O BC e a recuperação da economia

O chamado sistema de metas de inflação como referência para a atuação dos Bancos Centrais é hoje utilizado com sucesso nas maiores economias do mundo. Os analistas associam hoje este fato como um dos fatores mais importantes para a estabilidade estrutural das expectativas de inflação futura dos agentes econômicos. Mesmo com juros muito baixos há […]
 (Gary Cameron/Reuters)
(Gary Cameron/Reuters)
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Luiz Carlos Mendonça de Barros

Publicado em 07/11/2016 às 16:39.

Última atualização em 22/06/2017 às 18:43.

O chamado sistema de metas de inflação como referência para a atuação dos Bancos Centrais é hoje utilizado com sucesso nas maiores economias do mundo. Os analistas associam hoje este fato como um dos fatores mais importantes para a estabilidade estrutural das expectativas de inflação futura dos agentes econômicos. Mesmo com juros muito baixos há bastante tempo a inflação corrente nas maiores economias do mundo continua abaixo da meta perseguida pela Autoridade Monetária.

A explicação mais importante para este aparente conundrum é que o mercado financeiro acredita que, no momento em que for necessária uma ação mais agressiva para defender a meta de inflação, ela será tomada. Isto quer dizer que a credibilidade dos Bancos Centrais mais importantes conseguiu ancorar de forma perene as expectativas em relação a inflação no futuro.

Mas os parâmetros seguidos pelos Bancos Centrais na condução de suas ações variam de caso a caso. Tomemos o Federal Reserve americano como referência, não só pela sua importância na economia mundial, mas também por ser o modelo com o maior grau de liberdade de ação entre os demais. O FED segue o que se chama de duplo mandato pois deve perseguir a meta de inflação estabelecida, mas com a subordinação à manutenção do chamado pleno emprego na economia real. Ou seja, ele deve manter um olho no peixe e outro no gato, mas, no limite, se precisar ferir ou mesmo matar o gato para preservar a vida do peixe, ele não deve pestanejar. O gato é a atividade econômica e o peixe a meta de inflação.

Não por outra razão o FED tem adotado uma política cautelosa na normalização dos juros ao longo do ano de 2015. Apesar das críticas de grande parte dos analistas de mercado que clamam já há mais de um ano por uma alta sustentada dos juros, o FED tem se mantido cauteloso. E com sucesso. Somente agora, com os primeiros sinais de elevação real dos salários é que deve promover um pequeno ajuste de 25 pontos nos juros, mas com o sinal de que voltará à posição anterior até que a inflação atinja sua meta de 2% ao ano.

O BCE, outro Banco Central que tem mantido uma política de juros zero ao longo deste ano, trabalha em uma conjuntura econômica diferente da existente nos Estados Unidos. A ameaça de deflação no espaço europeu e uma taxa de desemprego da ordem de 15% pressionando a recuperação econômica, tem preservado os dirigentes do BCE das críticas mais agressivas dos agentes de mercado. O principal oponente desta política, o presidente do Bundesbank alemão, está calado há muito tempo desmoralizado que foi por suas previsões catastróficas sobre a inflação na Europa.

Existe um fator comum entre as ações do FED e do BCE neste ano que chega a seu final e que precisa ser entendida no Brasil. Ambos se baseiam em uma leitura analítica da economia e de seus mercados mais importantes. O estado do mercado de trabalho, tanto pelos índices de desemprego como pelo comportamento dos salários, o chamado hiato do produto são fatores decisivos para balizar a política de juros. Para isto precisam, entretanto, de um espaço de tempo mais flexível para cumprir sua meta de inflação. Não ficam amarrados ao ano calendário ou qualquer outro intervalo de tempo rígido para buscar em certas circunstancias sua meta de inflação.

Algo que precisa ser entendido pelos diretores do Banco Central do Brasil e demais membros do COPOM. Temos um sistema de metas com um horizonte de tempo muito rígido, como têm mostrado as manifestações públicas do BC em relação ao atingimento do centro da meta ainda em 2017. Esquecem de considerar em suas decisões o presente hiato do produto na economia e a taxa de dois dígitos de desemprego, elementos que apontam para uma redução mais acelerada dos juros SELIC. Ao se posicionarem assim estão matando os primeiros green shots que estão aparecendo no tecido econômico na medida em que as expectativas com o governo Temer começam a se fortalecer e a desinflação no sistema de preços se acelera.

Mendonça de barros