Lula: Renato Meirelles afirma que o O grande gargalo da popularidade do governo é a não presença do petista (Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 18 de abril de 2026 às 08h10.
Última atualização em 18 de abril de 2026 às 11h27.
O aumento de renda e medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda não têm sido suficientes para mudar a percepção econômica da população — nem para reforçar a associação positiva com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Essa é a leitura de Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva ao analisar dados recentes de comportamento e opinião pública.
“A população acha que o governo não entregou aquela melhora de vida, aquela picanha com cerveja prometida durante a campanha eleitoral”, diz Meirelles em entrevista à EXAME.
Segundo o pesquisador, há uma combinação de fatores que ajuda a explicar esse descolamento entre indicadores macroeconômicos e a sensação no dia a dia.
Mesmo com emprego elevado, inflação controlada e programas sociais em funcionamento, o peso dos juros no crédito ao consumidor e novas formas de consumo — como apostas nas bets e gastos com caneta emagrecadora — continuam pressionando o orçamento das famílias.
"A sensação de quem está no dia a dia, indo na feira, é que a vida continua difícil", diz.
Nesse cenário, a avaliação do governo Lula não melhora na mesma velocidade da renda. A população não conecta esse ganho ao governo e aponta os bancos como responsáveis pelas dificuldades. Para Meirelles, isso pode influenciar a eleição de 2026.
Renato Meirelles: especialista afirma que eleição está longe de estar decidida (Divulgação /Divulgação)
O especialista ainda aponta que a discussão sobre o fim da escala 6x1 pode ser determinante para o governo nesse cenário de dificuldade de popularidade.
"Do ponto de vista estritamente eleitoral, o melhor cenário para o governo é a luta pelo fim da jornada 6 por 1. Não necessariamente a aprovação nesse momento da 6 por 1. Mas tem uma vantagem de isolar, novamente, a oposição da situação", afirma.
Por que a população não sente o aumento de renda da isenção Imposto de Renda e nem associa isso ao governo?
Tem algum tempo que temos detectado ralos para o dinheiro que está sendo colocado na economia. Continuamos vivendo o pleno emprego, uma inflação sob controle, aumento real do salário mínimo, consolidação dos programas sociais do governo, aumento da renda média, e a sensação de quem está no dia a dia, indo na feira, é que a vida continua difícil. E o que permaneceu de forma muito consistente nesse período e, de alguma forma, até aumentou no ano passado, são os juros. Mas não estou falando só dos juros do Banco Central. Estou falando dos juros cobrados no carnê, dos juros do cartão de crédito, dos juros do boleto, desses juros que acabam fazendo com que esse brasileiro se enrole nas contas. E, ao se enrolar nas contas, ele entra naquela bola de neve da qual não consegue sair.
E como o governo e o Lula é visto nessa situação?
A população acha que o governo não entregou aquela melhora de vida, aquela picanha com cerveja que foi prometida durante a campanha eleitoral. Mas acha que está enrolada no banco não por culpa do governo, mas por conta dos juros. Na prática, isso significa que um governo que precisa de inimigo. O governo sabe que, simplesmente, o discurso em defesa da democracia não será suficiente para ganhar as eleições, precisa achar um inimigo. E esse inimigo, claramente, na visão da população, são os bancos. São os bancos que estão cobrando juros da população, são os bancos que são os criminosos de colarinho branco. Eu não concordo necessariamente que sejam os bancos, eu estou entendendo que a população enxerga um vilão a ser combatido. Resta saber se essa estratégia de campanha será ou não será utilizada pela campanha de reeleição do presidente Lula.
Qual o peso de bets na renda das pessoas?
Olha, as bets, ou as apostas, são uma questão, seja na economia, seja no hábito da população, aqui no Brasil, na Inglaterra e em qualquer lugar do mundo. Olhei estudo da LCA e me pareceu consistente do ponto de vista de mostrar que o crédito do Brasil é um crédito ruim. E isso não tem a ver com a educação financeira da população, isso tem a ver com a taxa de juros. A questão é que a mesma taxa de juros que foi insistentemente cobrada para ser reduzida na presidência anterior do Banco Central parou de ser cobrada pelo governo, essa redução da taxa de juros. A pergunta é: OK, mas as bets endividam ou não endividam? Menos do que os juros.
Isso entra na estratégia do governo contra o BBB (bancos, bets e bilionários)?
E, quando pensa no BBB, nos bancos, nas bets e nos bilionários, temos os bancos que, ao criticar os bancos — além de bater no inimigo que todo mundo gosta de bater —, a direita tende a sair em defesa, e isso isola a direita da população. E a mesma coisa dos bilionários. Afinal de contas, quem defende bilionário, a não ser a direita? Uma parcela grande da população é contrária ao quanto que os milionários pagam de impostos, por exemplo. Defendem a taxação das grandes fortunas, defendem imposto de renda progressivo. São esses dois temas, diferentes das bets, que tendem a ganhar popularidade no processo eleitoral e a promover uma diferenciação entre oposição e situação no governo.
Existem outra fugas do dinheiro extra da população?
Olha, tem a fuga das plataformas internacionais como Shein, Shopee, Temu. Tem a fuga do dinheiro das bets. Tem a do endividamento, que é a maior fuga possível. E tem, agora, a das canetas emagrecedoras, que já estão presentes em um terço dos lares brasileiros. É um ticket médio muito alto. O problema não é uma mudança de hábito — as pessoas realmente emagrecem, realmente passam a ter uma alimentação mais saudável —, mas é uma grana muito, muito substancial que sai para as canetas emagrecedoras. Muitas dessas canetas, inclusive, são falsificadas, muitas vêm do Paraguai. Estive fazendo pesquisa de campo na periferia e o que vimos foi a venda de aplicação de caneta emagrecedora. É igual ao cigarro picado, é caneta emagrecedora picada. Pagando R$ 200 cada aplicação e, na prática, fazendo com que a população, em especial da faixa de dois a cinco salários mínimos — que é uma faixa em que o presidente Lula enfrenta dificuldade —, seja um público-alvo das canetas hoje. Mais da metade de quem usa caneta, contando legais e ilegais, são da classe C.
