Fundos: investidores retiram quantias bilionárias em meio à guerra no Irã. (Shutterstock/Shutterstock)
Colunista
Publicado em 29 de junho de 2026 às 18h38.
Existe uma definição de classe média que não está nos manuais de economia, mas que qualquer família brasileira reconhece sem precisar de formalismo: casa própria, geladeira cheia, escola de qualidade para os filhos, plano de saúde, carro na garagem e tempo de qualidade com a família. Uma viagem no fim de ano e fins de semana sem urgências financeiras. Esse é o sonho brasileiro. Mas para quantos ele ainda existe?
A resposta é pouco animadora. O sonho está encolhendo por uma escolha deliberada de modelo econômico. O Brasil adotou um padrão de crescimento calcado na expansão do gasto público, no Estado provedor, na criação artificial de demanda via crédito e na resistência a reformas estruturais que ampliariam a produtividade. Esse modelo não produz prosperidade, produz ilusão de curto prazo e deterioração de longo prazo, e a classe média paga a conta.
O Brasil ficou para trás nas últimas décadas. Com PIB per capita de US$ 9.564 em 2024, o país está muito abaixo dos Estados Unidos (US$ 85.000), da média da União Europeia (US$ 52.000) e de países vizinhos como Chile (US$ 17.830 nominais) e Argentina (US$ 15.976). Em paridade do poder de compra, quando se compara o custo de vida e o valor real do dinheiro entre países diferentes, a situação é ainda pior. De 2003 a 2025, o PIB per capita global cresceu 6,7 vezes, saindo de US$ 3.380 para US$ 26.188, enquanto o PIB per capita do Brasil, no mesmo período, cresceu 4,2 vezes, saindo de US$ 4.427 para US$ 26.188. O Chile, por exemplo, mais que duplicou seu PIB per capita nos últimos 20 anos, passando de US$ 7.578 para mais de US$ 17.830, impulsionado pela abertura comercial e pela estabilidade macroeconômica. O PIB per capita brasileiro hoje é praticamente o mesmo de 2013, registrando uma década e meia de estagnação enquanto a média global subia 56%. O Brasil escolheu mais Estado, mais subsídio, mais gasto e está ficando para trás. O placar dessas escolhas não deixa margem para interpretação.
O Brasil ocupa a 94ª posição no ranking de produtividade do trabalho da OIT, com US$ 21,2 gerados por hora trabalhada, bem abaixo dos US$ 81,8 dos Estados Unidos, dos US$ 34,4 do Chile e dos US$ 33,8 da Argentina. O trabalhador brasileiro produz, por hora, pouco mais de um quarto do que produz um americano e menos de dois terços do que produz um argentino ou um chileno. E esse não é um problema estático: a Produtividade Total dos Fatores recuou 0,6% ao ano entre 2014 e 2020. O PIB cresceu, mas impulsionado por mais horas trabalhadas, não por maior eficiência, e isso é crucial, porque expansão financiada por gasto público tem prazo de validade curto e fatura cara. O resultado direto é que o Brasil cresce pouco, acima do potencial, sem ganhos de produtividade, paga juros elevadíssimos e mantém a inflação sempre pressionada.
Com o Estado endividado e tentando induzir o crescimento econômico, a dívida cresce sem parar. O governo brasileiro elevou a dívida pública de 73,8% para 76,5% do PIB entre 2023 e 2024, e as famílias seguiram a mesma trajetória. Ao final de 2025, 78,9% dos lares brasileiros tinham algum tipo de dívida, o maior nível da série histórica, com quase 30% em situação de inadimplência. O cartão de crédito, com juros em torno de 90% ao ano, era a modalidade mais utilizada por 85% dos endividados. Cada real colocado nessa linha de crédito equivale a trocar consumo futuro por consumo presente à taxa mais cara do planeta, uma transferência silenciosa e contínua do patrimônio das famílias, viabilizada pelo mesmo desequilíbrio fiscal que mantém a Selic em patamar proibitivo.
A casa própria, símbolo central do imaginário de classe média, também está se desfazendo. O número de domicílios em situação de aluguel saltou de 12,2 para 18,9 milhões entre 2016 e 2025, alta de 55%, enquanto a parcela de imóveis próprios já pagos recuou de 66,7% para 60,2% da população. Com a Selic elevada como resposta ao descontrole fiscal, o financiamento imobiliário tornou-se proibitivo: um imóvel de R$ 500 mil que em 2020 exigia parcela de R$ 3.500 passou a demandar mais de R$ 6.000 mensais. O Estado, que gerou o problema ao pressionar a inflação com gastos expansionistas, apresenta como solução um novo programa de crédito subsidiado, exatamente o mesmo remédio que produziu a doença.
O IPCA oficial de 2025 foi de 4,26%, mas esse número oculta uma realidade mais severa para a classe média. Entre 2020 e 2025, a inflação oficial acumulada no período foi de 33,13%, mas os itens que estruturam o padrão de vida de quem pertence à classe média subiram sistematicamente acima da inflação geral: 35,63% para educação, 40,05% para planos de saúde, 38,37% para combustíveis e 79,43% para passagens aéreas. Viajar de avião no Brasil tornou-se um evento de planejamento financeiro, não um lazer ordinário. O fim de semana em outro estado, a viagem de férias, o tempo de qualidade com a família foram silenciosamente retirados do orçamento, não por decreto, mas pela aritmética do modelo.
A resposta para o empobrecimento relativo da classe média brasileira não é conjuntural. Um modelo que expande gastos sem aumentar produtividade gera inflação, impõe juros elevados, retira crédito produtivo do mercado e deprecia a moeda. O custo desse ciclo recai sobre a família que financia a escola particular porque a pública não funciona, o plano de saúde porque o SUS não dá conta, o carro porque o transporte público é precário e que, ao fim, ainda subsidia via endividamento público os juros que tornam a poupança privada inviável. O Brasil testa essa hipótese há décadas e o resultado está na fatura: produtividade estagnada, classe média endividada, casa própria inacessível e uma participação na renda mundial que diminui enquanto países que escolheram o caminho da eficiência seguem avançando. O sonho brasileiro é real, mas o modelo econômico o impede.