Inovação gera crescimento econômico?

Frequentemente as organizações têm dúvidas sobre a real capacidade de geração de lucro por meio de inovações e o custo para atingi-las
 (patpitchaya/Getty Images)
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Por Impacto SocialPublicado em 21/04/2022 09:00 | Última atualização em 17/04/2022 21:48Tempo de Leitura: 4 min de leitura

O conteúdo desse blog é gerenciado pelo Insper Metricis, o núcleo do Insper especializado em realizar estudos sobre estratégias organizacionais e práticas de gestão envolvendo projetos com potencial de gerar alto impacto socioambiental. 

Por Rafael Gazi*

O principal pilar do regime econômico capitalista é a busca das empresas pelo lucro. E esse lucro pode advir de diversas formas nas organizações, tais como a inserção de novos produtos ou da criação de novos mercados, por exemplo. Apesar disso, frequentemente as organizações têm dúvidas sobre a real capacidade de geração de lucro por meio de inovações e o custo para atingi-las. Colocadas em uma perspectiva econômica, essas questões são de certa forma relacionadas a uma única pergunta: inovação gera crescimento econômico?

Esta é uma questão que divide opiniões. Estudiosos ligados à teoria do crescimento, como Aghion e Howitt, por exemplo, advogam que a resposta para esta pergunta é sim. Já outros autores argumentam que não há uma correlação entre dados de inovação e crescimento – e vão além, afirmando que sistemas robustos de proteção à propriedade intelectual inibem as inovações e, com isso, diminuem o potencial de crescimento das organizações e dos países. Um desses exemplos pode ser encontrado em Boldrin e Levine.

De modo a trazer mais clareza para este tema, em minha dissertação, realizo um estudo das teorias de crescimento endógeno, agregando à literatura uma análise de dados inédita de patentes dos Estados Unidos em conjunto com a variação na produtividade total dos fatores da indústria daquele país. A partir de uma base de dados compilada de diferentes fontes abertas (USPTO, NBER-CES, BLS**), realizo uma análise do comportamento dos dados ao longo do tempo.

Mais especificamente, construo um painel com informações sobre a variação na produtividade total de 5 e 4 fatores por setor industrial, como proxy para o crescimento econômico, e a variação na concessão de patentes, como proxy para a inovação. Analiso 26 setores da indústria norte-americana em uma janela temporal anual de 1964 a 2012 e efetuo uma análise de causalidade de Granger entre essas variáveis.

Os resultados obtidos indicam uma relação causal entre as variáveis, de modo que uma variação positiva na média anual da concessão de patentes está associada a uma variação positiva na produtividade – podendo-se então concluir que inovação gera crescimento econômico. Os resultados demonstram, por exemplo, que uma variação de 1 ponto percentual na concessão de patentes está associada a uma variação de 0,05 p.p. na produtividade total de 5 fatores no ano seguinte, 0,02 p.p. seis anos após essa variação e novamente 0,05 p.p sete anos após a variação na concessão de patentes, demonstrando que os efeitos são persistentes ao longo do tempo.

Este estudo também adiciona novas evidências para a literatura pois, através de achados empíricos, demonstra e reforça que o processo de inovação acarreta impactos positivos na economia, gerando então benefício agregado. Isso refuta a proposição de que patentes não trazem valor, como proposto por outros autores.

Uma inovação deste trabalho foi evidenciar empiricamente o tempo que a inovação gera o maior impacto econômico. De acordo com minha dissertação, esses efeitos ocorrem com maior intensidade no primeiro, sexto e sétimo anos após o ano da variação nas concessões de patentes. Esta informação pode ser incorporada aos ciclos de planejamento econômico-financeiro das empresas e também dos países. Além disso, a partir dos resultados encontrados, este trabalho pode servir como inspiração para a elaboração de políticas públicas que gerem incentivo à inovação em diferentes países, contribuindo para seu crescimento e progresso.

*Rafael Gazi é engenheiro pela Poli-USP, mestre em Engenharia pelo Politecnico di Torino, mestre em Economia pelo Insper e possui MBA pela EAESP-FGV. Rafael atua como líder de Engenharia de Fábrica na Mercedes-Benz do Brasil e é Head de Indústria 4.0. Apaixonado por inovações, busca sempre entender como melhorar a competitividade das organizações e do país através delas.

 

**Siglas: USPTO (United States Patent and Trademark Office), NBER-CES (National Bureau of Economic Research: Center for Economic Studies) e BLS (Bureau of Labor Statistics).