muda de papel. Ele deixa de ser apenas um prestador de serviço e passa a ser parte da infraestrutura do investimento. Porque apoiar esse capital hoje significa atuar em três frentes ao mesmo tempo: educar, comunicar e operar. Educar é oferecer leitura clara do ambiente regulatório, tributário e institucional. Comunicar é reduzir ruído e tornar a operação inteligível para o mercado e para os interlocutores locais. Operar é ajudar a transformar intenção em execução. Esse tripé tem uma função maior: construir confiança. E, nesse contexto, confiança não é detalhe. É parte da base sobre a qual decisões de longo prazo são tomadas. Quanto mais previsibilidade, clareza e capacidade de execução o investidor encontra, maior a chance de que o aporte deixe de ser apenas anúncio e se converta em presença consistente.
O Brasil continuará atraindo atenção chinesa por razões conhecidas: escala, mercado, recursos e oportunidades em setores estratégicos. Mas isso, por si só, não basta. O país será mais competitivo para esse capital na medida em que conseguir oferecer não apenas oportunidade, mas contexto. Não apenas abertura, mas capacidade de integração. Não apenas potencial, mas confiança. No fim, é isso que decide. O capital chinês pode escolher o Brasil pelo tamanho da oportunidade. Mas só permanece e cresce aqui quando encontra parceiros capazes de transformar complexidade em caminho. Sobre os autores Giacomo Paro é sócio e CEO do Souto Correa Advogados, com atuação em investimentos estrangeiros, estruturação de negócios e governança. Marcos Gimenez é CEO da BRAVO, com foco em posicionamento institucional, comunicação estratégica e apoio a empresas internacionais no Brasil. Rodrigo Reis é diretor tributário da 99 e atua com estratégia fiscal, estruturação de operações e ambiente regulatório no Brasil.