Instituto Millenium
Publicado em 2 de dezembro de 2014 às 15h09.
Última atualização em 24 de fevereiro de 2017 às 08h12.
Segundo Lazzarini, as ações do governo têm interferido na estratégia das empresas principalmente nos últimos oito anos. Em um primeiro momento, de acordo com o economista, a interferência do Estado ocorreu na forma de benefícios concedidos a alguns grupos por meio de empréstimos de bancos públicos e, nos últimos quatro anos, a prática se estendeu à utilização das estatais para controlar preços. “Quando você tem um governo que coloca mais ênfase no uso de instrumentos como o BNDES para criar campeões nacionais e reforçar grandes empresas, o que acontece é que se gera um cenário onde aumentam os benefícios e se cria incertezas sobre o retorno dos investimentos”, explicou, acrescentando que o principal problema está na forma como o governo interfere — mais do que na intervenção em si. “Toda intervenção que é discricionária, sem critérios, regras, parâmetros conhecidos, afasta investidores”.
A falta de critérios bem definidos gera, além de incertezas nos negócios, outras consequências. “Exige dos empresários que eles, de alguma forma, estejam sintonizados com o que está acontecendo com o governo, para obter algum tipo de informação sobre o que vai acontecer e até, eventualmente, benefícios, proteção, crédito. O setor empresarial acaba sendo direcionado para esse tipo de ação”, explica Lazzarini.
Para o economista, o mais importante é garantir a previsibilidade das ações do governo com a adoção de parâmetros técnicos. “Tem que haver critérios que todos consigam entender e não precisem dispender tempo e recursos viajando para Brasília para tentar saber o que vai acontecer”, explicou Lazzarini, autor do livro “Capitalismo de Laços – os donos do Brasil e suas conexões” (Campus-Elsevier, 2010), no qual explica que o capitalismo brasileiro se caracteriza pelo apadrinhamento. “Os laços começam a ficar disfuncionais quando detectamos o efeito de conexões políticas, como financiar um determinado partido ou certos políticos, que, em troca, vão fazer força para a empresa obter mais recursos e ser selecionada como um campeã nacional ou participar de determinados projetos do governo”, criticou.
O caminho para reduzir os danos causados por esse tipo de intervenção estatal depende do fortalecimento das agências reguladoras, segundo Lazzarini. “O que foi feito nos últimos anos foi o enfraquecimento das agências, que poderiam criar parâmetros, definidos por técnicos. A intervenção tem que passar de uma forma menos discricionária para uma forma mais baseada em critérios técnicos e definida por agências e órgãos independentes, que também avaliem essas políticas”, explicou o economista.