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A influência digital é a chave para entender o eleitor brasileiro

Fatos como os vazamentos do caso Master e a crise do STF não são mais interpretados exclusivamente pela mídia tradicional

 (Imagem gerada por IA/EXAME)

(Imagem gerada por IA/EXAME)

Publicado em 12 de outubro de 2026 às 09h13.

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O primeiro turno do último domingo, 4, só pode ser entendido a partir das redes sociais. Há quase 20 anos, eleições têm elementos decisivos explicados no ambiente digital. Em 2008, a campanha de Barack Obama entendeu que não deveria distribuir a mesma comunicação de massa no digital. No Brasil, a mesma lógica explica o sucesso de Jair Bolsonaro em 2018, nosso maior exemplo de que as campanhas hoje estão nas ruas das redes sociais.

Até a década de 2010, boa parte das pessoas era influenciada em dois passos. Primeiro, os meios de comunicação de massa emitiam as informações. Depois, os líderes de opinião interpretavam esse conteúdo e o repassavam ao seu círculo social.

Isso muda muito nesta nossa Era da Influência Digital. A mídia tradicional torna-se mais uma voz, e os influenciadores passam a ser, ao mesmo tempo, veículo e líderes de opinião. O influenciador muitas vezes é alguém comum, que conquista autoridade e dá contexto e relevância à realidade do grupo que o segue. Apesar do risco da informação sem checagem, há um lado bom nesse movimento: as redes estão abrindo espaço para nomes que - em outros tempos - nunca teriam tantos votos, tão jovens e sem o apoio das grandes oligarquias brasileiras.

Há também o caso do político-influenciador. Nikolas Ferreira (PL-MG), de 30 anos, e Lucas Pavanato (PL-SP), de 28 anos, os dois deputados federais mais votados do país, somaram mais de 6 milhões de votos e têm, juntos, perto de 11 milhões de seguidores no Instagram. No Ceará, André Fernandes (PL), também de 28 anos, teve cerca de 680 mil votos e reúne 3 milhões de seguidores. Que os três sejam do PL diz muito sobre a força do bolsonarismo na influência digital.

Foi essa influência que decidiu o primeiro turno de 2026. Fatos como os vazamentos do caso Master e a crise do STF não são mais interpretados exclusivamente pela mídia tradicional, mas por centenas de milhares de indivíduos com peso em suas comunidades. Veja o caso de Augusto Cury, terceiro colocado. Ele saiu de 1% a 2% para 11% na BTG/Nexus em agosto, articulando um grupo de influenciadores de forma síncrona no Instagram e no TikTok. Depois do debate da Band, o número diário de formadores de opinião que falavam dele cresceu 277%, mais que o de qualquer outro concorrente, e seu perfil no Instagram ganhou 2,5 milhões de seguidores no mês.

Dias depois, chegamos ao fator que considero decisório para a vitória de Flávio Bolsonaro: os vazamentos das conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. Em pouco mais de um mês, a base de influenciadores bolsonarista pautou o tema e o colou na imagem do presidente Lula de forma extremamente eficiente. Nos estudos da Datrix, no auge dos desdobramentos, dois terços das publicações de imprensa, políticos e influenciadores sobre Lula no caso eram negativas. O escândalo dominou as redes e a imprensa, impedindo a entrada de qualquer nova pauta. As pesquisas de 3 de setembro foram engolidas: em 24 horas, o caso gerou 64 vezes mais publicações do que os levantamentos. A crise também achatou os outros candidatos, Cury entre eles, e encaminhou o debate para o voto útil.

Hoje, qualquer campanha eleitoral precisa, antes de tudo, de uma consistente base de influência digital. E, para resistir a uma virada de pauta, é preciso uma rede construída ao longo de anos. O segundo turno será disputado nesse mesmo terreno. Quem quiser entender o eleitor brasileiro precisa começar olhando para quem ele segue.

João Paulo Castro é CEO da Datrix
joaopaulo@datrix.digital