O cérebro do futuro e o poder da empatia na visão de Daniel Pink

Como visionário que é, Pink fez em 2006, uma análise interessante dos tipos de “mente” que o mercado de trabalho futuro iria cobiçar
 (Owen Gildersleeve/Divulgação)
(Owen Gildersleeve/Divulgação)
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5 de janeiro de 2023, 14h58

Por Luah Galvão

Tenho em minhas mãos um exemplar - hoje raro no Brasil, do livro “O Cérebro do Futuro” de Daniel Pink. Ele já foi publicado faz bastante tempo, mas traz uma série de pontos bastante atuais.

Como visionário que é, Pink fez em 2006, uma análise interessante dos tipos de “mente” que o mercado de trabalho futuro iria cobiçar. O autor foi assertivo ao extremo falando sobre o amanhã que hoje, mais de 15 anos depois, estamos vivendo. Já estou nas páginas finais e anotei insights muito bacanas para compartilhar em uma matéria mais longa que já comecei a escrever.

Enquanto isso, pesquei alguns conceitos que Pink traz no capítulo “Empatia” para fechar as publicações de 2022 e iniciar as de 2023. Nesse ano que passou, tão recheado de fatos que tiraram nosso sossego: novas ondas da Covid, Guerra na Ucrânia, eleições polarizadas no Brasil, inseguranças da economia global, talvez seja bom dar uma refrescada com um tema mais leve e inspirador.

"Pessoas que se valem da lógica, da filosofia e da exposição racional acabam privadas da melhor parte da mente." | William Butler Yeats

A empatia, como Daniel Pink cita, está relacionado às habilidades do lado direito do cérebro - hemisfério que faz parte do grande estudo que o autor traz no Cérebro do Futuro. E sigamos então falando sobre a arte de nos colocarmos nos sapatos alheios.

Nos últimos anos o conceito empatia ficou “pop”, virou parte integrante do vocabulário social e também de dentro das corporações. Falamos muito sobre ele, sem muitas vezes nos atentarmos ao seu real significado, até porque, como o próprio Pink diz, empatia e simpatia não são a mesma coisa, mas pode ser que por vezes os conceitos nos confundam.

Para o autor: “A empatia é a capacidade de imaginar a si mesmo no lugar de outra pessoa e de intuir o que essa pessoa está sentindo. É a capacidade de se colocar no lugar dessa pessoa, ver com os olhos dela e sentir com o coração da mesma. É algo que fazemos de modo bastante espontâneo, um ato instintivo, e não tanto fruto de uma deliberação da vontade.” E adverte: “Mas empatia não é simpatia - ou seja, sentir atração por alguém. É sentir algo com alguém, nos dando conta de como seria se estivéssemos no lugar dessa pessoa.”

Em 2017 tive a oportunidade de participar da experiência do Museu da Empatia quando esteve na Bienal de SP, inclusive guiando um grupo de 50 pessoas para uma imersão no tema. Confesso que gostei demais da proposta da equipe de Roman Krznaric; fundador do Museu em Londres, aqui no Brasil.

Ao vestirmos sapatos alheios escutando histórias verdadeiras através de um sistema individual de som, tivemos a oportunidade de uma imersão sensorial na vida de outras pessoas, as quais tiveram jornadas, por vezes, totalmente distintas das nossas. Ao vivenciar isso, nossa visão de mundo foi convidada a se ampliar e se modificar. A exposição batizada de “Caminhando em seus sapatos…” foi um grande sucesso na época e realmente nos provocou para a compreensão do real sentido da empatia.

“A empatia é um impressionante ato de heroísmo, a mais radical experiência de realidade virtual - penetrar na mente de alguém para sentir o mundo do ponto de vista do outro.” – trouxe Pink em seu livro.

E é isso mesmo, ao abrir uma roda de conversa com os participantes que levamos para o Museu, percebemos que a grande maioria ficou extremamente tocada pela experiência. Como Pink comenta acima, nem sempre estamos dispostos a enxergar as situações da nossa vida através de lentes alheias. E quando o assunto é mais dramático para nós, a tolerância é ainda menor, tornando aqueles que tem essa real capacidade, verdadeiros heróis das relações humanas. Compreender outra cultura, credo, outra argumentação, outro polo, outra geração, opinião ou situação através do olhar do outro é de fato para poucos, mas talvez seja esse, um convite para nossa própria evolução.

E sigo nas pesquisas de Pink: “A empatia é extremamente importante. Ela ajudou nossa espécie a galgar a árvore evolutiva. E agora que andamos eretos, bípedes que somos, ela continua nos ajudando no dia a dia. A empatia nos permite ver o outro lado de uma questão, consolar uma pessoa que esteja sofrendo. A empatia gera autoconsciência, une por exemplo, uma mãe a seu filho, permite que trabalhemos juntos e fornece as bases da nossa moral... Mas esse atributo nem sempre foi tratado como deveria. Muitas vezes, foi considerado um capricho sentimentalóide em um mundo que exigia distanciamento pragmático.”

O mundo dominado pela razão e pelo pragmatismo – premissas do lado esquerdo do cérebro, não via espaço para as atividades pertinentes ao lado direito do cérebro, mais ligadas aos sentimentos, sensações e emoções.

“A era dos trabalhadores do conhecimento marcadamente racionais e das eficientíssimas empresas hightech prezava a distância emocional e a razão fria e calculista - a capacidade de manter distância e isenção para analisar os acontecimentos e tomar uma decisão não contaminada pelas emoções.

Estamos, aos poucos, começando a enxergar as limitações desse enfoque tão estreito.” – diz o autor do livro

Mas tão logo os atributos do hemisfério direito começaram a ganhar luz, a empatia; como uma de suas grandes qualidades, também começou a galgar território em nossas condutas. "Para empatizar é preciso algum grau de Identificação para reconhecer que estamos interagindo com uma pessoa, não com um objeto. Uma pessoa que tem sentimentos, e cujos pensamentos afetam os nossos sentimentos." Definitivamente não somos números e a arte de empatizar dá a todos nós, características humanas extremamente alinhadas com nossa vocação que é justamente a de sermos humanos e não máquinas. Para nossa sorte, pelo menos até agora, nenhuma revolução tecnológica, por mais que tenha tentado, conseguiu replicar nas máquinas, os nossos sentimentos e emoções. “A aptidão que o computador absolutamente não tem como replicar ou como pôr em prática, é a empatia.” – completa Pink.

Pois é caro leitor, se estamos vivos justamente nesse tempo e espaço onde abrimos alas para uma série de características do lado do cérebro que nos traz mais humanidade. Então, que possamos fazer dessas características, matéria prima para nosso desenvolvimento pessoal e profissional. Que a empatia nos permita, não só, ver os outros como realmente são, mas observar através de seu olhar, pontos de vista, pensamentos e ideias talvez nunca tateadas, ou experimentadas. Os “sapatos” alheios podem gerar um grande avanço em nosso próprio desenvolvimento, e/ou até reforçar nossos próprios valores e ideais. No grande mistério da vida, a presença do outro talvez tenha o sublime papel de nos ajudar a conhecer a nós mesmos. Que estejamos abertos ao outro e a tudo que esse outro pode nos ensinar.

Feliz 2023. Que a empatia nos ajude no caminhar do novo ano que já raiou no horizonte.

Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele. | Carl Rogers