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Direitos sustentáveis: quem paga a conta das grandes transformações?

Ampliar direitos, tipo escala 6x1 e gratuidade de transportes é um avanço. O verdadeiro desafio é torná-los sustentáveis para trabalhadores

Escala 6x1 e RH        (SeventyFour/Shutterstock)

Escala 6x1 e RH (SeventyFour/Shutterstock)

Cris Arcangeli
Cris Arcangeli

CEO da beuty'in

Publicado em 20 de outubro de 2026 às 11h59.

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Depois de mais de quatro décadas empreendendo, aprendi uma regra que nunca falhou: nenhuma decisão elimina custos. Ela apenas decide quem irá absorvê-los. Essa talvez seja a principal reflexão por trás do debate sobre o fim da escala 6x1.

Antes de qualquer interpretação, quero deixar claro meu ponto de partida. Sou favorável a jornadas de trabalho mais inteligentes. Acredito que qualidade de vida, saúde mental e equilíbrio entre vida pessoal e profissional deixaram de ser benefícios para se tornarem fatores de produtividade. Pessoas descansadas produzem melhor, inovam mais e tomam decisões melhores. O mundo inteiro está caminhando nessa direção.

O que me preocupa não é o destino. É o caminho escolhido para chegar até ele.

Sempre que uma mudança dessa magnitude entra em discussão, a primeira pergunta deveria ser econômica, não ideológica: como essa transição será financiada?

Ao longo da minha trajetória como empresária, nunca tomei uma decisão olhando apenas para o resultado que eu desejava alcançar. Também precisava entender quanto ela custaria, quem seria impactado e quanto tempo levaria para produzir os efeitos esperados.

É assim que empresas sobrevivem. E acredito que o mesmo princípio deveria orientar grandes transformações nas políticas públicas.

Quando uma empresa enfrenta um aumento de custos, ela tem poucas alternativas. Pode ganhar eficiência, investir em tecnologia, reduzir margem, reajustar preços ou rever contratações. A estratégia muda conforme o setor, mas a matemática continua sendo a mesma.

Na economia, as contas sempre fecham. A única diferença é descobrir onde elas vão fechar. Por isso olho para essa discussão pensando, principalmente, nos pequenos empresários.

Quem administra um restaurante, uma padaria, uma farmácia, um hotel ou uma pequena indústria sabe que nem toda operação pode simplesmente reduzir horas de funcionamento. Há negócios que precisam manter atendimento contínuo todos os dias. Nesses casos, jornadas menores significam reorganizar escalas, contratar mais pessoas ou investir em ganhos de produtividade. Tudo isso exige planejamento, capital e tempo.

É justamente aí que a discussão ganha profundidade.

Segundo o Sebrae, os pequenos negócios representam cerca de 95% das empresas brasileiras, respondem por aproximadamente 26,5% do Produto Interno Bruto e foram responsáveis por grande parte dos empregos formais criados nos últimos anos. São empresas que, em sua maioria, operam com margens apertadas e acesso limitado ao crédito. Para elas, previsibilidade não é conforto. É sobrevivência.

Isso não significa que reduzir a jornada seja um erro. Significa que uma boa ideia precisa ser acompanhada de um plano capaz de fazê-la funcionar.

Os países que conseguiram avançar nessa agenda entenderam exatamente isso. Islândia, Bélgica e Reino Unido realizaram testes, avaliaram resultados e implementaram mudanças de forma gradual. Em muitos casos, observaram aumento da satisfação dos trabalhadores e ganhos de produtividade. Mas também descobriram que os impactos variam enormemente entre setores econômicos. O que funciona para uma empresa de tecnologia pode não funcionar para um hospital. O que faz sentido para um escritório dificilmente será replicado da mesma forma em uma indústria que opera vinte e quatro horas por dia.

Não existe solução única para realidades completamente diferentes. Esse talvez seja um dos maiores desafios das políticas públicas: reconhecer que a economia não é homogênea.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostra que países mais produtivos conseguem sustentar jornadas menores porque geram mais valor por hora trabalhada. Essa é uma diferença importante. Antes de discutir apenas quantas horas trabalhamos, precisamos discutir quanto conseguimos produzir durante essas horas.

Produtividade continua sendo a variável mais importante dessa equação. Esse raciocínio também vale para outras iniciativas em debate, como a proposta de ampliar a gratuidade do transporte público nos finais de semana.

A ideia é positiva. Facilitar o acesso das pessoas à cidade, estimular o comércio e ampliar oportunidades de lazer são objetivos legítimos.

Mas existe uma diferença entre um serviço gratuito para o usuário e um serviço sem custo. Ônibus, metrôs e trens continuam consumindo combustível, energia, manutenção, tecnologia, infraestrutura e mão de obra. Quando o passageiro deixa de pagar, alguém continua financiando toda essa operação. Pode ser por meio do orçamento público, dos impostos, da realocação de recursos ou do aumento do endividamento.

A economia tem uma característica pouco romântica: ela não reconhece a palavra gratuito. Sempre existe alguém financiando a conta, ainda que isso nem sempre seja percebido.

Dizer isso não significa ser contra políticas sociais. Muito pelo contrário. Significa querer que elas durem. Ao longo da minha vida, aprendi que construir é muito mais difícil do que anunciar. Criar uma empresa exige anos. Destruí-la pode levar poucos meses. Isso vale para políticas públicas. Aprovar uma lei é apenas o começo. O verdadeiro desafio é fazer com que ela continue funcionando cinco, dez ou vinte anos depois.

É por isso que gosto de falar em direitos sustentáveis.

Direitos sustentáveis são aqueles que conseguem melhorar a vida das pessoas sem enfraquecer quem gera empregos nem comprometer a capacidade financeira do Estado. Não existe contradição entre proteger trabalhadores e preservar empresas. Pelo contrário. Uma depende da outra.

Empresas saudáveis contratam, investem, inovam e pagam impostos. Trabalhadores valorizados produzem mais, consomem mais e impulsionam o crescimento. Quando esses interesses caminham juntos, toda a sociedade ganha.

O verdadeiro debate nunca deveria ser apenas entre empresários e trabalhadores. Deveria, também, ser entre políticas que funcionam apenas no discurso e políticas que permanecem de pé quando encontram a realidade. Porque boas intenções mobilizam. Mas são a produtividade, o planejamento e a responsabilidade econômica que transformam boas ideias em prosperidade.

Depois de tantos anos empreendendo, continuo acreditando na mesma regra que aprendi lá atrás: toda grande conquista precisa ser sustentável.

Porque aprovar uma mudança exige maioria.

Fazer essa mudança melhorar, de fato, a vida das pessoas exige algo muito mais difícil: fazer a conta fechar para todos.