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O Dia em que o Palco Virou Ativo

Durante anos, acreditamos que reputação era consequência do sucesso. Primeiro vinham os resultados. Depois o reconhecimento

Nave da SpaceX sai de base da empresa no Texas (RONALDO SCHEMIDT / AFP)

Nave da SpaceX sai de base da empresa no Texas (RONALDO SCHEMIDT / AFP)

Martha Leonardis
Martha Leonardis

CEO e founder NewCo, boutique de Networking internacional

Publicado em 17 de junho de 2026 às 16h49.

Dois eventos aconteceram ao mesmo tempo no mundo.

Em Inglewood, Califórnia, o árbitro apitou o início da Copa do Mundo de 2026. Nas arquibancadas, chefes de Estado, bilionários e CEOs disputavam não só os melhores assentos — disputavam presença. Ser visto ali, ao lado de quem importa, já é em si uma declaração de poder.

A poucos fusos de distância, em Austin, Texas, Elon Musk tocou o sino de abertura da Nasdaq à distância — e a SpaceX estreou na bolsa avaliada em 2 trilhões de dólares. O maior IPO da história. Musk, com isso, se tornou o primeiro trilionário do planeta.

Dois palcos diferentes. Uma mesma lógica.

Durante anos, acreditamos que reputação era consequência do sucesso. Primeiro vinham os resultados. Depois o reconhecimento. Hoje, os dois caminham juntos — e às vezes a ordem se inverte.

Há uma frase de um analista da Renaissance Capital que resume bem o que aconteceu: comprar SpaceX é, em parte, uma aposta em Elon Musk. Não na empresa. No homem.

Isso deveria fazer todo executivo parar e pensar.

O ativo mais valioso da maior abertura de capital da história não é um foguete, não é o Starlink, não é a inteligência artificial. É uma narrativa. É uma presença construída ao longo de décadas com consistência, ousadia e — é preciso reconhecer — uma habilidade extraordinária de ocupar o palco no momento certo.

Musk entendeu antes de quase todo mundo que reputação não é consequência de resultado. Ela passou a influenciá-lo diretamente.

Mas há um lado sombrio nessa história. Quando ele desviou a atenção para o DOGE, o programa de cortes do governo Trump, a Tesla sofreu. As ações caíram, os lucros encolheram. A presença mal direcionada não é neutra — ela destrói valor.

Presença é um ativo. E como todo ativo, precisa ser gerido.

Tenho observado essa transformação de perto nos últimos anos.

Em Davos, na Suíça, algumas das conversas mais relevantes raramente acontecem nos painéis principais. Acontecem nos corredores, nos cafés da manhã reservados, nos encontros que não aparecem na programação oficial.

Em Abu Dhabi, durante a Finance Week, vi empresários atravessarem continentes não para fechar contratos naquele momento, mas para construir relacionamentos que poderiam gerar negócios anos depois. Investidores, gestores e empreendedores disputam algo ainda mais escasso do que capital: acesso.

O que conecta todos esses ambientes não é o prestígio, o luxo ou a visibilidade. É a compreensão de que proximidade gera oportunidade — e que oportunidades raramente surgem na primeira reunião. Elas nascem da confiança construída muito antes dela.

Por isso, talvez uma das maiores transformações da economia moderna seja a valorização da presença estratégica. Não se trata de aparecer por aparecer.

Existe uma diferença enorme entre visibilidade e relevância. A visibilidade chama atenção; a relevância gera confiança. A visibilidade pode ser comprada; a relevância precisa ser construída — através da consistência, da credibilidade e da capacidade de contribuir para conversas que importam.

A Copa do Mundo talvez seja uma das melhores metáforas para isso. Pouca gente fala abertamente, mas grandes eventos globais funcionam como algumas das maiores salas de reunião do planeta. O aperto de mão na tribuna, o jantar após a partida, a conversa informal entre dois líderes, a fotografia que circula pelo mundo — frequentemente têm mais impacto do que dezenas de apresentações em salas fechadas.

Negócios são feitos por empresas. Mas oportunidades continuam sendo criadas por pessoas.

Você não precisa lançar um foguete nem sediar uma Copa do Mundo para entender o que está em jogo aqui.

A pergunta que hoje deixo a quem me lê — executivo, empresário, profissional em ascensão — é simples: você está gerindo sua presença como um ativo estratégico, ou está deixando o mercado definir quem você é?

O cargo já não fala sozinho. O patrimônio não fala sozinho. Nem mesmo os resultados falam sozinhos. A sala na qual você escolhe entrar fala. As pessoas com quem você escolhe aparecer falam. A narrativa que você constrói — ou deixa de construir — fala.

No mundo atual, influência não é consequência da posição ocupada. É consequência da presença construída.