Clubhouse: você ainda se lembra de uma coisa chamada “conversa”?

É um podcast ao vivo? Um zoom sem imagem? Na nova rede social do momento, ou você participa da sala na hora agendada ou perdeu

Sabe aquela nova rede que está bombando, que as pessoas precisam de convite para participar e que só é acessível, por enquanto, para quem tem iPhone? Então, eu não vou falar sobre ela.

A essa altura é claro que você já leu um milhão de notícias sobre o Clubhouse ou mesmo já participou de alguma sala de bate-papo. Ou, quem sabe, não deu de cara com o meu ícone em um dos fóruns. Seja qual for o caso, você sabe do que se trata, as vantagens e as desvantagens, as críticas, o zum-zum-zum em torno da novidade. Mas reparou em duas particularidades dessa rede e como, na verdade, essas características parecem um resgate de algo que tínhamos deixado no passado? Calma, eu explico.

Uma dessas particularidades que me chamou a atenção é o fato das mensagens não ficarem gravadas. Ou você participa da sala na hora agendada ou perdeu. Achei curioso que, para explicar essa característica, vi pessoas descrevendo a dinâmica como um podcast ao vivo com plateia ou como uma reunião no Zoom, só que sem imagem. Palavras novas para descrever o que, convenhamos, não é tão novo assim: a conversa. Lembra dela?

Sabe, aquela coisa que nós costumávamos fazer antigamente em que um fala, depois o outro e nós temos que prestar atenção no que está sendo dito porque não dá para pausar o áudio e voltar? Claro, que não é e-xa-ta-men-te igual, mas a essência está ali.

Acho que, há algum tempo, nos acostumamos a ter diálogos mais assíncronos. O e-mail, o WhatsApp, o Teams, as redes sociais, enfim, as diversas plataformas que usamos hoje nos permitem interagir com o outro quando quisermos – e se quisermos. Se a pessoa disse algo que não gostamos, ah, é só ignorar.

O que significa, então, quando explode uma rede social em que você precisa estar ali no momento? Em que você precisa reservar um tempo, entrar naquela “roda de conversa” e prestar atenção para poder interagir? Será que, em algum grau, essa conexão quando-quero e se-eu-quero dá uma sensação de isolamento e, por isso, buscamos outra coisa? E será que, depois de tanto tempo determinando o ritmo de uma troca, ainda nos lembramos como é que se conversa, assim, ao vivo?

Outro ponto que chamou minha atenção foi o papel do moderador. Até então, a dinâmica mais comum às redes sociais é a de seguido e seguidores. E, se você tem uma legião, pode se orgulhar do célebre título de “influenciador” – ou “influencer”, que fica mais chique.

Talvez nós não paramos tanto para pensar sobre isso, mas ser um influenciador deveria trazer o peso da responsabilidade. O que você posta serve de exemplo, de recomendação, de conselho, enfim, influencia os outros. Mas ser influenciador também traz status e com ele, muitas vezes, uma sensação perigosa de soberania.

Será que esse status de influenciador não contribuiu, inconscientemente, com aquela postura de detentor da palavra? Aquilo de que alguns podem e devem falar e os outros, apenas escutar? Cria mais monólogos do que diálogos? É essa a dinâmica com a qual, inconscientemente, nos acostumamos? Talvez sim e talvez também por isso que uma rede que apresenta outra lógica seduz à primeira vista.

Claro, o moderador tem um status, tem ainda o controle da palavra de certa forma, mas não existe debate só com um moderador, certo? Para o conteúdo ser gerado, você precisa de mais pessoas nessa roda, roda esta que será organizada e conduzida, aí sim, pelo moderador. E isso não tem a ver também com a dinâmica da conversa nos moldes antigos? Dialogar e moderar parecem pertencer à mesma família. Em comum, os dois verbos reconhecem a necessidade da existência do outro.

Quis destacar esses dois aspectos porque, para mim, ambos têm uma conexão forte com a construção de uma carreira sólida. Acredito que saber dialogar – e não apenas responder comentários de seguidores e de “haters” – é uma habilidade fundamental na vida, tanto profissional quanto pessoal. Da mesma forma, saber desempenhar o papel de moderador é saber transitar entre pessoas e suas falas, opiniões, conhecimentos. E vai dizer que isso também não é essencial no trabalho e fora dele?

Porém, me parece que temos perdido essas competências. Se escolhemos com quem falar e quando falar ou responder, estamos nos comunicando de maneira muito seletiva e muito restritiva. A crítica, aqui, não é às ferramentas atuais de comunicação e ao papel que elas nos atribuem – influenciador, seguidor etc –, mas ao que tem se tornado uma limitação. Se só sabemos interagir por essas vias mais confortáveis e convenientes, o que estamos deixando pelo caminho? O que perdemos quando as conexões se estabelecem mais frequentemente de uma única maneira?

No fim das contas, nós entramos na onda, estamos lá no Clubhouse, participamos de salas de bate-papo, mas estamos usando mesmo essa ferramenta? Vamos ser honestos? Talvez, seja necessário reaprender essa coisa que ficou no passado chamada “conversa”. E que bom, estava com saudades!

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