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Instituto Millenium
Publicado em 15 de outubro de 2026 às 17h52.
*Pâmela Borges e Ricardo Gomes
Violência é a preocupação número 1 dos brasileiros nestas eleições, de acordo com as pesquisas eleitorais de 2026. Os números comprovam essa preocupação: só em 2025 foram registradas mais de 40 mil mortes violentas intencionais, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 14 anos, foram 737 mil assassinatos nos país. Tão cruel quanto a alta violência, é a baixa taxa de esclarecimento de crimes: apenas 36% dos homicídios são esclarecidos, de acordo com o Instituto Sou da Paz.
Além do custo psicológico e social, também há custos econômicos: a violência gera um custo econômico estimado em cerca de R$ 700 bilhões por ano, algo em torno de 6% do PIB, segundo o IPEA. O medo de perder o celular no caminho do trabalho, de ter a casa invadida ou de cruzar uma área dominada pelo crime organiza rotinas, restringe a circulação e cobra uma espécie de imposto invisível de milhões de famílias. Em ano eleitoral, os candidatos de diferentes campos são pressionados a oferecer algo além de diagnósticos genéricos e promessas de endurecimento penal.
Combater essa realidade exige medidas que raramente produzem efeito imediato. Reformas legislativas atravessam comissões, negociações partidárias e votações nas duas Casas do Congresso antes de chegar à sanção e, mesmo depois disso, dependem de regulamentação e execução. Já a expansão de efetivos, delegacias, presídios e estruturas permanentes requer concursos, treinamento e despesas continuadas com salários, aposentadorias e manutenção. Nada disso é dispensável, mas tudo isso custa tempo ou dinheiro, justamente quando União, estados e municípios convivem com capacidade fiscal deteriorada, rigidez orçamentária e pouco espaço para criar despesas permanentes sem sacrificar outras políticas públicas.
É preciso procurar soluções inovadoras, com custo-benefício que sejam compatíveis com as atuais restrições fiscais do país e com as necessidades de segurança e bem-estar da população. É justamente aí que entra a inteligência artificial: ao cruzar bases de dados, ler placas de veículos, examinar imagens em tempo real, identificar padrões e emitir alertas, a tecnologia realiza em segundos tarefas que levariam horas ou dias de trabalho manual. A inteligência artificial não é usada para substituir policiais ou delegar prisões a algoritmos, mas para ampliar a capacidade das equipes existentes.
Essa agenda também encontra respaldo na vontade da população: uma pesquisa nacional da Quaest, publicada em setembro, mostrou que 86% dos brasileiros apoiam o uso de inteligência artificial na segurança pública. A aprovação chega a 97% para a localização de pessoas desaparecidas e a 96% para a identificação de veículos roubados e de foragidos. Além disso, 93% consideram eficaz a combinação entre câmeras com IA e trabalho policial. O apoio, porém, não representa um cheque em branco: entre as principais preocupações estão o risco de identificação equivocada e a invasão de privacidade, o que reforça a necessidade de protocolos claros, proteção de dados e supervisão humana.
No Brasil, já existem casos concretos que demonstram o impacto positivo da inteligência artificial na segurança pública. Em 2025, a plataforma Pax operou em Luziânia e Novo Gama, no Entorno do Distrito Federal, um projeto piloto com 117 câmeras inteligentes, em acordo de cooperação com o Estado. Cada equipamento faz a leitura automática de placas e registra data, horário e local de passagem. Na sequência, o sistema de inteligência artificial interpreta a imagem inteira: permite que o policial busque um suspeito pelas características de veículos associados, descritas no boletim de ocorrência, como a cor, o modelo ou um adesivo no carro. O sistema também identifica padrões de deslocamento e gera alertas e pistas em tempo real, que apoiam a decisão da polícia
Um estudo encomendado pela empresa identificou, entre o primeiro e o terceiro trimestres de 2025, queda de 27% nos crimes violentos e aumento de 78,8% nos indicadores de atuação policial, com avanços na recaptura de foragidos, na recuperação de veículos e na apreensão de armas. Os resultados, porém, devem ser interpretados com cautela: além de o levantamento ter sido financiado pela fornecedora da tecnologia, a criminalidade já apresentava trajetória de queda antes de sua implantação. Ainda assim, a comparação entre os municípios mostrou que em Novo Gama, cobertura proporcional de câmeras era maior do que em Luziânia, foi estimado um diferencial de 31 ocorrências a menos por mês no conjunto de crimes violentos e patrimoniais analisados.
Luziânia e Novo Gama oferecem uma lição política importante: segurança pública costuma ser discutida como uma escolha entre aumentar gastos ou tolerar resultados ruins, quando o verdadeiro espaço de inovação está em extrair mais dos recursos existentes. Uma rede de câmeras inteligentes exige investimento inicial, integração entre órgãos e capacitação, mas pode apoiar simultaneamente o policiamento ostensivo e a investigação, ampliando a capacidade do efetivo já existente. Seus resultados também podem ser acompanhados por indicadores como tempo de resposta, veículos recuperados, crimes esclarecidos e ocorrências evitadas. Para o cidadão, isso significa maior probabilidade de o crime ser prevenido ou solucionado, melhor uso dos impostos e uma polícia capaz de responder com mais rapidez. Para o governante, representa a possibilidade de entregar resultados visíveis, medir o desempenho da política e corrigir falhas.
Em 2026, quando a corrida eleitoral estimula promessas caras e fórmulas antigas, a experiência de dois municípios aponta uma alternativa mais concreta: combinar firmeza contra o crime com responsabilidade fiscal. Em vez de esperar que o Estado cresça para só então funcionar melhor, o caminho é usar dados, inteligência e tecnologia para ampliar os resultados da estrutura existente, direcionando recursos com mais eficiência e protegendo sobretudo as populações mais vulneráveis à violência