“Na área de tecnologia e inovação, o governo é um excelente cliente”

Letícia Piccolotto, presidente executiva da Fundação BRAVA, fundadora e CEO do BrazilLAB, fala sobre o trabalho de conexão de startups com o setor público

Conversamos com Letícia Piccolotto, presidente executiva da Fundação BRAVA, fundadora e CEO do BrazilLAB, sobre o trabalho de conexão de startups com o setor público, desafios da interação com instituições governamentais, importância da avaliação de impacto, entre outros assuntos.

1) Você fundou o BrazilLAB, que se tornou um hub de referência para startups atuantes no setor público. Como surgiu a ideia de criar esse hub e quais casos de sucesso você poderia citar?

 O BraziLAB foi criado em 2015 e surgiu de um anseio para dar luz a um Brasil que já dá certo. Para alcançar esse objetivo, eu sabia que um caminho possível e inevitável era a transformação digital do governo, fato que já era uma tendência mundial, mas ainda pouquíssimo discutido no Brasil. O setor público tem um potencial de transformação muito grande, mas apenas força de vontade para mudar não é suficiente. Os gestores públicos precisam acessar soluções inovadoras que dialoguem com a burocracia e lidem de forma eficiente com as especificidades do setor.

Então, o BrazilLAB nasceu para cumprir o papel de conectar o ecossistema inovador das startups e o contexto da gestão pública. Fazemos essa conexão com a crença de que essa sinergia pode potencializar a ação desses dois atores que querem e podem melhorar o Brasil através da inovação e tecnologia. Assim, estimulamos uma cultura de mudança de fora para dentro do setor público.

Em quatro anos de existência, o BrazilLAB tem acumulado resultados muito significativos, já são mais de 1.100 empreendedores mobilizados de alguma forma pelo nosso ecossistema e 81 startups Govtechs diretamente capacitadas pelo nosso programa de aceleração anual. Essas empresas estão aptas a negociarem suas soluções com o governo a fim de resolver problemas complexos que, sem as soluções tecnológicas e inovadoras construídas pelas startups, dificilmente seriam resolvidos com a mesma agilidade, eficiência e qualidade.

Destaco, como casos de sucesso, algumas das healthtechs e socialtechs já aceleradas pelo BrazilLAB e que hoje estão atuando de maneira estratégica e incisiva no combate à pandemia, desempenhando um trabalho fundamental nos municípios brasileiros. É o caso da UpSaúde, que oferece teleconsultoria e teleorientação para a população e a Universaúde que oferece uma ferramenta para orientar a gestão dos gabinetes de crise responsáveis por atenuar os efeitos da pandemia. Na área de socialtech, o destaque é a startup GESUAS, uma das vencedoras do 3º Ciclo de Aceleração do BrazilLAB, e responsável pela elaboração do primeiro prontuário eletrônico para a gestão da política de assistência social nos municípios. No contexto da pandemia, a startup disponibilizou gratuitamente o GESUAS Covid-19, ferramenta para facilitar a sistematização de beneficiários e a concessão de benefícios.

Por fim, destaco também o trabalho que realizamos em prol do fortalecimento de uma agenda GovTech no Brasil. Fomos responsáveis pela Conferência Internacional GovTech, realizada no Brasil em 2018, e organizada pelo BrazilLAB, que evidenciou a pauta em âmbito nacional pela primeira vez e proporcionou um maior respaldo para as discussões sobre a agenda digital no país a partir de então. Contamos com a participação de representantes nacionais e internacionais, de países como Estônia, Reino Unido e Uruguai, que são referência na agenda de governo digital, e que puderam compartilhar aprendizados relevantes para o Brasil.

2) Conversando com empreendedores e investidores de venture capital, até mesmo aqueles mais orientados a impacto, percebemos que muitos deles consideram difícil e arriscado trabalhar governos. Acabam preferindo construir suas receitas no campo privado. Como os empreendedores do BrazilLAB têm superado os desafios de lidar com o setor público?

É importante reconhecer que são “dores” diferentes entre investidores e empreendedores. Para os investidores, de fato, há dois principais temores. Primeiro, um questionamento sobre quanto o mercado GovTech está, de fato, consolidado e pode trazer retornos, inclusive para os investidores de venture capital, geralmente mais “pacientes” em relação às perspectivas do investimento. Segundo, uma percepção de que trabalhar com governos é algo muito arriscado, sobretudo do ponto de vista reputacional, algo que se tornou ainda mais presente no imaginário coletivo nos últimos anos.

