Treinamento para microempreendedores: presencial ou remoto?

Na coluna desta terça-feira, Adriano Gaved e Luiza Kormann analisam duas ações, uma presencial pré-pandemia e outra já sob efeito do distanciamento social

Por Adriano Gaved e Luiza Kormann

A covid-19 afetou profundamente a dinâmica de diversos segmentos. Para adequar-se ao novo cenário, a Aventura de Construir (AdC) passou a oferecer cursos de capacitação de maneira remota para microempreendedores periféricos. No entanto, seriam esses cursos tão efetivos quanto os ministrados presencialmente? Para responder a essa pergunta, mesmo que parcialmente, comparamos duas ações, uma presencial pré-pandemia e outra já sob efeito de medidas de distanciamento social.

A comparação envolve os projetos "Aprender para Transformar" e "A Realidade Empreendedora". O primeiro é um programa de educação financeira para famílias, patrocinado pela Fundação Caterpillar, e foi desempenhado de maneira presencial. O segundo é voltado para geração de renda e formalização de empreendedores, financiado pelo Instituto CCP, e foi ministrado de maneira remota. Embora sejam oferecidos para públicos diferentes e tenham objetivos distintos, o fato de ambos terem algumas métricas em comum possibilitou que obtivéssemos algumas percepções sobre como o processo de aprendizagem mudou nesses dois cenários.

Primeiro, ficou evidente que o ensino de maneira remota possibilita um forte aumento de eficiência. Cada hora de um colaborador AdC gerou mais de 5 horas de relacionamento com cada empreendedor, em aula ou individual, contra 1,5 hora no atendimento presencial. Sem a necessidade de deslocamentos e preparação dos espaços, o esforço para realizar uma hora de formação passou de 27,5 horas/pessoa para 11,6 horas/pessoa. Além disso, constatamos uma maior frequência dos beneficiários no cenário online, com 44% dos participantes com presença em mais do 70% das palestras (no curso presencial, esse número ficou em 36%).

No entanto, encontramos algumas evidências que sinalizam que o aprendizado online não é tão efetivo quanto o presencial. Os dois projetos têm como objetivo comum oferecer aos participantes conhecimentos sobre controle financeiro, medido em uma escada de 1 a 5, em que 1 indica inexistência de controle e 5 aponta para o uso de balanços mensais. Valores intermédios representam casos em que há anotações de entradas e saídas monetárias, cálculo do lucro mensal e controle de caixa. Para ver a evolução dos participantes ao longo do curso, atribuímos uma nota a cada um dos participantes antes da iniciativa e após o término da ação.

No projeto presencial, identificamos que a nota média inicial dos participantes era de 1,16 e passou para 2,54 ao final da capacitação, representando um acrescimento de 1,38 ponto. No caso online, a variação foi de 0,79, de 1,93 inicialmente para 2,72 ao término. Com base nos feedbacks dos empreendedores participantes do curso, acreditamos que a menor eficácia da capacitação está relacionada à natureza mais “fria” das ferramentas e do fato de elas não permitirem uma interação maior entre os participantes, como a realização de papos informais antes e após as aulas. São detalhes importantes para o processo de aprendizado que acabam “cortados” em uma chamada vídeo.

Poderíamos ser iludidos pelos ganhos de eficiência a entrar em um caminho de digitalização total. No entanto, algumas evidências nos indicam que o relacionamento presencial continua a ser um fator importante no aprendizado. Desta forma, exercícios comparativos como esse são necessários, pois ajudam a ter uma visão mais geral do processo como um todo e auxiliam na busca de soluções mais efetivas de aprendizado.

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