Colunistas

A receita de 250 anos que o Brasil ainda não entendeu

Índices de liberdade econômica do Fraser Institute e da Heritage Foundation, confirmam muitas das previsões de Adam Smith

Adam Smith é considerado o pai da economia liberal moderna (Divulgação)

Adam Smith é considerado o pai da economia liberal moderna (Divulgação)

Ronald Hillbrecht
Ronald Hillbrecht

Colunista - Instituto Millenium na Exame

Publicado em 16 de abril de 2026 às 20h37.

Priorizar nos meus resultados Google

O que faz uma sociedade enriquecer? A resposta foi dada há 250 anos, e o Brasil ainda não a ouviu. Em 1776, o filósofo escocês Adam Smith publicou A Riqueza das Nações, obra que forneceu um arcabouço intelectual capaz de transformar o mundo, ao explicar como sociedades livres poderiam gerar prosperidade com inclusão social. Seu autor é frequentemente chamado de “pai da economia moderna” e, dois séculos e meio depois, fartas evidências empíricas como os índices de liberdade econômica do Fraser Institute e da Heritage Foundation, confirmam muitas de suas previsões.

Adam Smith nasceu em 1723, em Kirkcaldy, Escócia, no auge do Iluminismo escocês. Antes de ser economista, era filósofo moral, e essa origem importa: ela explica por que sua visão de prosperidade era sempre inseparável de uma visão de justiça e de instituições. Suas duas obras principais, A Teoria dos Sentimentos Morais (1759) e A Riqueza das Nações (1776), formam um sistema coerente, de forma que a segunda não pode ser lida sem a primeira.

A grande contribuição de Adam Smith foi integrar filosofia moral, política e economia em uma explicação abrangente sobre como sociedades humanas podem prosperar. Seu objetivo não era apenas explicar como as economias funcionam, mas também mostrar como instituições adequadas poderiam melhorar a vida das pessoas comuns.

A principal tese de Adam Smith é que sociedades prosperam se indivíduos têm liberdade para trabalhar, produzir, trocar e empreender em um sistema institucional baseado na justiça e na concorrência. Ele chamou esse arcabouço de “sistema de liberdade natural”, em que há três pilares fundamentais: i) Liberdade econômica para produzir, investir e comerciar; ii) Estado de direito, que protege pessoas, propriedade e contratos; e iii) Concorrência, que limita abusos e dá incentivos para inovação.

Adam Smith acreditava que quando esses elementos estão presentes, a busca individual de melhorar a própria condição transborda para a melhoria da sociedade. A famosa metáfora da “mão invisível” descreve exatamente esse processo: ao perseguir seus próprios interesses, indivíduos frequentemente acabam promovendo o bem-estar geral da sociedade, mesmo sem a intenção. Essa ideia revolucionou o pensamento econômico porque mostrou que a ordem econômica pode emergir espontaneamente das interações entre milhões de indivíduos, sem necessidade de planejamento central, isto é, sem depender de comando e controle de autoridades de governo ou religiosas.

Entretanto, ele advertiu que esse mecanismo só funciona bem em mercados competitivos, e desconfiava profundamente dos empresários que buscavam eliminar a concorrência por meio de privilégios políticos. Para ele, o inimigo da prosperidade não era apenas o Estado

intervencionista, mas também mercados concentrados e pouco competitivos, que passam a buscar proteção do governo em vez de atender aos interesses de seus consumidores.

Outro conceito fundamental de Smith é a divisão do trabalho. Ele observou que a especialização aumenta dramaticamente a produtividade. Quando trabalhadores se concentram em tarefas específicas, eles se tornam mais eficientes, produzem mais e reduzem custos. Ocorre que maior produção e menores custos ampliam o acesso da população a bens e serviços, elevando os padrões de vida.

Segundo Adam Smith, a divisão do trabalho só pode se expandir em uma sociedade em que há liberdade de trocas e segurança jurídica. Quando indivíduos têm confiança de que sua propriedade e seus contratos serão respeitados, eles investem, inovam e cooperam com outros. A prosperidade, então, não surge de planejamento do governo, mas de um sistema institucional que permite e facilita a cooperação voluntária entre milhões de pessoas.

No século XVIII, as políticas econômicas dominantes eram mercantilistas, em que os governos buscavam acumular metais preciosos e proteger empresas nacionais por meio de monopólios, tarifas e restrições comerciais. Adam Smith criticou duramente esse sistema. Para ele, políticas mercantilistas beneficiavam grupos privilegiados, com corporações protegidas às custas da população em geral.

