Colunistas

Sebastião Ventura: “Os ministros passam, o Supremo permanece”

Conselheiro do Imil analisa impasse do STF sobre prisão após condenação em 2ª instância

IM

Instituto Millenium

Publicado em 21 de março de 2018 às 13h13.

Priorizar nos meus resultados Google

O órgão máximo do poder Judiciário brasileiro vive um impasse que divide os ministros da corte. Diante da resistência em colocar em pauta a revisão do entendimento que autoriza a prisão de réus condenados após segunda instância, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carmem Lúcia, vem sofrendo pressão de outros magistrados que insistem em incluir o assunto na agenda. O cancelamento de uma reunião informal, marcada para a última terça-feira (20), acirrou ainda mais o clima de instabilidade no STF. Ouça a análise do advogado especialista em Direito de Estado e conselheiro do Instituto Millenium, Sebastião Ventura!

[soundcloud url="https://api.soundcloud.com/tracks/417091650?secret_token=s-9wWb0" params="color=#ff5500&auto_play=false&hide_related=false&show_comments=true&show_user=true&show_reposts=false&show_teaser=true" width="100%" height="166" iframe="true" /]

Em 2016, o Supremo decidiu, por 6 votos a 5, que a pena poderia ser cumprida após a condenação em segunda instância. Recentemente, determinados grupos da sociedade estão fazendo pressão para o assunto voltar a ser discutido pela corte. Uma eventual revisão da jurisdição beneficiaria investigados na operação Lava-Jato, incluindo o ex-presidente Lula. Para Sebastião Ventura, é importante questionar se uma decisão, tomada em plenário pelo STF, pode ser radicalmente modificada em tão pouco tempo:

“Quando o Supremo se pronuncia sobre uma dada interpretação, o faz com duas finalidades: garantir a estabilidade do ornamento jurídico e dar segurança para todo o sistema judicial que, a partir daquele momento, irá se pautar por aquela linha decisória. Será que o STF, ao rejulgar a sua matéria e revisar o entendimento tomado, estará fazendo um serviço ou desserviço?”, indaga o especialista, acrescentando: “É lógico que as decisões judiciais não são feitas de pedra. Mas temos que saber se, por exemplo, a mudança da composição da corte poderia justificar, ou não, uma modificação de jurisprudência. Será que a instituição não está acima de suas personalidades passageiras?”

Leia mais de Sebastião Ventura
A decadência estrutural da República
Um Brasil sem correntes
Temos um setor estatal caro e impagável

Segundo o advogado, a interpretação de que podem ocorrer injustiças na prisão após a segunda instância é equivocada já que, atualmente, é possível manejar recursos competentes para suspender decisões que representam eventuais excessos no julgamento. Sebastião explica ainda que, no Brasil, as cortes superiores tendem a manter as condenações tomadas nas esferas inferiores, salvo casos de ilegalidade, que não são muito habituais. Na opinião do especialista, a Justiça no país avançou, mas ainda precisa percorrer um longo caminho para que seja igual para todos os brasileiros.

“O Brasil vem progredindo nesta questão do combate à criminalidade. Os avanços da Lava Jato são inegáveis. Vimos grandes corruptores sendo presos, fazendo acordos de delação premiada e entregando como funcionavam esses mecanismos complexos de corrupção política, mas temos também que combater a questão do foro privilegiado, pois os corruptos ainda não foram punidos. Ou esse mecanismo existe e é cumprido com o julgamento das autoridades que gozam do foro, ou teremos que repensar o sistema, acabar com o benefício, e remeter todos os políticos e autoridades à Justiça comum”, opina.