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Meu tratamento pessoal não tem valor, diz Uip em resposta a Bolsonaro

Infectologista rebateu insinuação de que usou hidroxicloroquina em tratamento do novo coronavírus; medicação tem potencial, mas também contraindicação

Uip: postura do presidente motivou ataques virtuais de apoiadores de Bolsonaro aos dois médicos, em especial a Uip, por sua ligação com o governo de São Paulo (Governo do Estado de São Paulo/Fotos Públicas)

Uip: postura do presidente motivou ataques virtuais de apoiadores de Bolsonaro aos dois médicos, em especial a Uip, por sua ligação com o governo de São Paulo (Governo do Estado de São Paulo/Fotos Públicas)

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Clara Cerioni

Publicado em 8 de abril de 2020 às 14h33.

Última atualização em 8 de abril de 2020 às 15h18.

O coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, o infectologista David Uip, rebateu nesta quarta-feira, 8, as publicações do presidente Jair Bolsonaro questionando o tratamento que usou contra o novo coronavírus.

Sem citar o infectologista, Bolsonaro escreveu que "dois renomados médicos no Brasil se recusaram a divulgar o que os curou da covid-19", em uma mensagem que defendia o uso da hidroxicloroquina. Uip, que ficou duas semanas em isolamento para se recuperar da infecção, não afirmou se usou ou não o medicamento.

A postura do presidente motivou ataques virtuais de apoiadores de Bolsonaro aos dois médicos, em especial a Uip, por sua ligação com o governo de São Paulo, comandado por João Doria (PSDB), que protagoniza atritos com o chefe do Planalto durante a crise do coronavírus.

"Enquanto a maioria dos brasileiros foi e é solidária com minha saúde e com minha vida, alguns poucos estão preocupados com meu tratamento pessoal que não tem nenhum valor", disse Uip em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes.

O infectologista reforçou que o uso do remédio tem efeitos adversos, como cardíacos, hepáticos e visuais, e que pacientes têm a privacidade de não falar sobre seu tratamento.

"Presidente, eu respeitei seu direito de não revelar seu diagnóstico", disparou Uip em referência ao fato de que Bolsonaro fez três exames para detectar se contraiu o vírus e não divulgou nenhum. "Respeite meu direito de não revelar meu tratamento. Eu nunca revelei tratamento dos meus pacientes, doenças de meus pacientes sem ser autorizado", continuou.

Ele já vinha sendo questionado desde esta terça-feira, 7, sobre o uso do medicamento depois que começaram a circular imagens de uma receita médica, com o nome de Uip como paciente. A prescrição foi feita pela clínica do próprio infectologista. O médico afirmou que tomará "as providências legais" por conta desse vazamento.

"Minha privacidade foi invadida. A privacidade da minha clínica, que lida com clientes sob sigilo absoluto, foi invadida. Tomarei as providências legais adequadas para essa invasão de minha privacidade e de meus pacientes", disse.

Uip ainda lembrou que, durante reunião com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi ele quem recomendou ao governo que autorizasse o uso da hidroxicloroquina para pacientes internados com covid-19, sob receita médica e autorização formal do paciente. A recomendação foi acatada pelo ministério, que mudou o protocolo para o uso da substância.

O infectologista informou que o uso do medicamento é permitido a todos os hospitais do sistema público e privado. Segundo o secretário estadual de Saúde, José Henrique Germann, o governo de São Paulo recebeu cerca de 200.000 comprimidos de hidroxicloroquina do Ministério da Saúde, redistribuídos aos hospitais públicos.

(Com informações do Estadão Conteúdo)

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