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Reposicionando a educação através da obsolescência tecnológica do modelo padronizado

A tecnologia já permite adaptar o ensino a cada aluno, manter currículos rígidos e abandonar as decisões centralizadas

 (Alexandre Campbell/Agência Brasil)

(Alexandre Campbell/Agência Brasil)

Instituto Millenium
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Publicado em 25 de agosto de 2026 às 20h12.

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*Jeferson Scheibler, segundo lugar no concurso Millenium Writing Challenge 2026

 

A escola que conhecemos foi desenhada para escalar, não ensinar.

O modelo que copiamos até hoje, com salas enfileiradas, séries divididas por idade, currículo idêntico para todos e sino marcando o tempo, nasceu na Prússia do século XVIII. Entre 1713 e 1740, Frederico Guilherme I tornou a escola primária obrigatória com um objetivo nada pedagógico: formar súditos disciplinados para o exército e operários para a indústria nascente. Padronização, hierarquia e obediência não eram defeitos do sistema, mas o produto.

Só que essa solução sempre teve um custo conhecido, e enorme.

Em 1984, o educador Benjamin Bloom demonstrou que um aluno com tutoria individual e ensino orientado ao domínio superava 98% dos colegas de uma sala tradicional, um ganho de dois desvios-padrão que ficou conhecido como o problema dos "2 sigma". Revisões posteriores reduziram esse número para algo próximo de 0,79 desvio-padrão, mas mesmo a leitura mais conservadora escancara um abismo: a padronização desperdiça aprendizado em escala industrial. O que faltava era personalizar o ensino para milhões sem um tutor por criança. Por mais de um século, isso foi tecnicamente impossível.

Não é mais. Um ensaio controlado da Universidade de Harvard, publicado na revista Scientific Reports em 2025, comparou estudantes acompanhados por um tutor de inteligência artificial a estudantes em aula ativa guiada por um professor. Os que usaram a IA aprenderam mais do que o dobro em menos tempo, com a nota mediana saltando de 2,75 para 4,5, um ganho entre 0,73 e 1,3 desvio-padrão. A barreira técnica que justificava tratar todos igualmente finalmente ruiu.

Isso encurrala quem ainda defende o currículo único: a padronização perdeu sua única justificativa honesta. Deixou de ser a forma de escalar e virou uma escolha. E, no Brasil, uma escolha cara.

Os números do nosso modelo padronizado são um veredito. No PISA 2022, 73% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível básico em matemática, contra 31% na média da OCDE (Inep). Sete em cada dez jovens de quinze anos não resolvem um problema matemático simples. No topo da cadeia, o mesmo travamento: o país formou 95.607 engenheiros em 2023, ante 128.871 em 2018 (Censo da Educação Superior, Inep), e apenas 16% dos nossos formados saem de áreas técnicas e científicas, cerca de dois terços da média dos países desenvolvidos. A indústria já contabiliza um déficit na casa das dezenas de milhares de engenheiros (CNI). O sistema padronizado não entrega nem o básico da cidadania nem a qualificação que a economia do futuro exige.

E não adianta culpar a falta de dinheiro. Desde 2023, o país mobilizou cerca de 10 bilhões de reais em conectividade escolar, levando internet a mais de 100 mil escolas (TCU). Distribuímos tablets, conectamos salas, digitalizamos provas. Mas o próprio Tribunal de Contas da União aponta o erro: o investimento corre atrás do equipamento sem uma estratégia de formação dos professores, enquanto preserva intacta a arquitetura de decisão centralizada da Base Nacional Comum Curricular. Instalamos um motor de foguete numa carroça e estranhamos que ela não saia do lugar.

Removida a barreira técnica, sobra a pergunta política: quem decide o que cada criança aprende? Um currículo nacional redefinido por decreto não tem como prever, de Brasília, o que um aluno do interior precisará dominar daqui a dez anos, num mundo que a IA reescreve todos os anos. A escola na ponta tem condições de saber. A família também.

A proposta é antiga. Em 1955, Milton Friedman defendeu que o dinheiro público seguisse o aluno, e não a escola, deixando a escolha com a família. A Suécia levou a proposta a sério em 1992, e hoje cerca de um terço dos estudantes do ensino médio frequenta escolas independentes. O caminho sueco mostra as virtudes e os limites dessa ideia: popular e capaz de estimular a concorrência, o modelo também conviveu, sem avaliação séria, com inflação de notas e mais segregação. Não se trata de desregular. O desenho eficaz é conhecido: financiar por aluno, fixar um núcleo comum enxuto de competências essenciais e liberar cada escola para construir o resto, tudo auditado por avaliações externas transparentes. Liberdade e responsabilidade, como sempre, caminham juntas.

Nada disso significa trocar a tutela do Estado pela do algoritmo. A IA é instrumento, nunca autoridade. A tecnologia derrubou a barreira que justificava centralizar. Insistir nela depois disso vira teimosia.

A obsolescência do modelo padronizado não é uma previsão para o futuro. Já aconteceu. Resta decidir se seguiremos operando uma tecnologia vencida por medo de confiar nas famílias, ou se teremos a coragem de aceitar que o futuro da educação não será escrito em Brasília. Será escrito todos os dias, em cada escola livre para ensinar e em cada família livre para escolher.

 

*Jeferson Scheibler é acadêmico de engenharia de software, embaixador da ICSC e Local Lead do NASA Space Apps.