(Imagem gerada por IA/Exame)
Instituto Millenium
Publicado em 25 de setembro de 2026 às 20h48.
*Giovanni Justino
Poucas rivalidades atravessaram tantas gerações quanto a de Wile E. Coyote e Papa-Léguas. O obstinado coiote passava a vida tentando transformar a veloz ave azul em sua próxima refeição; ela respondia somente com um despretensioso “beep-beep” antes de desaparecer no horizonte. Entre engenhocas da Acme, armadilhas mirabolantes e fracassos inevitáveis, consolidou-se um clássico da animação.
É dessa relação que parte “Coyote vs. Acme”, lançado recentemente nos cinemas brasileiros. Após anos de prejuízos com produtos defeituosos, Coyote decide processar a empresa. À primeira vista, busca apenas um ressarcimento. Logo se descobre, porém, que a ação esconde outro objetivo: levar Papa-Léguas ao tribunal para capturá-lo.
O plano fracassa. Em uma audiência pública no Congresso americano, convocada para discutir a responsabilidade da Acme, acontece o inesperado. Papa-Léguas aparece. Não para ridicularizá-lo nem para acertar contas. Está ali para testemunhar em seu favor e revelar que sempre o considerou um amigo.
Mais do que uma reviravolta narrativa, essa cena oferece uma reflexão oportuna sobre a democracia.
Vivemos um momento em que a discordância parece ter deixado de ser percebida como elemento natural da convivência para ser tratada como um problema a ser eliminado. Divergir já não basta. É preciso desqualificar moralmente quem pensa diferente, excluí-lo dos espaços públicos ou impedir que sequer possa falar.
O recente episódio de violência na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ilustra esse fenômeno. Quando um estudante é agredido antes de poder explicar suas posições, pouco importa se suas ideias seriam convincentes, equivocadas ou até repulsivas. Algo mais grave aconteceu: o argumento foi substituído pela força.
O mesmo padrão reapareceu dias depois contra a historiadora Mary Del Priore. Antes de sua nova obra chegar às livrarias, a autora passou a receber insultos e ameaças que levaram a Editora Unesp a reforçar a segurança durante o lançamento na Bienal do Livro de São Paulo.
Ambos os casos demonstram que a lógica descrita pelo cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (1935-2019) como “autoritarismo instrumental” ainda encontra eco em determinados segmentos da sociedade brasileira: a crença de que métodos autoritários podem ser temporariamente legitimados como caminho para a construção da própria democracia.
A história mostra o contrário. Democracias nunca foram construídas pela eliminação das divergências. O progresso científico, filosófico e político sempre dependeu da existência de ideias concorrentes e da disposição para confrontá-las por meio do argumento. Conforme advertia Karl Popper (1902-1994), enquanto for possível responder aos intolerantes com razão e apoio da opinião pública, recorrer à força representa uma derrota da sociedade aberta.
Universidades existem para isso. Não para proteger consensos, mas para submetê-los ao escrutínio permanente. Devem ser ambientes onde posições controversas possam ser enfrentadas intelectualmente, jamais fisicamente. Ao admitir a violência como resposta legítima ao dissenso, professores e estudantes apagam aquilo que distingue uma comunidade acadêmica de uma turba.
É justamente aí que “Coyote vs. Acme” revela sua maior lição. Papa-Léguas não muda de posição. Continua sem aceitar a ideia de se tornar a próxima refeição do Coyote. Apenas se recusa a negar humanidade e justiça ao oponente.
Essa é uma das virtudes mais necessárias – e também a mais difícil – da vida democrática. Defender a liberdade de quem concorda conosco exige pouco. O verdadeiro teste de uma sociedade aberta é preservar a dignidade e a palavra daqueles de quem mais discordamos.
Num tempo em que tantos estão dispostos a transformar adversários em inimigos, personagens de um velho desenho infantil nos recordam daquilo que adultos frequentemente esquecem: civilização começa quando compreendemos que discordar jamais pode significar desumanizar.
Talvez seja esse o “beep-beep” de que mais precisamos ouvir hoje.
*Giovanni Justino é Diretor Executivo do Instituto Profissionais do Futuro, economista pela UNESP e foi fellow do Mercatus Center na George Mason University