(AYDINOZON/Getty Images)
Colunista
Publicado em 4 de abril de 2026 às 08h00.
Nesta semana assisti à palestra do meu ex-professor Richard Locke, reitor recém-empossado da Sloan School, do MIT — uma das mais prestigiadas escolas de negócios do mundo. O professor Locke apresentou os quatro pilares da sua gestão à frente da instituição, entre eles a inteligência artificial (IA) e a mudança estrutural que se dará a partir dela na educação.
Ele explicou que todos os alunos, ao entrar na instituição, começarão com uma espécie de imersão em IA, para que todos compreendam as principais ferramentas — incluindo os modelos de linguagem de grande escala — e saibam utilizá-las de forma competente.
A partir daí, a IA será integrada a todas as disciplinas, de modo que os alunos aprendam não apenas as ferramentas em si, mas também como aplicá-las em contextos reais de gestão e negócios. Ele enfatizou que a revolução da IA na educação é inexorável e que proporcionará aos alunos melhor julgamento; análises mais avançadas; tomada de decisão mais robusta e uso mais profundo de qualidades distintamente humanas. Em outras palavras, a IA não deve substituir a pessoa; deve ajudá-la a operar em um nível mais elevado.
Saí da palestra pensativo, pois, como pai de dois estudantes — um ainda no ensino fundamental —, muito tenho me perguntado sobre o impacto da IA na educação deles. Até o surgimento recente da IA, as máquinas apenas processavam dados. Agora, elas interpretam a informação, identificam padrões, geram insights e apoiam as decisões. Antes buscávamos respostas; hoje dialogamos com sistemas que respondem às nossas perguntas.
Essa é a realidade em todas as áreas do conhecimento. Muitos ainda não perceberam a dimensão dessa mudança, mas alguns pensadores já dizem que a história dividirá a civilização entre antes da IA e depois da IA. Seria um exagero? Não sei dizer, mas, cada vez que leio sobre o tema, mais me surpreendo com o seu potencial.
Os benefícios são inúmeros, como já citado acima. Porém, é preciso endereçar os riscos — especialmente para a formação básica das crianças. Pesquisas indicam que hoje mais de 70% dos alunos do ensino médio usam IA; porém, poucos têm recebido treinamento sobre o uso responsável da tecnologia. As perguntas que nós, pais de crianças e adolescentes, nos fazemos em tempos de IA são: qual o limite do seu uso? Não será mais necessário saber escrever um texto? Nem possuir conhecimentos gerais? Nem desenvolver o raciocínio lógico? Nem pensar? Bastará apenas dar um prompt?
A resposta é um sonoro e inequívoco “não”. Mesmo em tempos de IA, continua sendo fundamental estimular e ensinar as crianças a desenvolver e explorar todas as suas habilidades cognitivas. As melhores escolas estão — ou deveriam estar — usando a IA como uma nova forma de aprender, integrada a todas as disciplinas e estimulando o pensamento crítico, transformando o professor em mentor e provocador, preparando as crianças não apenas para usar a IA, mas para compreendê-la, desafiá-la e tomar decisões melhores com o seu apoio.
Gostemos ou não, a IA é um caminho sem volta. É preciso encarar, entender e saber fazer o melhor uso da tecnologia. Os profissionais mais requisitados no futuro (ou quem sabe já no presente) serão aqueles capazes de usar a IA para potencializar — e não substituir — o seu conhecimento e suas habilidades. Afinal, como declarou o professor Locke, ao encerrar a sua palestra: “o gênio saiu da garrafa”.