“Tinham que ser brasileiros”

Cientistas brasileiros ganham destaque mundo afora apesar da falta de apoio do governo e, agora, de parte da população

No meu último ano em Harvard, co-presidi a Brazil Conference at Harvard and MIT, evento organizado por estudantes brasileiros que reúne grandes nomes do governo, indústria e academia nacional e internacional para discutir soluções para os maiores problemas do Brasil. Era abril de 2017 e eu tinha acabado de vivenciar a campanha e eleição do Donald Trump aqui nos EUA. Acompanhei de perto a forte polarização do debate, que se tornava cada vez mais agressivo. Nessa época, o mesmo padrão de intolerância se iniciava no Brasil, motivo pelo qual desenhamos a conferência como um espaço neutro para estimular o diálogo entre pessoas de visões opostas.

Após três dias intensos de palestras de líderes dos mais variados espectros, de Warren Buffett e Jorge Paulo Lemann à Dilma Rousseff e Sérgio Moro, fiz esse discurso de encerramento. Como estudante, pesquisadora e bolsista em uma das melhores universidades do mundo, tive acesso a recursos que pesquisadores não têm no Brasil. Por isso, decidi falar sobre a importância da ciência para o desenvolvimento dos demais setores da sociedade e também do nosso potencial como nação. Entre a plateia, houve um consenso: precisávamos de mais investimentos na área.

Já se passaram três anos e lamentavelmente não tivemos progressos significativos por parte do governo. A pasta ministerial da ciência e tecnologia, que já era coadjuvante, foi unida a da comunicação. Felizmente, isso só durou até junho deste ano, quando a pasta da comunicação foi novamente separada, muito embora isso não pareça ter sido motivado por uma maior valorização da ciência. Vimos cortes orçamentários de 42%. Ouvimos do Presidente da República que o investimento em pesquisa só deveria ser feito quando há retorno a curto prazo, o que é a verdadeira antítese do desenvolvimento científico.

Descobertas científicas são feitas a longo prazo. Se formos usar uma das empresas que lideram o desenvolvimento de uma vacina para a COVID-19 como exemplo, a Moderna, podemos entender bem o porquê da importância desse investimento paciente e contínuo. Fundada em 2011, a Moderna recebe aportes privados desde 2011 e estatais desde 2013. Apenas entre 2013 e 2016, recebeu $52.6 milhões do governo norte-americano, equivalentes a aproximadamente R$300 milhões.  Por conta desse investimento, a empresa estava preparada para agir rápido quando o SARS-CoV-2 foi identificado. Além disso, durante a pandemia, o governo aumentou sua ajuda e garantiu mais $955 milhões, que equivalem a aproximadamente R$5 bilhões. Ou seja, uma única empresa conseguiu investimento do governo norte-americano para pesquisas sobre a covid-19 cem vezes maior que o Brasil inteiro recebeu do nosso governo.

Grande parte desse investimento estatal não teve em vista um retorno financeiro a curto prazo. A Moderna, nesses 10 anos de existência, nunca lançou ou vendeu um produto sequer. De quebra, esse $1 bi investido pelo governo só representa 37% do valor total que a empresa recebeu, já que a maior parte foi proveniente da iniciativa privada. Enquanto os EUA e a Moderna estavam preparados para desenvolver uma vacina para a COVID-19, o Brasil teve que investir seu dinheiro no licenciamento de tecnologias estrangeiras.

E por falar em pandemia, os acirrados embates até então reservados aos campos sociais e econômicos, atingiram em cheio a ciência. O que antes estava imune a questionamentos desprovidos de técnica, agora se tornou alvo de constantes ataques. A prescrição de medicamentos passou ser feita de forma descriteriosa. Ignoram-se os dados e a pesquisa, aprofundando ainda mais o abismo entre o cientista brasileiro e sua necessária valorização.

Enquanto isso, apesar da resistência gerada por discussões ideológicas, cientistas brasileiros continuam lutando para fazer com que a ciência avance pelo Brasil e pelo mundo. Um exemplo é o do Dr. Pedro Folegatti, que saiu do nosso país e liderou os testes clínicos da vacina para a covid-19 da Universidade de Oxford. Ele foi o primeiro autor de uma publicação relatando os resultados na The Lancet.

Conquistas como estas merecem ser sempre lembradas quando falamos de ciência no Brasil. Nosso potencial é gigantesco e precisamos acreditar nele. Por isso, ratifico meu chamado para que possamos ressignificar a frase “tinha que ser brasileiro”, geralmente dita quando algo dá errado. Precisamos reconhecer nossos cientistas e pesquisadores, que, não obstante todas as dificuldades, contribuem para o progresso da ciência mundo afora. Esses sim, tinham que ser brasileiros.

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