Como acompanhar uma economia de mercado

Vou aproveitar esta semana que marca a transição de um ano que já terminou e um outro que está ainda no horizonte do analista para trazer ao leitor algumas reflexões sobre meu método de acompanhar a economia. Faço parte de uma geração que se formou em um mundo que não existe mais hoje. Para me […]
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Luiz Carlos Mendonça de BarrosPublicado em 26/12/2016 às 10:08.

Vou aproveitar esta semana que marca a transição de um ano que já terminou e um outro que está ainda no horizonte do analista para trazer ao leitor algumas reflexões sobre meu método de acompanhar a economia. Faço parte de uma geração que se formou em um mundo que não existe mais hoje. Para me manter atualizado fui obrigado a um esforço de reciclagem de meu arcabouço analítico sem, entretanto, perder a estrutura básica da minha forma de entender o funcionamento das economias de mercado.

Os economistas da minha geração foram formados incluindo o que se chama de expectativas racionais dos agentes econômicos na interação entre as ações do governo na gestão da economia e os desafios colocados pela conjuntura. Esta interação fortaleceu-se ao longo das últimas duas décadas do século passado com o desenvolvimento dos chamados mercados futuros de instrumentos financeiros. Estive em Chicago visitando a CME – Bolsa de Futuros – no ano em que o primeiro contrato de juros futuros começou a ser negociado. Até então os mercados de contratos futuros estavam restritos a mercadorias, na sua maioria de natureza agrícola e pecuária.

Mas a sequência analítica se dava entre a conjuntura corrente e a intervenção do governo, principalmente os Bancos Centrais, para ajustar seus objetivos de política econômica. Existia um grande esforço de utilizar os conceitos teóricos nesta avaliação e, os contratos futuros de juros e outros instrumentos financeiros, serviam como mecanismos acessórios para acompanhar o que os agentes esperavam dos resultados das ações do governo. Ou seja, as chamadas expectativas racionais, expressas nos preços dos ativos financeiros negociados nos mercados futuros, tinha uma função suplementar na análise econômica.

Hoje, principalmente entre os analistas mais jovens, esta posição se inverteu e os preços dos contratos negociados nos mercados futuros passaram a comandar as previsões econômicas. De certa forma podemos usar a expressão “ os movimentos do rabo comandam as ações do cachorro”. O que reforça os perigos deste novo arranjo analítico é a sofisticação dos mercados futuros e a utilização de métodos quantitativos sofisticados na formação destes preços. Esta nova forma de agir acabou por criar uma dominância de movimentos especulativos que muitas vezes se afastam de uma análise racional do metabolismo da economia. Não por outra razão a volatilidade dos mercados aumentou, com a ocorrência frequente de movimentos bruscos sem nenhuma correlação com a conjuntura nos mercados reais de bens e serviços.

Cito para encerrar estas provocações dois casos recentes. O primeiro é a dimensão dos erros cometidos no Brasil nos últimos meses nas previsões do IPCA que ocorreram pela pouca importância dada ao chamado Hiato do Produto em 2016. O outro exemplo são as projeções dos juros futuros nos Estados Unidos sem levar em conta o movimento paralelo da valorização do dólar em relação a outras moedas relevantes como o euro, que pode chegar à paridade ainda na primeira metade de 2017. Ora a valorização de uma moeda como o dólar tem um efeito semelhante à elevação dos juros na atividade econômica da maior economia do mundo contribuindo para uma desaceleração da economia e influenciando as decisões do Federal Reserve em relação aos juros.

Mendonça de barros