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O grande show da vida

"Esperamos muito da democracia, mas fazemos muito pouco como cidadãos"

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Instituto Millenium

Publicado em 29 de março de 2019 às 11h12.

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Por Sebastião Ventura*

As redes sociais romperam com o monopólio da informação, criando uma teia difusa e inorgânica de comunicação intersubjetiva. Se dar voz aos invisíveis foi inegavelmente positivo no aspecto democrático, a perda de instâncias de autenticação e credibilidade dificultam a compreensão pública da verdade factual. Nessa babel de versões contrapostas, o cidadão fica desorientado entre acusações mútuas de “fake news”, elevando o tom e o grau das discussões para esferas alheias à sobriedade crítica necessária ao bom trânsito da razão pensante.

Em obra clássica do pensamento político americano, Christopher Lasch pontificou que a decadência da opinião pública torna as pessoas mal informadas, vindo a concluir que “a democracia requer um debate público vigoroso e, não, informações”. A lição do eminente professor de Rochester/NY torna claro que o princípio democrático, antes de sentenças absolutas, privilegia a frontal dialéticas das ideias, com vistas a construção de um espírito crítico coletivo como síntese de um processo dinâmico de consensos e dissensos argumentativos.

Nesse contexto, hoje muito se critica a pobreza jornalística e o aparelhamento ideológico de algumas fontes de informação. Sim, como sempre, há bons e maus órgãos de imprensa. Em tempo, a eventual queda qualitativa do jornalismo também é um efeito da decadência dos Parlamentos e das estruturas do jogo político. Se o Congresso Nacional fosse efetivamente uma instância de discussão dos altos e caros assuntos nacionais, a informação pública iria naturalmente melhorar, forçando análises mais profundas, inteligentes e imparciais. O problema, todavia, é muito mais fundo.

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Ora, culpar políticos é sempre o caminho mais fácil; a face visível do poder também está ali para encarnar a frustração e o drama humano. Acontece que terceirizar responsabilidades não deixa de ser uma forma de irresponsabilidade pessoal, de tirar o corpo fora e apontar o dedo para algozes de ocasião. É evidente que a política não funciona bem e pouco faz pelo bom êxito do ideal democrático. Mas o que nós, como cidadãos, temos feito para mudar o sistema? Estamos fazendo alguma contribuição efetiva e de real impacto na vida vivida? Ou será que ficar vociferando indignação nas redes sociais é a solução mágica dos nossos problemas?

Infelizmente, nossas respostas ainda são tímidas; esperamos muito da democracia, mas fazemos muito pouco como cidadãos. E, contraditoriamente a nossa própria postura apática, queremos uma classe política ativa, competente e modelar. Chega. Vamos acordar desse sonho. Isso é como querer ficar rico e não trabalhar para acontecer.

Sem cortinas, as chamadas “fake news” revelam os sintomas da decadência cultural do mundo moderno, caracterizado por acesos debates histriônicos de baixa consistência intelectual. O debate público é superficial porque são poucos os que se importam com a profundidade das ideias; a massa quer o espetáculo. A política virou, assim, um grande show da vida, feita sob medida para uma sociedade narcisista que precisa de falsas verdades para sobreviver. E o frenético desejo de aparência força sucessivos enredos pueris, fazendo da democracia um simples teatro de enganação popular.

No final, não fique triste, pois esse show é para nós.

*Advogado especializado em Direito do Estado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Certificado pelo Programa de Negociação de Harvard para Senior Executives. Membro Diretor da Federasul/RS. Escreve sobre questões contemporâneas, envolvendo temas políticos, econômicos e constitucionais.