Colunistas

A mala do planeta

Eles estão tentando salvar a Terra e você está atrapalhando. Você teima em abrir a torneira da pia para lavar as duas mãos ao mesmo tempo. Insiste em ligar diariamente o chuveiro. Consome oxigênio sem parar, e dá o que em troca ao planeta? Só gás carbônico, agravando o efeito estufa. Eles ainda vão criar o Dia Mundial Sem Você. Por enquanto, existe o Dia Mundial Sem Carros, e parece […] Leia mais

IM

Instituto Millenium

Publicado em 30 de março de 2010 às 17h31.

Última atualização em 24 de fevereiro de 2017 às 12h07.

Priorizar nos meus resultados Google

Eles estão tentando salvar a Terra e você está atrapalhando.

Você teima em abrir a torneira da pia para lavar as duas mãos ao mesmo tempo. Insiste em ligar diariamente o chuveiro. Consome oxigênio sem parar, e dá o que em troca ao planeta? Só gás carbônico, agravando o efeito estufa.

Eles ainda vão criar o Dia Mundial Sem Você.

Por enquanto, existe o Dia Mundial Sem Carros, e parece que estão planejando um Dia Mundial Sem Elevador. Resumindo, quanto menos coisas o ser humano fizer, melhor. De preferência, no escuro.

A Hora do Planeta é uma dessas tentativas de corrigir a aberração que é a vida que você leva. Desse jeito, meu caro, melhor as trevas. E não fique achando que vale o escurinho do cinema ou um blecaute romântico a dois. É sem ar-condicionado.

Mas não se sinta, ao aderir, um herói da economia de energia – outra coisa que você, consumista, teima em sugar do planeta. Não há economia alguma, porque o apagão do bem não foi programado para um horário de pico. Você não está salvando um kilowatt sequer.

A causa é muito mais nobre: está em jogo a sobrevivência dos marqueteiros do fim do mundo. Ao apagar a luz e entrar na corrente moderninha (uma espécie de pirâmide do apocalipse), você está salvando o emprego de pelo menos um eco-burocrata – e evitando que ele tenha idéias piores.

O slogan da Hora do Planeta é incisivo: “De que lado você está?” É natural que perguntem, no escuro não dá para enxergar mesmo.

Diga logo que você está do lado do planeta (até porque a lei da gravidade te obriga), e que não tem nem notícias do que se passa do outro lado, a não ser pelas mensagens do Chico Xavier.

Pronto, você já não é mais um capitalista selvagem perdulário. Está livre do purgatório ecológico. O último que sair acenda a luz.

(Publicado em “Época”)