As dificuldades pós-Brexit para os negociadores de arte britânicos

Empresas britânicas em vários setores, incluindo arte e antiguidades, estão agora descobrindo que o comércio não é tão livre quanto esperavam

"Você simplesmente entrava em uma van, dirigia até a Europa e cruzava todas as fronteiras para comprar antiguidades decorativas. Passava direto pela alfândega francesa. Era perfeito", disse Andrew Hirst, comerciante britânico especializado em tecidos antigos, que em 2018 se mudou com a família para a Irlanda, depois da votação para que o Reino Unido deixasse a União Europeia.

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O negócio de Hirst ainda fica em Londres, e ele afirmou temer que a combinação do Brexit e da pandemia do coronavírus possa pôr um fim a seu comércio especializado.

O Reino Unido deixou a UE em janeiro de 2020, mas seguiu as regras desta até que um novo acordo comercial negociado com o bloco entrasse em vigor em primeiro de janeiro deste ano. Mas as empresas britânicas em vários setores, incluindo arte e antiguidades, estão agora descobrindo que o comércio não é tão livre quanto esperavam.

O imposto sobre o valor agregado, ou IVA – taxação sobre bens e serviços que geralmente é paga pelos consumidores –, agora é pago nas importações de obras de arte entre o Reino Unido e a União Europeia. Os revendedores de todos os níveis do setor também têm de lidar com custos imprevistos, administrativos e de transporte, que estão prejudicando sua rentabilidade.

"Não vou à Europa comprar antiguidades de novo", garantiu Hirst.

O Reino Unido era o segundo mercado do mundo para arte e antiguidades em 2019, depois dos Estados Unidos, com US$ 12,7 bilhões de vendas – 20 por cento do mercado global total, de acordo com o Relatório Global do Mercado da Arte feito pela Art Basel e pela UBS em 2020. Porém, devido à turbulência com a implantação do Brexit, acrescentou o relatório, o mercado britânico caiu nove por cento em 2019, enquanto as vendas na França, o próximo maior mercado da Europa, cresceram sete por cento.

Desde primeiro de janeiro, os colecionadores da União Europeia, onde os países-membros estabelecem as próprias taxas de impostos, agora precisam pagar o IVA, que varia entre 5,5 por cento (França) e 25 por cento (Dinamarca) sobre arte ou colecionáveis importados do Reino Unido. (Este por sua vez cobra cinco por cento pelos itens provenientes do bloco.)

"O Brexit fez do Reino Unido um país distante. Isso só dificultou as coisas, aumentando o trabalho dos burocratas e punindo artistas e comerciantes honestos em suas galerias. Acho que a única saída para as galerias britânicas é abrir uma filial na UE", observou Andre Gordts, colecionador belga que faz parte de um de um número desconhecido de compradores internacionais que silenciosamente transferiu sua coleção depois do referendo do Brexit para evitar o pagamento de IVA. Em 2016, ele vendeu seu apartamento em Londres e se mudou permanentemente para Bruxelas.

Ursula Casamonti, diretora da Tornabuoni Art, importante galeria italiana especializada em arte moderna e contemporânea, com filiais na Inglaterra, na França e na Suíça, disse que a concessionária agora teria de pagar milhares de euros em encargos administrativos ao transportar obras de arte para montar exposições: "Os custos administrativos, fiscais, de remessa e de tempo para fazer negócios no Reino Unido aumentaram agora. Embora ainda amemos Londres, hoje temos uma ideia mais negativa dela como centro internacional de arte moderna e contemporânea."

Victor Khureya, diretor de operações da Gander & White, uma das maiores transportadoras especializadas em arte no Reino Unido, afirmou que houve um aumento "bastante significativo" no custo do transporte desde o Brexit. "Há muitas questões administrativas, muita documentação e muitos problemas que vão surgindo. Isso resulta em atrasos, que são caros", declarou, observando que um carregamento recente acabou 24 horas atrasado graças a um oficial da alfândega francesa que entendeu mal os formulários relevantes.

Khureya afirmou que um carregamento que, antes do Brexit, custava cerca de 250 libras, ou US$ 340, chega agora a quase mil libras.

Se uma obra de arte vale muitos milhares de libras, esses custos de transporte representam um aumento relativamente marginal. Mas o Brexit também resultou em aumentos punitivos no custo do transporte de itens de menor valor.

Thomas Heneage, negociante há muito estabelecido em Londres e especializado em livros de arte, contou, em uma entrevista recente, que em janeiro vendeu um item por 75 libras, ou cerca de US$ 100, a um cliente na França. O entregador adicionou taxas que somavam mais de US$ 60, incluindo "subsídio ao combustível", "ajuste do Brexit" e "taxas e impostos" que eram quase quatro vezes o que normalmente cobravam. Heneage informou que o cliente cancelou o pedido.

Os problemas no topo do mercado de leilões, no entanto, parecem ser mínimos, segundo Sebastian Fahey, diretor executivo de operações europeias da Sotheby's. "Para a grande maioria dos compradores e vendedores da Sotheby's, não há mudança pós-Brexit", garantiu Fahey, acrescentando que indivíduos da União Europeia representavam apenas uma "pequena minoria" dos compradores nos leilões de sua empresa em Londres. Ele comentou que as novas taxas de IVA para importação de itens da Grã-Bretanha para o bloco "não serão diferentes da situação existente anteriormente nas compras em locais fora da UE, como Nova York ou Genebra".

Alguns comerciantes e colecionadores em países da União Europeia com altos impostos sobre o comércio de arte, como a Alemanha, veem o Brexit como uma oportunidade.

"No que se refere ao comércio entre a Alemanha e o Reino Unido, houve de fato algumas vantagens", disse Johann König, um dos principais negociadores de arte contemporânea de Berlim, que também tem uma galeria em Londres. König mencionou que a arte comprada na Alemanha poderia ser levada para a Grã-Bretanha de forma relativamente barata e que as peças compradas lá estariam sujeitas ao IVA de importação de sete por cento, enquanto a Alemanha cobrava 19 por cento em transações domésticas.

"Acredito que, em longo prazo, uma vez que o período de adaptação e a Covid tenham passado, Londres manterá sua importância no cenário europeu e global como um grande centro cultural. Vamos manter nossas atividades no Reino Unido e provavelmente até mesmo ampliá-las", garantiu König.

Hirst, o negociante têxtil britânico que agora vive na Irlanda, afirmou que também viu oportunidades no Reino Unido pós-Brexit – desde que consiga se manter no negócio.

Até dezembro, quando o governo impôs um bloqueio mais rigoroso na Inglaterra, ele viajava de Cork, na Irlanda, para Londres todas as semanas, para fazer negócios às sextas e aos sábados em uma barraca ao ar livre no popular mercado de antiguidades na Portobello Road.

Hirst disse que espera que milhares de pequenas empresas entrem em falência, criando espaço para as que sobreviverem. "Haverá os estoques das empresas falidas. Talvez eu tenha de vender tecidos contemporâneos, em vez das coisas bonitas e antigas que eu costumava comprar na Europa. É questão de me adaptar ou morrer."

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