IA e algoritmos moldam a percepção política e amplificam a violência de gênero nas Eleições 2026 (Oscar Wong/Getty Images)
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Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 15h00.
Última atualização em 5 de março de 2026 às 15h59.
Por Juliana Barros*
Em ano eleitoral, o debate sobre democracia costuma se concentrar em propostas, alianças e disputas partidárias. Mas, em 2026, há um elemento que atravessa silenciosamente o processo democrático, a influência crescente da inteligência artificial (IA) e dos algoritmos na circulação de informação política e, com ela, a amplificação da violência política contra as mulheres.
Se antes essa violência se manifestava sobretudo em espaços institucionais e físicos, hoje ela é intensificada por ambientes digitais estruturados por sistemas de recomendação, automação e produção massiva de conteúdo, onde há pouca ou nenhuma regulamentação.
A tecnologia digital não é mais um meio neutro de comunicação, mas um campo de disputa política e social em que algoritmos e inteligência artificial influenciam a formação de opinião, amplificam discursos de ódio e agravam a violência política de gênero online.
Esse fenômeno não é isolado, como mostra o relatório internacional sobre experiências latino-americanas com IA e integridade da informação. A pesquisa observou que durante o processo eleitoral mexicano de 2024, foram registradas 205 queixas de violência política de gênero, das quais 42% envolveram ataques em redes sociais, incluindo casos em que imagens manipuladas por IA foram usadas para difamar candidatas, colocando suas faces em corpos nus ou em contextos humilhantes.
No Brasil, a violência política de gênero é tipificada pela Lei nº 14.192/2021. Desde sua promulgação, mais de 320 casos foram acompanhados pelo Ministério Público Eleitoral, sendo aproximadamente 153 em ambiente virtual.
Mas os números revelam algo ainda mais profundo. Segundo pesquisa do Instituto Alziras, 58% das prefeitas brasileiras já sofreram violência política de gênero e 98% das parlamentares negras candidatas nas eleições de 2020 afirmaram ter sofrido violência política de gênero e raça.
Os dados mostram que a violência não é um caso isolado, ela é sistêmica, racializada e desproporcional. O mesmo padrão aparece na pesquisa Perfil da Mulher na Política - 2ª edição (2024), da Elas no Poder. Entre 780 mulheres respondentes mais de 10% sofreram ataques virtuais durante as campanhas e 46% das vítimas desses ataques eram mulheres negras.
O MonitorA analisou um conjunto robusto de interações online durante o período eleitoral que mostram que durante as eleições municipais de 2024, mais de 1,3 milhão de comentários em vídeos eleitorais no YouTube, dos quais cerca de 136 mil continham termos ofensivos direcionados a mulheres e que muitas vezes deslegitimavam suas propostas e focavam em características pessoais, aparência ou identidade.
A dimensão racial da violência digital é incontornável. Mulheres negras são as mais atacadas e isso se agrava em ambientes digitais, onde a desumanização é frequentemente amplificada por dinâmicas algorítmicas.
Plataformas digitais operam por sistemas de recomendação que priorizam engajamento. Conteúdos que provocam indignação, choque ou raiva tendem a gerar mais interação e, portanto, mais visibilidade. Isso significa que ataques misóginos, discursos racistas e campanhas de desinformação não apenas circulam, eles podem ser impulsionados estruturalmente pela lógica da plataforma.
Relatórios independentes têm documentado o uso de ferramentas baseadas em inteligência artificial em campanhas eleitorais na América Latina incluindo deepfakes, áudios falsos e conteúdos manipulados para desinformar eleitores ou atacar adversários. Monitoramentos do DFRLab identificaram 78 casos de deepfakes políticos em eleições municipais brasileiras de 2024, com distribuição em WhatsApp e redes sociais como Instagram e TikTok, enquanto análises regionais apontam ocorrências semelhantes na Argentina e em outros países latino-americanos. Estudos sobre desinformação no Brasil também mostram que conteúdos falsos gerados com IA cresceram mais de 300 % entre 2024 e 2025.
Para adolescentes, muitos dos quais estão participando de eleições pela primeira vez, essa realidade algorítmica tem efeitos formativos significativos. Quando plataformas recomendam conteúdos polarizados ou violentos, não apenas moldam percepções sobre candidaturas e políticas públicas, mas também normalizam a hostilidade como parte do debate político, especialmente quando dirigida a mulheres e grupos minorizados. Sendo assim, a pergunta que não se cala é o que está sendo aprendido sobre liderança, poder e democracia?
Nos dias de hoje, essa formação política acontece mediada por dados, sistemas automatizados e modelos de recomendação que não são neutros. Quando o ódio se torna recorrente e visível, ele se normaliza e isso não apenas afeta candidatas atuais. Afeta futuras lideranças. Afeta meninas que consideram, ou desistem de considerar, a política como espaço possível.
A inteligência artificial, por si só, não é o problema. Ela também pode ser utilizada para monitorar discurso de ódio, identificar padrões de violência coordenada e apoiar mecanismos de denúncia. Mas isso exige diversos fatores como transparência algorítmica, responsabilização das plataformas, educação midiática e digital nas escolas e políticas públicas voltadas à proteção de mulheres na política.
Em um contexto em que 58% das prefeitas já sofreram violência e 98% das parlamentares negras relatam ataques, ignorar o papel dos sistemas digitais é ignorar parte central do problema.
As eleições de 2026 não serão apenas disputadas nas urnas. Serão disputadas nos feeds, nos grupos de mensagem, nos sistemas de recomendação e nas infraestruturas invisíveis de dados.
Se a democracia passa, cada vez mais, por ambientes mediados por IA, então a proteção das mulheres, especialmente das mulheres negras, também precisa estar no centro do debate tecnológico. Porque quando o algoritmo amplifica o ataque, não é apenas uma mulher, uma candidatura que é atingida. É a própria democracia que se fragiliza.
*Juliana Barros é jornalista, mestranda em Comunicação Digital e Ciência de Dados e Gerente de Comunicação na Elas no Poder.