Em vez disso, Adam Smith defendia o livre comércio e a concorrência. Ele argumentava que permitir a livre circulação de bens, capital e trabalho geraria maior riqueza para todos os países envolvidos. Essa visão influenciou profundamente a evolução das economias modernas e ajudou a moldar o sistema internacional de comércio.

Adam Smith acreditava que seu sistema de liberdade econômica poderia gerar algo inédito na história, como prosperidade para todas as classes sociais. Ele previu que o crescimento econômico resultante da liberdade comercial produziria “opulência universal que se estende até as camadas mais baixas do povo”. Essa previsão parecia ousada no século XVIII, quando a maioria da população mundial vivia em extrema pobreza. Contudo, a experiência histórica recente sugere que Adam Smith estava essencialmente correto.

Nos últimos duzentos anos, a partir da revolução industrial, vasta evidência empírica revela que países que adotaram instituições de mercado — propriedade privada, livre comércio e estado de direito — alcançaram níveis de riqueza e qualidade de vida sem precedentes. Recentemente, nas últimas três décadas, economistas vêm desenvolvendo medidas quantitativas de liberdade econômica. Uma das mais influentes é o índice de liberdade econômica do Fraser Institute, que avalia países com base em cinco critérios principais: tamanho do governo, proteção da propriedade e sistema legal, estabilidade monetária, liberdade de comércio internacional e regulação econômica.

Com o índice de liberdade econômica do Fraser Institute, nota-se de imediato que há forte correlação entre maior liberdade econômica dos países e maiores níveis de renda per capita, crescimento mais rápido e melhores indicadores sociais. Por exemplo, os cinco países mais livres do índice de liberdade econômica de 2025 (que usa dados de 2023) têm renda per capita média (corrigida pela paridade do poder de compra) de US$ 89.488, enquanto os países menos livres

(Irã, Argélia, Sudão, Zimbábue e Venezuela) têm renda per capita média de US$ 10.368. Para contrastar, o Brasil ocupa a 87ª posição no ranking, entre 167 países avaliados. O país e seus vizinhos no ranking (Moldávia, Índia, Quirguistão e Sérvia) têm renda per capita média de US$ 17.264,21. Desta forma, a riqueza das nações está positivamente correlacionada com liberdade econômica, exatamente como Adam Smith previu. Além disso, pesquisas empíricas adicionais mostram que os benefícios da liberdade econômica não se restringem às elites. Em países economicamente mais livres, a renda dos 10% mais pobres também é significativamente maior.

Hoje, dois séculos e meio depois de sua publicação, A Riqueza das Nações continua sendo uma das obras mais influentes da história das ciências sociais. Adam Smith mostrou que o progresso econômico não depende de exploração ou de privilégios políticos, mas da liberdade dos indivíduos de cooperarem voluntariamente. De fato, o extraordinário aumento da renda per capita mundial e a queda histórica da pobreza nas últimas décadas refletem, em grande parte, a adoção de instituições econômicas baseadas na liberdade individual, na expansão de mercados por meio do comércio internacional e na regra da lei, refletindo o tipo de sociedade que ele imaginou.

O Brasil, infelizmente, está longe de ser um caso de sucesso no retrato global. Se Adam Smith fizesse uma viagem no tempo e aterrissasse no Brasil de hoje, certamente se depararia com um cenário desalentador. Faltam-nos instituições econômicas sólidas, que assegurem a liberdade econômica; somos um país historicamente fechado ao comércio exterior; e convivemos com altos índices de violência, além da corrupção crônica que corrói a segurança jurídica e ameaça os direitos individuais e de propriedade. Falhamos, sobretudo, naquilo que Smith considerava o dever mais elementar do Estado: promover a justiça, entendida como a proteção efetiva que o poder público deve garantir a cada um de seus cidadãos.

A receita que ele deixou é simples na formulação, porém difícil na execução: “paz, impostos moderados e uma administração tolerável da justiça”, sendo o restante realizado pelo curso natural das coisas. Duzentos e cinquenta anos depois, o Brasil ainda se debate com os fundamentos necessários para prosperar com inclusão social. A questão não é mais teórica, é de vontade política e de escolha coletiva. Enquanto o país postergar essa decisão, postergará também sua prosperidade e a qualidade de vida da maioria de seus cidadãos.