Católicos discordam da atuação de Bolsonaro na Amazônia, aponta pesquisa

Participantes do Sínodo se reunirão para debater temas como a criminalização e o assassinato de líderes e ativistas defensores da floresta

Sete em cada dez católicos brasileiros consideram muito importante preservar a Amazônia, e 85% disseram concordar que atacar a Amazônia é um pecado. É o que aponta uma pesquisa feita pela instituto Ideia Big Data para avaliar a posição dos fiéis sobre políticas para a região por ocasião do Sínodo de bispos para a Amazônia, convocado pelo papa Francisco, que começou neste domingo, 6.

A pesquisa, comissionada pelas ONGs WWF-Brasil, Instituto Clima e Sociedade (iCS) e Movimento Católico Global pelo Clima (GCCM), ouviu 1.502 católicos em todo o Brasil no início de junho e analisou também a opinião dessa parcela da população sobre as ações da gestão Bolsonaro para a área ambiental. O levantamento, obtido com exclusividade pelo Estado, será apresentado nesta segunda-feira, 7.

De acordo com a pesquisa, 68% disseram que é importante proteger a Amazônia para o crescimento do País, pois o desenvolvimento nacional depende do meio ambiente protegido, 10% disseram ser irrelevante para o crescimento econômico do País e 10% afirmaram que a preservação ambiental atrapalha o crescimento.

Apesar de feita quase dois meses antes da crise internacional que se formou por causa das críticas do governo federal aos dados que mostravam alta no desmatamento e em decorrência do aumento das queimadas na região, a consulta mostrou que 29% dos católicos consideram a atuação do presidente nessa área como péssima e 12% como ruim. Outros 30% avaliam como regular e 22% como ótima ou boa.

Mais da metade dos católicos entrevistados (52%) disse considerar o desmatamento da Amazônia a maior ameaça à natureza, superando problemas como poluição dos rios e dos mares, vista como principal ameaça por 19% dos entrevistados.

Na pesquisa, os entrevistados foram pedidos para avaliar ações ou declarações do presidente Bolsonaro na área ambiental. A maior parte se mostrou contrária à ideia de acabar com as multas ambientais de quem causa desmatamento (75%) e discordou do enfraquecimento do Ibama (73%).

Os católicos também se mostram contrários à redução de reservas indígenas (67%) e não concordam com a negação dos dados do Inpe sobre desmatamento da Amazônia (63%). Metade também discordou da afirmação de que somos o País que mais preserva o meio ambiente no mundo.

Questionados sobre quais fontes de informação consideram confiáveis sobre a Amazônia, 87% disseram confiar no que diz o papa Francisco sobre o tema; 71% disseram confiar na ONU, 67% nas ONGs e 60% na imprensa. Em relação ao governo brasileiro, a confiança foi de 49% de confiança, e 44% dos entrevistados disseram não confiar no governo quando cita dados em relação à Floresta Amazônica.

Para Igor Bastos, coordenador para países de língua portuguesa do GCCM, o dado sobre o papa pode ser visto como um indicativo de que a maioria da população católica apoia a posição de Francisco no que se refere à preocupação com a Amazônia. "Podemos concluir que é uma minoria, apesar de barulhenta, que é contra o sínodo", diz.

Ele opina que por ter sido feita antes do auge da crise da Amazônia, a pesquisa acaba sendo ainda mais fiel ao que essa população pensa. "São pessoas que não sofreram a influência da comoção internacional. Talvez se a pesquisa tivesse sido feita depois, o resultado seria ainda mais negativo para o governo", afirma.

Para Alice Amorim, coordenadora de política e engajamento do iCS a pesquisa indica que os católicos não consideram o desenvolvimento econômico como algo incompatível com a proteção da natureza.

"Mesmo a população católica sendo tradicionalmente mais relacionada a uma postura conservadora, isso não necessariamente tem uma correlação com falta de preocupação com o ambiente ou de endosso às políticas ambientais do governo", complementa.

Missa no Sínodo

O papa Francisco celebrou neste domingo a missa de abertura da Assembleia Especial do Sínodo para a região Pan-amazônica, que terá início amanhã e que durante 21 dias abordará questões sobre a região, e denunciou as queimadas criminosas que devastaram parte da floresta nos últimos meses.

"O fogo de Deus é calor que atrai e reúne em unidade, que se alimenta com o compartilhar, não com o lucro. O fogo devorador, por outro lado, estende quando querem desenvolver só as próprias idéias, fazer o próprio grupo, queimar o diferente para uniformizar todos e tudo", afirmou o líder da Igreja Católica, também fazendo alusão a temas mais amplos na sociedade atual.

Na Basílica de São Pedro, no Vaticano, o papa Francisco realizou missa com a presença dos 185 padres sinodais, únicos que podem votar nas propostas apresentadas durante o Sínodo, sendo 113 da região da Amazônia, que terá representantes de Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.

Além disso, participam 80 analistas e auditores, 12 convidados especiais, como ex-secretário geral da ONU Ban Ki-moon e o subdiretor-general do departamento de Clima, Biodiversidade, Terra e Água da FAO, René Castro Salazar; assim como estão previstos discursos de representantes indígenas, como Tapi Yawalapoti, que representa às 16 tribos do Alto-Xingu.

Francisco orou à Deus para que inspire todos os que se reunião nos 21 dias de Sínodo e também lembro a missão principal do encontro, que foi convocado há dois anos.

"Renovar os caminhos da Igreja na Amazônia, de modo a não se apagar o fogo da missão", disse.

"Se nosso dias estão marcados pelo 'sempre se fez assim', o dom desaparece, sufocado pelas cinzas dos temores e pela preocupação de defender o status quo", completou o pontífice.

A partir de amanhã, os participantes da Assembleia do Sínodo se reunirão para debater temas como a criminalização e o assassinato de líderes e ativistas defensores da Amazônia, a apropriação e privatização de bens naturais, assim como problemas sociais que frequentemente acompanham a estas situações, como alcoolismo, violência contra as mulheres, exploração sexual, tráfico humano e a perda da cultura originária.

O ponto mais controverso do documento de trabalho, e o que mais tem oposição dos ultraconsevadores, é o estudo dos chamados "viri probati", a ordenação sacerdotal de homens casados para poder garantir os sacramentos nas zonas mais isoladas do mundo, como a Amazônia.

(Com EFE e Estadão Conteúdo)

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