Burnout: estudo aponta sinais ligados à sobrecarga cognitiva e ao esgotamento do cérebro ao longo do tempo (Yasser Chalid/Getty Images)
Instituto Millenium
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 20h16.
*Joice Nilo Reis, enfermeira, mestranda em Ciências da Saúde e pós-graduada em Saúde Coletiva. Possui MBA em Gestão e Liderança pela USP/Esalq.
Existe uma contradição silenciosa no sistema de saúde: quem cuida das pessoas está adoecendo. A Organização Mundial da Saúde estima que pelo menos um quarto dos trabalhadores da saúde e assistência apresentou sintomas de ansiedade, depressão e burnout entre 2020 e 2022. E o cenário continua preocupante. O esgotamento desses profissionais não pode ser tratado apenas como uma questão individual. Quando trabalhadores adoecem, os impactos alcançam o absenteísmo, a produtividade, a qualidade da assistência e a sustentabilidade do próprio sistema. A pergunta, portanto, precisa ir além de “como tratar o burnout?”. É preciso perguntar: como podemos organizar o trabalho em saúde para que ele seja sustentável?
Uma parte dessa resposta pode estar em um campo que normalmente é discutido apenas pela perspectiva do paciente: a transformação digital. Quando falamos em telessaúde, pensamos imediatamente nos benefícios para o paciente: acesso facilitado, redução de deslocamentos, aproximação de especialistas e maior agilidade no cuidado. Mas existe outra ponta dessa equação: o profissional que presta esse cuidado. Em 2025, o Ministério da Saúde registrou mais de 5,7 milhões de atendimentos de telessaúde no país, superando a meta anual de 4,2 milhões. Teleconsultas, teleconsultorias, teleinterconsultas, telemonitoramento, telediagnóstico e teleducação já fazem parte da expansão da saúde digital no SUS. Isso significa que a telessaúde deixou de ser uma possibilidade distante. Ela já está modificando a maneira como o cuidado é organizado.
Essa transformação precisa ser analisada também pelo impacto sobre quem trabalha na saúde. Um profissional que deixa de enfrentar horas de deslocamento recupera tempo. Uma equipe que consegue consultar remotamente um especialista pode resolver demandas com maior agilidade. Uma ferramenta digital que reduz uma tarefa burocrática pode liberar energia para atividades que realmente exigem conhecimento e julgamento profissional. Tempo, nesse contexto, não é apenas uma variável operacional. É também uma variável de saúde. Isso exige olhar para além das soluções individuais e entender que a sustentabilidade do trabalho na saúde passa tanto pelo desenho de políticas públicas e parcerias institucionais quanto pela forma como a tecnologia é implementada no dia a dia.
É preciso, porém, evitar uma conclusão fácil: digitalizar o trabalho não significa necessariamente torná-lo mais saudável. A mesma tecnologia que elimina um deslocamento pode criar novas demandas. Uma plataforma que facilita a comunicação pode gerar notificações permanentes. O trabalho remoto pode ampliar a autonomia, mas também pode fazer desaparecer os limites entre jornada profissional e vida pessoal. A tecnologia pode reduzir o burnout, mas também pode agravá-lo. A diferença está na gestão.
Imagine uma atividade que antes exigia duas horas presenciais e que, com uma solução digital, passa a ser realizada em 30 minutos. Existem duas possibilidades. Na primeira, o tempo economizado é utilizado para melhorar a qualidade do trabalho, descansar, estudar ou realizar outra atividade relevante. Na segunda, os 90 minutos restantes são imediatamente preenchidos por novas tarefas. Na primeira situação, a tecnologia aumenta a eficiência. Na segunda, apenas aumenta a velocidade da sobrecarga. Digitalizar o trabalho não é o mesmo que transformá-lo.
Durante muito tempo, a discussão sobre tecnologia esteve concentrada em uma pergunta: quanto ela produz? Na saúde, precisamos acrescentar outra: quanto ela preserva? Preserva tempo. Preserva autonomia. Preserva capacidade de concentração. Preserva profissionais. A própria Organização Mundial da Saúde aponta que trabalhadores da saúde enfrentam fatores relacionados ao sofrimento mental, como escassez de profissionais, condições inadequadas de trabalho, ambientes estressantes e insuficiência de medidas de proteção. Por isso, seria equivocado vender a telessaúde como solução isolada para o burnout. Ela não resolve falta de profissionais, jornadas excessivas ou problemas de liderança. Mas pode contribuir para uma dimensão fundamental: a forma como o trabalho é organizado. E essa talvez seja uma das maiores oportunidades da transformação digital.
Quando uma nova tecnologia é implementada, normalmente avaliamos a experiência do paciente: reduziu o tempo de espera? Ampliou o acesso? Aumentou o número de atendimentos? Precisamos acrescentar outra pergunta: o que aconteceu com o profissional? Ele passou a perder menos tempo com deslocamentos? Reduziu tarefas burocráticas? Acessou informações com mais facilidade? Ganhou autonomia para organizar sua rotina? E existe uma pergunta ainda mais importante: o tempo economizado foi realmente devolvido ao trabalhador ou simplesmente convertido em novas demandas? Essas questões deveriam fazer parte dos indicadores de sucesso de qualquer projeto de transformação digital em saúde. Uma tecnologia que atende mais pessoas, mas produz profissionais cada vez mais exaustos, pode estar resolvendo um problema enquanto cria outro.
