Mulheres no Senado 2026 (Mwivanda Gloria/Shutterstock)
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Publicado em 30 de abril de 2026 às 10h00.
Por Tashi de Fáveri*
A história política das mulheres no Brasil começa com um paradoxo. A primeira mulher com direito a uma cadeira no Senado não foi escolhida pelo povo nem representava um avanço de igualdade. Era uma princesa, herdeira de um trono sustentado pela escravização.
O gesto mais lembrado de sua vida, a assinatura da Lei Áurea, representou uma falsa liberdade dentro das regras de um sistema que seguia colonizando corpos e vontades. Enquanto o país celebrava a “redentora”, milhares de mulheres negras continuavam sem voz, sem voto e sem poder. Desde então, o Brasil aprendeu a admirar símbolos femininos, mas continua negando o poder real às mulheres de verdade.
A persistente ausência feminina nos espaços de decisão não é consequência da falta de interesse das mulheres pela política. É resultado de uma estrutura desenhada por homens e a serviço do poder masculino. Desde o Império, o sistema político brasileiro foi projetado para concentrar decisão, riqueza e visibilidade nas mãos de poucos, quase sempre homens brancos.
As mulheres, por séculos, foram relegadas à esfera doméstica sob uma cultura de tutela e vigilância moral que ainda ressoa. O Senado, entre todas as instituições, é talvez o maior símbolo dessa herança. Criado em 1824, num país escravocrata e elitista, foi pensado como uma casa de permanência e estabilidade, e permaneceu assim: pouco acessível, dominada por famílias políticas e sustentada por hierarquias de gênero e classe
Mais de um século se passou até que uma mulher efetivamente sentasse no plenário do Senado. Em 1979, Eunice Michiles, do Amazonas, suplente do senador João Bosco Ramos de Lima, assumiu o mandato e tornou-se a primeira senadora brasileira (Agência Senado, 2023). Não chegou por voto direto, mas por um mecanismo que tradicionalmente beneficia homens e marginaliza mulheres.
A primeira mulher eleita diretamente só viria em 1990, com Júnia Marise, de Minas Gerais, e Marluce Pinto, de Roraima. Era o início de uma presença ainda tímida, quase sempre mediada por vínculos familiares ou políticos masculinos.
Desde então, apenas 47 mulheres ocuparam o Senado Federal, entre titulares e suplentes confirmadas. Em contrapartida, mais de mil homens já passaram pela Casa. Hoje, em 2026, o Senado conta com 81 cadeiras, das quais 15 são ocupadas por mulheres, o equivalente a 18,8% do total (G1, 2024). Dessas 15, apenas uma é mulher negra e, em toda a história, nenhuma mulher indígena foi eleita para o cargo (Agência Senado, 2024). Esses números, considerados recordes, ainda representam um atraso profundo quando comparados com países vizinhos da América Latina, onde a paridade já é regra parlamentar.
A sub-representação das mulheres é mantida pelos mesmos mecanismos de poder masculino: desigualdade de financiamento das campanhas, controle partidário e exclusão de instâncias de decisão. O sistema político brasileiro, mesmo com cotas de gênero, continua falhando em garantir condições reais de disputa.
As candidaturas femininas recebem menos recursos, menos tempo de rádio e televisão e são frequentemente usadas apenas para cumprir a lei. Esse cenário é ainda mais hostil às mulheres negras e indígenas, que enfrentam o racismo institucional somado ao machismo.
As violências políticas de gênero completam o ciclo da exclusão. Incluem agressões verbais, interrupções constantes de fala, campanhas difamatórias e ameaças. Muitas vezes essas violências partem dos próprios colegas de partido ou de mandato.
No Senado, o poder é mantido também pelo silenciamento: mulheres são deslegitimadas, ridicularizadas e isoladas em processos de negociação e decisão. Essa violência simbólica é silenciosa, mas constante.
Apesar desse bloqueio histórico, há uma força crescente que emerge à margem das estruturas formais. Organizações e coletivos feministas e antirracistas vêm construindo caminhos coletivos para ampliar a presença das mulheres na política e para desafiar o modelo hierárquico que as mantém afastadas do poder.
A Elas no Poder é um exemplo dessa transformação em curso. Desde 2019, atua para impulsionar a participação ativa de mulheres e adolescentes em espaços de decisão, investindo em formação política, advocacy e comunicação estratégica. Seu trabalho conecta formação de base, mobilização digital e incidência institucional e o faz olhando para a equidade de gênero e de raça como partes inseparáveis da democracia.
Ao lado da Elas no Poder, iniciativas como o Instituto Marielle Franco, o Instituto Update e o Mulheres Negras Decidem fortalecem uma ecologia política que resiste aos retrocessos e propõe novos modos de pensar o poder. São espaços que promovem a voz, a presença e a proteção das mulheres, especialmente das mulheres negras, trans, periféricas e indígenas, redesenham o que entendemos por representatividade e devolvem ao debate público a urgência da justiça social e da diversidade.
Esses movimentos demonstram que mudar o Senado e as estruturas partidárias não depende apenas de alterar leis eleitorais, mas de sustentar redes de solidariedade, formação e segurança política. A democracia só se fortalece quando as mulheres ocupam o poder com legitimidade, liberdade e permanência.
O Senado é, pela própria Constituição, a casa da permanência. Cada estado tem três cadeiras fixas, com mandatos de oito anos. É uma estrutura de alto custo político e financeiro, profundamente concentrada.
Disputar uma vaga exige acesso a financiadores, alianças partidárias e visibilidade pública. Elementos como esses continuam restritos aos homens dentro dos partidos. As eleições de 2026, porém, mudam esse cenário num ponto crucial: serão renovadas 54 das 81 cadeiras, ou seja, dois terços do Senado. Essa configuração torna o pleito de 2026 uma oportunidade histórica para alterar a correlação de forças e, potencialmente, romper o domínio masculino sobre a Casa.
Se mesmo com 54 vagas abertas às mulheres permanecerem em minoria, o diagnóstico será inescapável: o bloqueio não é conjuntural, é estrutural. As barreiras colocadas diante das mulheres foram erguidas para que suas presenças continuem sendo exceção, e não regra. Combater essa lógica exige mais do que inclusão numérica; exige transformar as bases que sustentam o poder político no Brasil.
O país de 2026 tem diante de si uma escolha histórica. Pode repetir o gesto simbólico de Isabel, mantendo o discurso da liberdade enquanto preserva a estrutura da exclusão, ou pode redistribuir o poder de modo efetivo.
Ter mulheres no Senado, e especialmente ter mulheres negras, indígenas, periféricas e trans, significa romper com dois séculos de um poder que se pretende neutro, mas sempre foi masculino e branco. Não basta abrir espaço nas fotos ou nas solenidades; é preciso partilhar o poder político, orçamentário e institucional. Essa é a democracia que o Brasil ainda não viveu.
*Tashi de Fáveri é Mestre em Administração Pública, Especialista em Gênero e Diversidade e Diretora de Gestão de Voluntárias e Operações da Elas no Poder