O fim da jornada 6 por 1 pode impactar na avalaição de Lula e consequentemente a eleição?
Do ponto de vista estritamente eleitoral, o melhor cenário para o governo é a luta pelo fim da jornada 6 por 1. Não necessariamente a aprovação nesse momento da 6 por 1. Mas tem uma vantagem de isolar, novamente, a oposição da situação. Nós temos várias declarações da oposição contrárias ao fim da jornada 6 por 1. O Hugo Motta e o Centrão estão tentando contemporizar isso, roubar a autoria da matéria, mas ela é claramente identificada com lideranças da esquerda, em especial com a liderança da Erika Hilton. Se o governo encampa essa luta, e essa luta se dá durante o processo eleitoral, ela é mais um componente — além da crítica aos bancos e aos bilionários — que pode levar o governo a reagir a esse avanço que a candidatura do Flávio Bolsonaro teve, segundo as últimas pesquisas.
Mais importante aprovar ou mostrar que está tentando?
O grande gargalo da popularidade do governo é a não presença do Lula. Toda vez que o Lula entra em cena, as intenções de voto do governo, ou a aprovação, crescem. Quando o Lula para, a oposição ganha terreno. A ideia de ter uma campanha pelo fim da jornada 6 por 1 leva um movimento ao governo, uma sensação de que algo está sendo feito para melhorar a vida das pessoas. É esse o mérito que o movimento pelo fim da jornada 6 por 1 pode trazer para agitar a campanha pela reeleição do presidente Lula. Pensando do ponto de vista eleitoral. Eu não estou fazendo juízo de valor sobre absolutamente nada do que está sendo posto na pauta aqui.
Como explicar a força de Flávio Bolsonaro nas pesquisas?
É assim: assim que o Flávio Bolsonaro anunciou que era a escolha do pai para concorrer à Presidência da República, ou seja, anunciou a sua pré-candidatura, o primeiro movimento que nós fizemos foi dizer: ele é o candidato mais forte para combater o Lula. Diferente do que parte do mercado acreditava, que o Tarcísio era o mais forte, falavamos: vamos voltar a 2022. A pergunta é muito simples: algum candidato, o próprio Haddad, por exemplo, venceria Jair Bolsonaro se não fosse o Lula? Não. Só o Lula venceria Jair Bolsonaro. E esse raciocínio permanece. Será que alguém, fora o Bolsonaro, ganharia do Lula? Não. Só o Bolsonaro ganharia do Lula. Por ter o mesmo sobrenome, naturalmente a transferência de voto ocorreria na velocidade que está ocorrendo. Mas, para mim, esse não é o principal ponto apontado pelas últimas pesquisas.
Qual é o principal ponto?
O que podemos observar é que, hoje, no Brasil, segundo a pesquisa da Quaest, 62% dos eleitores — ou 96 milhões de eleitores — não sabem declarar em quem votariam na pesquisa espontânea. E a pesquisa espontânea é o que melhor retrata a fidelidade do eleitor. “Ah, Renato, é muita gente.” Bom, vamos pegar outro dado da própria Quaest: mais de 40% afirmam que estariam dispostos a mudar o voto. São mais de 60 milhões de eleitores. Numa eleição que será decidida por 2% dos votos, 1% dos votos. Portanto, é uma irresponsabilidade afirmar que hoje a eleição já está dada. É mais ou menos como você estar na fila da sorveteria. Você escolhe os sabores na fila, chega lá, pede para provar e muda. É mais ou menos esse o processo eleitoral. Então, você não pode, em abril, dizer o que vai acontecer em outubro.
Já dá para saber o tema da eleição? Segurança ou jornada 6x1?
Não dá — e pode, inclusive, não ser nenhum desses. Um dos temas foi a facada. Em 2018. Se voltarmos para 2014, caiu o avião com o Eduardo Campos, a Marina cresceu, mas a defesa dela sobre independência do Banco Central foi captada pela oposição para dizer que ela defendia os bancos. Uma coisa não tinha nada a ver com a outra, mas ficou essa imagem. Não saberiamos que o tema seria Banco Central naquela campanha. Isso é muito conjuntural. Tem que esperar a onda chegar mais próximo. Agora, o que as nossas pesquisas apontam é que o brasileiro está cansado. É um sentimento muito de estafa. E a mudança é uma mudança de tudo isso que está aí, mas sem a raiva e a revolta que foi em 2018.
Esse sentimento forte de mudança pode prejudicar o Lula?
Vamos lembrar que a Dilma foi reeleita num cenário em que 70% dos brasileiros queriam mudança. Então, o fato de querer mudança não significa que a mudança seja o Flávio Bolsonaro. Os eleitores que estão decidindo ainda em quem vão votar e vão mudar de opinião várias vezes estão tentando identificar qual candidatura consegue apresentar a melhor oferta de futuro. Numa lógica mais relacionada ao medo, o debate sobre segurança pública ganha força. Mas não é a segurança pública do “bandido bom é bandido morto”. É a segurança pública do cotidiano, como roubo de celular. Já uma discussão mais econômica historicamente favorece candidaturas de esquerda, porque mesmo eleitores conservadores defendem Estado presente, programas sociais, taxação de grandes fortunas. Então, esse é o território de batalha que precisa ser acompanhado com lupa.