Existe uma tendência de tratar a saúde mental dos trabalhadores como uma pauta exclusivamente humanitária. Ela é, evidentemente, uma questão humana. Mas também é uma questão econômica. Um profissional exausto está mais vulnerável ao adoecimento, ao afastamento e à perda de capacidade de trabalho. Um sistema que não considera essas consequências acaba pagando a conta de maneira indireta. Investir na saúde do trabalhador, portanto, não deveria ser visto simplesmente como um custo adicional. É também uma estratégia de sustentabilidade.
Nesse contexto, a atuação do Estado e a formulação de políticas públicas tornam-se centrais para consolidar essas transformações. Olhando para o cenário atual da saúde pública, cabe ao poder público liderar a criação de ecossistemas que também priorizem o bem-estar de quem está na ponta. Um dos caminhos promissores passa pelo fortalecimento de Parcerias Público-Privadas (PPPs) voltadas não apenas à eficiência operacional, mas à oferta de programas estruturados de saúde integral para os próprios profissionais. Se os trabalhadores da saúde garantem o funcionamento do sistema público e, frequentemente, também são usuários dele, por que não desenhar soluções inovadoras que assegurem um cuidado de qualidade a quem cuida? Não se limitar aos modelos tradicionais e apostar em alianças estratégicas e inovadoras é um passo decisivo para transformar a intenção em política sustentável.
Contudo, a efetividade dessas políticas e alianças depende diretamente de como as ferramentas digitais são integradas à rotina das equipes. De nada adiantará estabelecer diretrizes governamentais ou parcerias robustas se a ponta operacional continuar sobrecarregada por fluxos burocráticos e sistemas fragmentados. A transição da teoria para a prática exige que a tecnologia seja moldada para servir às pessoas, e não o contrário.
A transformação digital pode contribuir quando reduz desperdícios, reorganiza processos e devolve tempo e autonomia às pessoas. Mas existe uma condição fundamental: o objetivo não pode ser fazer o profissional trabalhar mais rápido. Deve ser permitir que ele trabalhe melhor. Essa diferença muda completamente a lógica da inovação.
O futuro da saúde não será definido apenas pela quantidade de plataformas, aplicativos ou ferramentas de inteligência artificial disponíveis. Será definido pela capacidade de utilizar essas tecnologias para redesenhar processos. Se o problema é o excesso de deslocamentos, soluções remotas podem ajudar. Se o problema é a dificuldade de acesso a especialistas, a teleconsultoria e a teleinterconsulta podem ampliar o suporte às equipes. Se o problema é a burocracia, a automação pode liberar profissionais de tarefas repetitivas. Se o problema é a fragmentação das informações, sistemas integrados podem melhorar a continuidade do cuidado. A pergunta precisa mudar de “qual tecnologia devemos implementar?” para “qual problema estamos tentando resolver?”. E, depois, acrescentar uma segunda pergunta: essa solução melhorou também a vida de quem trabalha no sistema?
Se uma tecnologia evita horas de deslocamento, esse ganho precisa ser mensurado. Se reduz uma atividade administrativa repetitiva, isso também precisa aparecer nos indicadores. Se permite maior autonomia na organização da jornada, esse resultado não pode ser considerado secundário. Eficiência não deveria ser medida apenas pelo que o sistema consegue produzir, mas também pelo que ele deixa de desperdiçar. E talvez um dos recursos mais desperdiçados na saúde seja justamente o tempo de quem trabalha nela.
A discussão sobre o futuro da saúde costuma oscilar entre dois extremos: a ideia de que a tecnologia resolverá todos os problemas e o receio de que a digitalização desumanize o cuidado. Nenhum dos dois caminhos é suficiente. A tecnologia não substitui vínculo, escuta, empatia ou julgamento clínico. Mas também não faz sentido preservar processos ineficientes apenas porque sempre foram realizados da mesma maneira.
O caminho está no equilíbrio. A saúde digital pode ampliar o acesso, aproximar profissionais, organizar fluxos e reduzir desperdícios. Mas seu verdadeiro potencial estará em utilizar a tecnologia para retirar do profissional aquilo que não precisa consumir sua energia e preservar aquilo que nenhuma máquina consegue substituir.
Um sistema de saúde verdadeiramente eficiente consegue produzir mais valor sem consumir a saúde de quem produz o cuidado. Talvez essa seja uma das grandes fronteiras da transformação digital na saúde: usar a tecnologia não apenas para cuidar melhor do paciente, mas também para tornar sustentável a vida de quem está do outro lado da tela.
Porque a tecnologia não deveria servir apenas para cuidar melhor do paciente. Ela também precisa ajudar a cuidar de quem cuida.