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Um Carnaval de Milgram e Meditação

Aproveitei o feriado do carnaval para ver alguns filmes e colocar a leitura em dia. Um dos filmes que vi foi o documentário “Experimenter”, de Michael Almereyda, sobre Stanley Milgram, um psicólogo social americano famoso por seu experimento controverso sobre obediência realizado na década de 1960 durante a sua cátedra na Universidade de Yale. Embora tenha sofrido diversas críticas, o estudo empírico foi replicado diversas vezes desde então sempre com […] Leia mais

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Publicado em 15 de fevereiro de 2016 às 11h10.

Última atualização em 24 de fevereiro de 2017 às 07h46.

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Aproveitei o feriado do carnaval para ver alguns filmes e colocar a leitura em dia. Um dos filmes que vi foi o documentário “Experimenter”, de Michael Almereyda, sobre Stanley Milgram, um psicólogo social americano famoso por seu experimento controverso sobre obediência realizado na década de 1960 durante a sua cátedra na Universidade de Yale. Embora tenha sofrido diversas críticas, o estudo empírico foi replicado diversas vezes desde então sempre com resultados convergentes.

De forma resumida, o experimento consistia em criar um ambiente e regras claras onde uma pessoa era colocada em uma situação estressante de decidir entre obedecer às regras e às ordens de um superior para infringir dor em outra pessoa através de choques de voltagens progressivas até 450 volts (sabendo que tal pessoa tinha problemas cardíacos e que gritava de dor ao receber tais choques) ou parar o experimento para não causar a dor ao outro.

O resultado final revelou que mais de 40% das pessoas tenham ido até a situação mais extrema para não desobedecer às regras. A controvérsia quanto ao resultado vem do senso comum que poucos seguiriam até o final do experimento – chegando a dar os choques de 450 volts –, e da expectativa de psicólogos e psiquiatras que menos de 2% das pessoas fariam isso. Esse número final flutua um pouco de acordo com o as variações dos experimentos realizados até hoje, mas a conclusão final não mudou.

Embora chocante (com perdão do trocadilho), os resultados lançam luz sobre um fenômeno comum sobre as dinâmicas relacionais nas empresas. Como o próprio Milgram escreveu em seu artigo “Os perigos da obediência” de 1974: “Pessoas comuns, simplesmente fazendo o seu trabalho, e sem qualquer hostilidade particular, podem tornar-se agentes de um terrível processo destrutivo. Além disso, mesmo quando os efeitos destrutivos do seu trabalho se tornam patentemente claros e elas são convidadas a realizar ações incompatíveis com suas normas mais fundamentais de moral e ética, relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade.”

Talvez por isso ficamos embasbacados quando assistimos aos efeitos devastadores na vida de pessoas, comunidades, animais e plantas em Mariana-MG. Será que as pessoas da Samarco eram todas tão diabólicas? Ou será que as regras e a cadeia de obediência que o mercado e as melhores práticas impõem para as empresas faz com que uma boa parcela das pessoas da empresa sucumba às regras do jogo e as formas de reforço da autoridade?

Durante o carnaval também li outro artigo que de certa forma tem a ver com a conclusão de Milgram sobre seus estudos, mais especificamente sobre o fato de que pessoas tem os recursos necessários para decidir pela vida ao invés de seguir automaticamente à autoridade. O artigo fala do crescimento no número de CEOs e outros executivos seniores que estão usando técnicas de meditação para expandir suas habilidades mentais e emocionais para melhor decidir e agir em situações cada vez mais complexas e ambíguas. Segue o link.

O artigo sugere que a meditação tem crescido de forma acelerada e acima de outras técnicas de relaxamento e de recreação, e a razão para isso é que esta prática traz benefícios ainda maiores. Um dos exemplos citados no texto é sobre uma empresa da lista Fortune 25 que introduziu técnicas de atenção plena em seu programa de high potentials com o objetivo de criar mentes ágeis e flexíveis como uma fundação para o desenvolvimento de sua liderança.

A autora entrevistou vários executivos sobre os benefícios percebidos depois da introdução da prática de meditação em suas vidas e empresas e os mais citados foram maior resiliência e desempenho, mesmo em situações de alto estresse, maior habilidade de percepção e modulação das emoções, maior criatividade e inovação mais rápida, melhora das relações interpessoais e da colaboração, além da melhora na capacidade de atenção, foco e retenção de informações. Ela também apresenta estudos científicos que corroboram todos esses achados. Vale a leitura.

Eu consigo confirmar, por minha própria experiência, boa parte dos benefícios descritos acima, mas gostaria de realçar algo que não se encontra evidente no texto.

Acho que o processo de meditação nos ajuda a acelerar a expansão de consciência e a descoberta e desenvolvimento dos recursos internos necessários para se evoluir nas organizações. Se temos consciência que na maior parte do tempo agimos de forma automática e em conforme com as regras do jogo, como sugerem os experimentos de Milgram, mas também conseguimos sentir quando nossos recursos internos querem emergir para lidar com situações mais ambíguas e paradoxais do dia a dia nas empresas, aí podemos agir de forma consciente para criar melhores respostas para as situações que se apresentam e para melhorar tais regras e também nossas relações, pautadas no ganho mútuo e sustentável para a vida. Podemos assim atuar criando cada vez mais capital humano, intelectual, social e natural num ciclo virtuoso de prosperidade para todos.