Como um “Bidencare” poderia ajudar os americanos

O modo como o país votará em novembro irá de fato fazer uma enorme diferença no futuro dos serviços de saúde dos Estados Unidos

Na manhã de 5 de outubro, o maior beneficiário da medicina socializada da América, ainda no meio de um processo em que recebeu tratamento médico num hospital público caro e pago com dinheiro do contribuinte, tuitava furiosamente. Um dos disparos maníacos do presidente Trump, em particular, chamou a atenção de especialistas em saúde pública: a convocação dele para “PROTEJAM DOENÇAS PREEXISTENTES. VOTEM!”

Como sempre, não ficou claro se Trump estava apenas sendo cínico ou se ele também é de fato genuinamente ignorante.

Ele definitivamente mente quando diz ter um plano para a saúde pública dos Estados Unidos melhor e mais barato que o Obamacare. Nenhum plano assim existe, e ele deve ter conhecimento isso.

Mas será que ele sabe que os americanos com doenças clínicas preexistentes já estão protegidos pela Lei dos Serviços de Saúde Acessíveis, que o governo dele vem pedindo à Suprema Corte para invalidar? Será que ele entende que o motivo pelo qual o partido dele jamais ofereceu uma alternativa aceitável à LSSA, em particular uma opção que protegesse doenças preexistentes, é que tal alternativa não é possível? Isso está menos claro.

De todo modo, como o país vota irá de fato fazer uma enorme diferença no futuro dos serviços de saúde – e não só porque Trump, se continuar no poder, irá quase que certamente encontrar um jeito de destruir o Obamacare, fazendo dezenas de milhões de americanos perderem a cobertura de saúde. O ex-vice-presidente Joe Biden, se ganhar (e conseguir um Senado de maioria democrata), fará grande diferença no sentido contrário, ampliando a cobertura de modo significativo e diminuindo os prêmios das famílias de classe média.

A segunda parte desta afirmação talvez seja novidade para muitos leitores, porque as propostas de Biden para a saúde pública não têm chamado muita atenção até agora.

Por que não? Uma razão é que a eleição — corretamente — vem sendo vista principalmente como um referendo sobre o governo Trump mais do que sobre a provável política democrata. Outra é que, desde que briga das primárias democratas colocou Biden contra adversários defendendo mudanças radicais na política de saúde, muita gente presumiu que o ganhador daquela briga, que rejeitou aquelas propostas radicais, não tentaria mudar muita coisa.

Porém, embora Biden esteja de fato propondo mudanças graduais em vez de um Medicare para Todos, estamos falando de algumas mudanças bem grandes. Estimativas independentes sugerem que, pelo plano de Biden, de 15 a 20 milhões de americanos teriam cobertura de saúde. E os prêmios cairiam drasticamente, principalmente para as famílias de classe média.

De que mudanças de política estamos falando? À medida que o plano Biden vem recebendo algum tipo de atenção, ela em grande parte tem focado na introdução proposta por ele de uma “opção pública” — um plano nos moldes do Medicare que as pessoas poderiam contratar em vez de um convênio médico particular. Esta opção pode ser um primeiro passo na direção de um sistema de pagador único, mas seria um pequeno passo, e no curto prazo, muito menos importante do que outros aspectos do plano.

Antes de mais nada, o plano Biden – Bidencare? ObamaBidencare? — aumentaria de modo significativo os subsídios que hoje ajudam muitos, mas não todos os americanos que não têm plano de saúde oferecido por seus empregadores.

A Lei dos Serviços de Saúde Acessível, como foi aprovada em 2010, estava subfinanciada, porque os democratas queriam conter o impacto das manchetes de jornal. Isso quer dizer que prêmios e divisão de pagamentos eram, e são, muito altos para várias famílias. Desde então, porém, a política vem mudando: A opinião pública tem se mostrado favorável à LSSA, o Partido Democrata de certa forma foi para a esquerda e a disposição republicana de empurrar cortes de impostos caros e sem financiamento vem encorajando os democratas a agir de modo mais agressivo.

De modo que um plano Biden aumentaria subsídios e também removeria o limite de renda superior que impede muitas famílias de classe média de receber auxílio. Isso custaria um volume considerável de dinheiro: O Comitê por um Orçamento Federal Responsável estima o custo em US$ 850 bilhões ao longo de mais de uma década. Mas custaria muito menos que o corte de impostos de 2017, em que a maioria do dinheiro foi para as empresas, que supostamente reagiriam aumentando investimentos, só que não.

O plano Biden também enquadraria americanos de baixa renda automaticamente na opção pública, o que é mais importante do que pode parecer. Um dos defeitos do nosso sistema é que ele é complexo e confuso, e aqueles que mais precisam de ajuda em geral são os menos capazes de navegar o acesso a ela. Idealmente, nós apenas caminharíamos na direção de um sistema mais simples, mas, por ora, autoinclusão seria uma importante medida paliativa.

Ah sim, o plano também proporcionaria auxílio significante para tratamentos de longo prazo, saúde rural e mental.

Nada disso representa uma mudança revolucionária – na comparação com os esforços de Trump para matar o Obamacare, o que mudaria drasticamente o serviço de saúde pública americano para pior. Mas o Bidencare ainda seria, como Biden não disse exatamente quando o presidente Barack Obama assinou a LSSA, uma coisa um tanto grande.

É verdade que a América ainda fica muito aquém de oferecer o que qualquer outro país desenvolvido já tem: um serviço de saúde pública universal. Mas nós ficaríamos muito mais próximos disso, e muitos que hoje têm plano de saúde veriam seus custos cair e a qualidade de sua cobertura médica melhorar.

Ou seja, a saúde pública, inclusive uma que PROTEJA DOENÇAS PREEXISTENTES, de fato precisa que vocês VOTEM! Se Trump ganhar, os americanos perderão essa proteção e muitos perderão seus planos de saúde ou verão seus prêmios disparar; se Biden ganhar, os americanos manterão essa proteção e muitos ganharão cobertura ou verão os prêmios cair.

 (Paul Krugman/Exame)

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