Também é importante dizer que essas percepções são, muitas vezes, infundadas. Na área de tecnologia e inovação, o governo é um excelente cliente: os contratos firmados, em geral, são de longo prazo e envolvem volumes consideráveis de investimentos. Já pela ótica do empreendedor, a crise de confiança no governo e o estereótipo de “mau pagador” tendem a desencorajar o desenvolvimento de soluções B2G (Business to Government).

Muito do trabalho que o BrazilLAB desenvolve está concentrado em fazer com que os atores revejam essas impressões – que, na maioria das vezes, são irreais – e percebam como a atuação conjunta entre o governo e o ecossistema de startups pode ser valiosa para ambos e traz impactos positivos para as políticas públicas. Para se ter uma ideia, Dados da consultoria inglesa Public mostraram que o mercado global de GovTechs vale hoje US$400 bilhões e deve alcançar US$ 1 trilhão até 2025. Nesse cenário crescente, o Brasil está em evidência e ocupa o 4º lugar, entre 16 países, no GovTech Index, indicador elaborado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina.

No BrazilLAB, investimos em capacitações estratégicas em temáticas como licitação e compras públicas, experiência do usuário e avaliação de impacto para que os empreendedores aprendam a lidar e resolver problemas mapeados no setor público e ganhar escalabilidade, além de oferecer uma rede de mentores que auxiliam essa caminhada. Associado a isso, temos presenciado uma maior abertura do próprio setor público para fomentar, instruir e prospectar soluções inovadoras para os seus desafios. Essa abertura tem facilitado que os empreendedores conheçam melhor sua demanda e façam mais conexões. Vivemos um momento muito positivo para a incorporação de soluções tecnológicas nos governos.

3) Você também é Presidente Executiva da Fundação BRAVA, que é referência na disseminação de melhores práticas para a gestão pública. Agora, no Brasil, a reforma administrativa é um dos temas do momento. Como você vê essa discussão no Brasil e como podemos avançar nesse campo?

A Fundação BRAVA é movida pelo sonho grande de tornar o Brasil uma referência global em inovação no governo, e entendemos que parte da viabilização desse sonho depende de uma mudança na estrutura cultural e burocrática do setor público do país.

Ainda que a discussão acerca da reforma esteja muito pautada no processo de admissão e trajetória do servidor, acho importante termos o olhar atento para o fato de ser uma pauta transversal com reflexos claros na sociedade. Pontos envolvidos na proposta como a desburocratização, gestão por competência, segurança jurídica e o ambiente propício a inovação, devem ser articulados de maneira a beneficiar a qualidade do serviço público oferecido na ponta, mitigando riscos de criarmos uma máquina pública enxuta, mas e-burocrática.

Para além da reforma, eu considero que outro ponto importante para avançarmos na qualidade e transformação do serviço público brasileiro é valorizar e evidenciar iniciativas do terceiro setor que são engajadas nessa pauta de otimização, que é o contexto de maior atuação da Fundação Brava. Existem diversas iniciativas e articulações de atores estratégicos para promover reconhecimento e mecanismos de desenvolvimento de capacidades dos servidores públicos já atuantes bem como para aqueles que ainda irão compor o serviço público no futuro. Então, vejo que não precisamos esperar ou depender necessariamente de uma reforma para começarmos a termos bons resultados, existem caminhos alternativos que precisam ser melhor explorados.

4) A sua dissertação de mestrado foi sobre o Banco da Providência, que tem se destacado em monitoramento e avaliação de impacto dos seus beneficiários – e já rendeu até mesmo dois posts no nosso blog “Impacto Social”. Como você considera que tem evoluído a agenda de avaliação de impacto no Brasil?

Acredito que nunca se falou tanto em impacto como nos últimos tempos. É uma temática que sempre conservou sua importância, mas nem sempre recebeu a devida atenção e priorização nas agendas, seja pela complexidade metodológica ou o a ideia de alto custo associado.

Acontece que o contexto da pandemia vem mostrando de forma muito clara a necessidade do uso intensivo da tecnologia, dados e evidências para a tomada de decisão, o que tende a se tornar um impulsionador e facilitador da agenda de avaliação. Além disso, a própria sociedade também tem tomado mais consciência da importância de acompanhar os impactos do que consome e do que contribui, sendo cada vez mais crítica, vigilante e exigente com a apresentação de resultados.

Então, eu vejo com bons olhos e muita expectativa a tendência positiva para esse cenário que é tão estratégico. Entendo que a importância do monitoramento e avaliação de impacto serão um dos grandes legados do momento que vivemos e, no futuro, será praticamente impossível tomar decisões sem considerar os resultados e projeções dessas avaliações.

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