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Oito meses para a IA, 4,6 anos para a aprendizagem

A tecnologia avança em meses, mas a formação necessária para usá-la bem ainda exige anos

 (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

(Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Claudio D. Shikida
Claudio D. Shikida

Colunista - Instituto Millenium

Publicado em 1 de outubro de 2026 às 22h19.

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Em O Guia do Mochileiro das Galáxias, um supercomputador passa milhões de anos calculando a resposta para a grande questão sobre a vida, o universo e tudo mais. A resposta é 42. O problema, descobrem os personagens, é que ninguém sabe exatamente qual era a pergunta. A piada tornou-se especialmente atual: a inteligência artificial produz respostas em segundos, mas continua dependendo de seres humanos capazes de formular problemas, avaliar resultados e perceber quando uma resposta não faz sentido.

Um relatório publicado em janeiro pelo Fundo Monetário Internacional ajuda a dimensionar o desafio brasileiro. Seus autores examinaram milhões de anúncios de emprego para identificar o aparecimento e a difusão de novas competências, relacionadas ou não à inteligência artificial. O Brasil aparece entre os países analisados. As novas habilidades chegam às vagas brasileiras com atraso médio de oito ou nove meses em relação aos Estados Unidos. É um intervalo relativamente curto diante do tempo necessário para formar um estudante ou requalificar um trabalhador.

O problema brasileiro parece estar menos na chegada da tecnologia do que na capacidade de fornecer trabalhadores preparados para utilizá-la. No relatório, a demanda potencial brasileira por novas competências alcança aproximadamente 60% do nível norte-americano, enquanto a oferta potencial de graduados capazes de fornecê-las fica próxima de 30%. São valores aproximados, extraídos de um exercício comparativo, mas a mensagem é que nossa oferta corresponderia a apenas metade da demanda projetada.

Isso não significa que metade das vagas esteja desocupada. O índice não mede diretamente um “apagão” de mão de obra. Ele compara demanda e oferta potenciais usando como referência a estrutura dos Estados Unidos. Além disso, os dados brasileiros começam em 2020 e se baseiam principalmente em vagas anunciadas pela internet, que representam melhor o emprego formal, urbano e qualificado do que a totalidade do mercado de trabalho. Ainda assim, o resultado indica um descompasso relevante.

Uma conta ajuda a visualizar sua magnitude. Se a oferta potencial brasileira medida pelo indicador corresponde a 30% da norte-americana, restam 70 pontos percentuais até a referência. Um avanço de 30% para 31% fecharia apenas um septuagésimo dessa distância.

No PISA 2022, a diferença média entre Brasil e Estados Unidos em matemática, leitura e ciências foi de 92 pontos. Aplicar-lhe a mesma proporção equivaleria a recuperar cerca de 1,3 ponto. Como simples referência, a OCDE estima que 20 pontos correspondem ao aprendizado médio acumulado em um ano por estudantes de 15 anos. O hiato total equivaleria, portanto, a 4,6 anos desse ritmo médio. Isso não significa que os estudantes brasileiros tenham literalmente cursado 4,6 anos a menos: a velocidade da aprendizagem varia entre países e a própria OCDE recomenda cautela com essa conversão.

Essa também não é uma estimativa causal. O FMI não demonstra que cada ponto adicional no PISA produza determinado aumento na oferta de competências. Trata-se de uma exercício que coloca os dois hiatos em escalas comparáveis e ajuda a dimensionar a tarefa. Nessa lógica puramente proporcional, fechar integralmente a distância significaria elevar o indicador brasileiro em cerca de 70 pontos percentuais, dos atuais 30% até o nível norte-americano.

O quadro torna-se mais preocupante quando examinamos a criatividade. Na avaliação de pensamento criativo do PISA 2022, o Brasil obteve 23 pontos em 60, ante 33 na média da OCDE. Apenas 46% dos estudantes brasileiros atingiram o nível básico, ante 78% na OCDE; somente 11% alcançaram os níveis mais elevados, ante 27%. Não podemos repetir a comparação com os Estados Unidos porque o país não participou desse módulo. Entretanto, o resultado importa porque o próprio FMI conclui que a adaptação à inteligência artificial exige competências cognitivas, criativas e técnicas complementares à tecnologia. Criatividade? Sim, ela mesma.

A inteligência artificial pode redigir, resumir, traduzir e programar. Quanto mais eficientes se tornam essas funções, maior pode ser o valor relativo de saber escolher a pergunta, contestar uma premissa e combinar conhecimentos de maneira nova. Entregar a mesma ferramenta a todos não elimina diferenças anteriores de formação. Pode até ampliá-las: quem domina a teoria e desenvolveu criatividade utiliza a máquina como complemento; quem não reúne essas competências corre o risco de empregá-la como substituta do próprio aprendizado.

Essa distinção deveria orientar o debate educacional. O problema não é o estudante receber rapidamente uma resposta da inteligência artificial. É confundir a disponibilidade da resposta com a aquisição da competência. A rapidez pertence à máquina. Aprendizagem, criatividade e julgamento ainda precisam ser produzidos pelo estudante.

A tecnologia atravessa fronteiras em poucos meses. Construir as capacidades necessárias para utilizá-la produtivamente exige anos. O maior atraso brasileiro talvez não esteja na chegada da inteligência artificial, mas na formação das pessoas que deverão decidir o que perguntar a ela — e o que fazer com a resposta 42.