Colunistas

Os donos das normas

A aplicação das normas parece cada vez mais subordinada aos interesses de quem deveria respeitá-las

Brasília (DF) 11/04/2023 Fachada do palácio do Supremo Tribunal Federal (STF) Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil (Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

Brasília (DF) 11/04/2023 Fachada do palácio do Supremo Tribunal Federal (STF) Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil (Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

Instituto Millenium
Instituto Millenium

Instituto Millenium

Publicado em 27 de outubro de 2026 às 10h15.

Priorizar nos meus resultados Google

João Antonio Wiegerinck, advogado, professor, mestre em Direito Constitucional 

 

Houve um tempo, no qual uma norma, seja ela de que hierarquia ou alcance fosse, era elaborada com o objetivo de atingir, de forma igual, o público a ela destinado. Assim, se a Constituição Federal traz dispositivos que alcançam a todos, como o artigo 5º e seus Direitos e Garantias Fundamentais, todos são iguais perante a lei, como disposto no “caput” desse artigo, assim como complementa seu inciso I. Outras disposições da Carta Magna, destinam-se a grupos de pessoas ou instituições de acordo com suas características intrínsecas. 

Nesses tempos mais atuais, o que se percebe, de forma clara e triste, é que cada Ministro do Supremo Tribunal Federal tem sua própria Constituição e não tem reservas em aplicá-la como bem entender, fazendo inútil o conceito maior daquela casa, ou seja, o Colegiado.

O mesmo se aplica ao atual presidente do Senado e, portanto, do Congresso Nacional. A manipulação do prazo para apreciação de uma proposta de emenda foi acelerada para atender motivos eleitoreiros do presidente, então candidato à reeleição, tendo em vista o apelo popular da pauta 6 X 1, assunto que necessita ser um tanto mais examinado, a fim de adequar tais questões às diversas áreas de serviços, comércio e indústria.

Não bastasse, ao perceber que haveria destaque à proposta de emenda da segurança pública, especificamente no que tange à idade atinente à maioridade penal, o que atrapalharia os planos, novamente eleitoreiros do presidente da República, simplesmente retirou a PEC da pauta de votação, em completa desobediência ao Regimento Interno da Casa, aos berros de algo como "faço porque sou o presidente do Senado e pronto!"

Assim sendo, o que se tem, de forma bastante evidente, são "OS DONOS DAS NORMAS", e no caso do STF, quase 11 proprietários, cada um aplicando o Texto Magno ao seu bel prazer, obedecendo, quiçá, aos próprios egos, incomensuráveis. 

Em uma situação hipotética e caótica, imagine-se se cada cidadão, ou cada indivíduo, pegasse o Código Penal, ou o Tributário, e o interpretasse e aplicasse como se dono dele fosse? Mas, isso não pode. 

Como disse George Orwell, esse sim, com toda propriedade, em uma de suas melhores obras - A Revolução dos Bichos (Animal Farm) - publicada em 1945, "Todos são iguais! Mas, uns, são mais iguais que outros." Sempre atual. Em alguns casos, mais atual do que em outros momentos da história.