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Como o empreendedorismo democratizou o acesso à saúde no Brasil

O Cartão de Todos atende um público que o SUS deixa órfão e os planos de saúde não conseguem atingir

 (Marcelo Casal/Agência Brasil)

(Marcelo Casal/Agência Brasil)

Instituto Millenium
Instituto Millenium

Instituto Millenium

Publicado em 22 de julho de 2026 às 15h37.

*Samuel Bonna Boschetti Sousa, coordenador do Instituto Atlantos

Mesmo investindo cifras bilionárias em saúde pública, com previsão de R$ 246 bilhões em 2025, o Brasil ainda não consegue atender adequadamente as camadas mais vulneráveis da população. Um estudo recente do Instituto Locomotiva aponta dificuldades enfrentadas por mais de 100 milhões de brasileiros. Entre os entrevistados da Classe C, 94% concordam com a afirmação de que "o tempo de espera para a marcação e realização de consultas e exames no SUS coloca em risco a vida de muitos brasileiros".

Uma reportagem de O Globo revelou que a espera por consultas especializadas no Brasil é, em média, de 57 dias. Alguns estados conseguiram reduzir drasticamente esse tempo, como o Rio Grande do Sul, onde a espera é de apenas quatro dias. Já no Amazonas, chega a aproximadamente 177 dias. Além da ineficiência, o sistema público de saúde enfrenta outro grande problema: a corrupção. O Instituto Ética Saúde (IES) estima que cerca de R$ 26 bilhões sejam perdidos anualmente em esquemas de corrupção na área da saúde. Como consequência, os maiores prejudicados são justamente os mais pobres, que dependem exclusivamente do atendimento público.

No artigo A doença da corrupção: o desvio de fundos e a saúde pública nos municípios brasileiros, publicado pela FGV, George Avelino e Ciro Biderman construíram um índice que relaciona corrupção e degradação dos indicadores sociais. Em outras palavras, demonstram que a corrupção contribui para o aumento da mortalidade em hospitais e unidades de saúde, pois reduz a disponibilidade de medicamentos, equipamentos e insumos que deveriam ser adquiridos com recursos desviados por ações fraudulentas.

Foi diante desse cenário que alguns empreendedores identificaram uma oportunidade de democratizar o acesso à saúde, oferecendo consultas e exames especializados a preços acessíveis para famílias que não conseguem contratar um plano de saúde nem obter atendimento em tempo hábil pelo SUS. Há cerca de 25 anos, surgiu em Ipatinga (MG) a Clínica de TODOS, oferecendo consultas e exames a preços populares para as classes de menor renda. Em 2014, o então consolidado Cartão de Todos alcançou a marca de um milhão de famílias ativas, com mensalidades a partir de R$ 15 e consultas com especialistas custando, em média, R$ 20.

O modelo funciona como um cartão de descontos, e não como plano de saúde. Mediante uma mensalidade familiar de R$ 33,40, o usuário tem acesso a preços reduzidos em uma rede de prestadores, mas continua pagando por cada consulta, exame ou procedimento utilizado. Nas clínicas AmorSaúde, principal parceira do cartão, as consultas custam R$ 30 para clínica geral e partem de R$ 40 nas demais áreas. A rede informa contar com 530 unidades em funcionamento e realizar mais de 1,5 milhão de atendimentos por mês.

A dificuldade de acesso à saúde, entretanto, não era um problema exclusivo do Brasil. Percebendo essa demanda, o Cartão de Todos iniciou seu processo de internacionalização em 2018, chegando à Colômbia. Em 2025, a empresa alcançou faturamento de R$ 6 bilhões, passou a contar com mais de 520 clínicas e atendeu aproximadamente 24 milhões de pessoas. Além disso, seu modelo de franquias contribuiu para o crescimento de pequenos empreendedores e para o desenvolvimento das economias locais.

Joseph Schumpeter atribuía ao empreendedor a função de reformar ou revolucionar os padrões de produção por meio da criação de novos produtos, serviços e formas de organização econômica. Israel Kirzner complementa essa visão ao afirmar que "a essência do empreendedorismo consiste na percepção de oportunidades que haviam passado despercebidas". Philippe Aghion, por sua vez, observa que "a inovação é o motor do crescimento econômico". Embora partam de perspectivas distintas, os três autores convergem ao reconhecer que a inovação é um dos principais motores do desenvolvimento.

O Cartão de Todos constitui um exemplo concreto desse processo. Ao identificar uma falha de mercado e desenvolver um modelo de negócios capaz de atender milhões de pessoas que não encontravam alternativas viáveis entre o SUS e os planos de saúde tradicionais, a empresa ampliou o acesso à saúde ao mesmo tempo em que construiu um negócio economicamente bem-sucedido.

Essa dinâmica dialoga diretamente com a tese apresentada por Milton Friedman, no artigo A responsabilidade social das empresas é aumentar seus lucros. Para o economista, empresários e executivos têm o dever de administrar a empresa em benefício de seus proprietários, respeitando as regras do jogo. A trajetória do Cartão de Todos ilustra esse princípio: ao ampliar a oferta de serviços médicos e elevar sua qualidade, a empresa aumentou seus lucros enquanto beneficiou milhões de brasileiros que antes dispunham de poucas alternativas de atendimento.

Muito antes disso, Adam Smith já observava, em A Riqueza das Nações, que "não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse". Em uma economia de mercado, a busca pelo interesse próprio não beneficia apenas o empresário. Ao competir por consumidores, empreendedores inovam, reduzem custos, ampliam a oferta e elevam a qualidade dos produtos e serviços, produzindo ganhos que se espalham por toda a sociedade.

O caso do Cartão de Todos demonstra que muitos avanços sociais não decorrem exclusivamente da ação estatal. Frequentemente, eles também surgem da capacidade de empreendedores identificarem problemas concretos e desenvolverem soluções acessíveis para milhões de pessoas. Atualmente, a empresa oferece planos a partir de R$ 33,40 e consultas a partir de R$ 40, além de impulsionar milhares de pequenos empreendedores por meio do sistema de franquias.

Quando encontram um ambiente favorável para inovar, investir e competir, os empreendedores não apenas geram riqueza para si próprios, mas também ampliam oportunidades, reduzem desigualdades de acesso e elevam a qualidade de vida da população. Em um país onde milhões de brasileiros ainda enfrentam dificuldades para obter atendimento médico, experiências como essa demonstram que o empreendedorismo pode ser um dos mais poderosos instrumentos de inclusão, inovação e transformação social.