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"Forças Armadas têm papel de fazer valer a Constituição", diz FHC

Ex-presidentes Michel Temer, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor discutiram conjuntura política do país em uma live

Ao analisar a crise política que assola o país, em meio a uma pandemia pelo coronavírus, ex-presidentes do país afirmaram que temem pelo futuro institucional caso o presidente Jair Bolsonaro não mude a forma de conduzir o país e chamaram a atenção para a responsabilidade dos militares com a constituição.

Durante o debate, eles comentaram as declarações de Bolsonaro neste domingo ao participar de um ato que pedia a volta da ditadura no país. Na ocasião, Bolsonaro disse que não aceitaria mais interferência de outros poderes em seu governo e afirmou que tinha o apoio dos militares.

Fernando Henrique Cardoso reprovou a fala do presidente e pediu que as forças armadas garantam o respeito à constituição.

- É inegável que estamos próximos de uma crise institucional. As forças armadas tem um papel importante, de fazer valer a constituição. Não há outro modo. Pode até se interpretar a constituição, mas quanto menos melhor. As forças armadas tem papel enorme de entender a sua função dentro da constituição- afirmou Fernando Henrique.

Ao mesmo tempo, Temer, que já foi preso duas vezes sob acusação de corrupção, descarta a possibilidade de que as forças armadas apoiem qualquer movimento contrário a constituição.

-Eu convivi com as forças armadas e sei que elas têm muita responsabilidade. Tenho convicção de que os militares jamais viriam a público para dizer 'olha, nós vamos patrocinar um rompimento do texto constitucional' - disse Temer.

O ex-ministro Nelson Jobim fez coro com Temer:

- Eu aprendi muito com os militares.O compromisso deles com o estado é muito claro. Tenho certeza que não teremos problema nessa área - afirmou Jobim.

O hoje senador Collor classificou as declarações de Bolsonaro como "extremamente perturbadoras".

-As declarações do presidente são extremamente perturbadoras e sérias porque não são sabemos o que quer dizer com isso. Se formos levar na ponta do lápis, o que ele quer dizer 'estou com minha paciência esgotada, não vou mais admitir isso, tenho o apoio das forças armadas', o que ele deseja com isso ? - indagou.

Destituído do poder em 92, Collor comparou o momento que o governo Bolsonaro atravessa com aquele que viveu nos idos de 92, quando foi afastado do cargo por processo de impeachment. Collor destacou a importância do diálogo com o legislativo para a estabilidade do governo, assim como Fernando Henrique e Temer que também concordaram.

- Desde o ano passado, eu venho alertando sobre o desapego do presidente em relação ao legislativo. Já há em gestação uma crise institucional. Toda essa crise política se coloca num momento de muita gravidade, costumo dizer: esse filme eu já vi, não gostei, e sinto que há algo parecido com o que aconteceu nos idos de 92 - disse Collor.

Fernando Henrique disse que é contra um processo de impeachment de Bolsonaro, assim como Temer. Mas lembraram da importância da liturgia do cargo e de dar exemplos `a população em meio à pandemia, sobretudo usando máscara.

-O nosso presidente em vez de provocar a coesão, ele provoca a ruptura e causa uma tensão permanente. Deixa terminar o mandato. Se cair é por ele (Bolsonaro), não por mim. Os partidos são fracos, mas o congresso é forte. Se não der atenção, se isola e fica mais difícil governar. Mas sou cauteloso sobre medidas radicais, como impeachment - afirma Fernando Henrique. - O presidente tem que dar exemplo, usar máscara. A cadeira é incômoda, mas existe a liturgia do cargo. Ele (Bolsonaro) não dá sinal mínimo.

Temer disse que ligou para Bolsonaro para "dar dois palpites no governo", mas logo viu que suas orientações não foram seguidas.

- Liguei para Bolsonaro e dei dois palpites: o primeiro é que ele deveria decretar isolamento por 10 a 15 dias. O segundo é que não falasse todo dia com a imprensa. Ele até recebeu muito bem, mas percebo que depois conduziu-se de outra maneira - lamentou Temer.

O ex-presidentes também falaram sobre o episódio em que o ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para diretor geral da Polícia Federal (PF).

Ramagem é amigo dos filhos do presidente. Ao deixar o ministério da Justiça, na semana retrasada, o ex-juiz Sergio Moro disse que o presidente queria interferir na PF e trocar o diretor geral, o que acabou culminando na demissão do ex-ministro. Segundo Moro, Bolsonaro queria ter acesso a investigações sigilosas, o que é proibido.

Collor discordou da decisão de Moraes e disse que considera que a nomeação do diretor da PF trata-se de um ato privativo do presidente.

- Nessa questão específica da nomeação do diretor da PF, eu acreditaria que talvez não fosse interessante o Supremo ter entrado nisso.É um ato privativo do presidente - disse Collor, que ainda ponderou. -O presidente tem que entender que ele não encarna a constituição, ela está acima de todos nós. E o judiciário, sendo o guardião da constituição, deve ter um pouco mais de cuidados sobre as decisões presidenciais.

Fernando Henrique pareceu concordar com Collor e disse que o judiciário exagerou.

Os ex-presidentes também demonstraram se mostraram apreensivos com a política externa do país. Criticaram o alinhamento com os Estados Unidos e também as críticas recentes à China, que foram patrocinadas por apoiadores do governo. Acham que o caminho para a política externa é multilateral, enquanto, segundo a avaliação dos ex-presidentes, o governo ruma ao que consideram como "isolacionismo".

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