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Tudo é um desafio, não um problema

Eu sou bastante pragmático, objetivo e direto. Gosto de ações bem pensadas e rápidas, sem muitas delongas

Por: Fabiana Monteiro

Mauro Favero: Vice-presidente de Vendas e Serviços para a América Latina – Husqvarna Division

Eu sou de São Paulo e fiz Engenharia Mecânica na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Os dois primeiros anos em um curso de Engenharia são bastante difíceis. As matérias são complicadas e exigem muito estudo e dedicação. “Será que é este o caminho certo a seguir? ”, pensei algumas vezes. Embora, na época, a situação não estivesse muito boa para os engenheiros recém-formados no Brasil, após esse período inicial fui me animando com o curso. Prestes a me formar e ainda sem ter feito estágio obrigatório, comecei uma corrida desesperada, batendo de porta em porta para entregar meu currículo.

Acabei sendo chamado por uma das empresas, a Stemcar. Acho que me escolheram de tantas vezes que liguei para perguntar como estava o processo de seleção. Não era bem o que eu queria, um estágio na área comercial para quem está fazendo Engenharia. Além disso, não era para uma pessoa tímida como eu. Entretanto, era a oportunidade daquele momento. O desafio estava lançado.

Dediquei-me muito e terminei sendo efetivado. Uma vitória, mas fiquei apenas quatro meses. Fui chamado para uma grande multinacional, a SKF do Brasil, uma empresa de origem sueca, líder global no segmento de rolamentos. Para ser aprovado nesse novo processo de seleção, estudei inglês intensamente e fiz várias simulações de entrevistas no idioma para aumentar minhas chances. Queria muito esse trabalho. Consegui e iniciei, em julho de 1986. Quando cheguei ali, tinha estabelecido um plano muito claro: “Vou trabalhar na SKF por cinco anos, sair e atuar em outra empresa por mais cinco e depois repetir a estratégia a cada cinco anos. Em 20 anos vou me tornar consultor”. O plano era lindo, mas falhou completamente e se transformou em uma linda carreira de 29 anos na mesma empresa.

Depois de contratado, fui me interessando, identificando e ficando um pouco mais. Fui crescendo e, em um momento, tracei um novo objetivo: “Vou ser o presidente da empresa”. Para isso, entendia que tinha de ir para fora do país, ter uma experiência internacional. Naquela época, presidentes de multinacionais eram em sua grande maioria expatriados. Hoje em dia não é mais assim. Mantive o planejamento e aceitei o convite para a posição de presidente da SKF Venezuela. Um novo país, uma nova cultura, um novo e superinteressante desafio.

Após a experiência na Venezuela, que me trouxe muito aprendizado, assumi uma posição de Desenvolvimento de Negócios para a América Latina. Muitos países, muitas culturas diferentes, muito aprendizado. Viajei alguns anos por toda a região latina até que, em fevereiro de 2014, fui de fato nomeado presidente da SKF do Brasil. Consegui! Objetivo atingido.

Mas não contava com outra mudança inesperada nos meus planos. Um ano depois fui demitido. O primeiro impacto foi de real frustração: ter planejado, alcançado, comemorado, é claro, e ver, de uma hora para outra, o cenário mudar. Naquele período, a matriz na Suécia estava promovendo uma grande reestruturação, e decidiram pela minha saída.

Há 29 anos estava na mesma empresa. Porém, adversidades acontecem, e fatores externos acabam influenciando nossos planos profissionais. Depois vem o aprendizado. Reiteradamente uso o discurso de que tudo é um desafio, não um problema. Então, decidi encarar a adversidade e ver o que existia fora daquele mundo no qual vivi por quase três décadas. Para minha surpresa, descobri que existia um universo gigantesco e cheio de oportunidades. Como fui passando de departamento em departamento, viajando o mundo inteiro pela SKF, a experiência que tinha acumulado era muito valorizada. Não tinha me dado conta disso.

Um novo desafio estava lançado: recolocar-me no mercado. Uma experiência totalmente nova. Naquele período de transição de carreira, trabalhei tanto quanto trabalhava antes. Tem gente que nessa condição prefere tirar um período sabático. Mas esse não é o meu perfil. Para se ter uma ideia, contatei mais de 25 headhunters e fiz 55 reuniões com headhunters e executivos num período de quatro meses. Isso fez com que a empresa de Outplacement que eu estava utilizando me perguntasse como eu havia conseguido aquilo, para ensinar aos demais profissionais na mesma condição. Algo que ninguém tinha feito até então.

O meu objetivo era conseguir uma nova posição, e tinha que me tornar conhecido em novos grupos de profissionais e mercados. E foi assim que, pela primeira vez, construí meu networking e descobri outros segmentos nos quais também podia atuar.

Determinei que não desejava mais voltar para o mesmo segmento em que atuava antes. Uma vez que havia saído, queria partir para um mundo novo e, se possível, o das máquinas, e não dos componentes. Queria algo diferente em que pudesse aplicar meu conhecimento. E, mais cedo do que esperava, cheguei à Husqvarna, outra empresa sueca de muita tradição, agora na condição de vice-presidente de Vendas e Serviços para a América Latina. O desafio da recolocação estava vencido. Um novo iniciava.

Experiências, boas ou más, resultam sempre em aprendizado

Eu sou bastante pragmático, objetivo e direto. Gosto de ações bem pensadas e rápidas, sem muitas delongas. Como Líder, também sou muito transparente. Acho que essa é uma grande qualidade minha. Sempre me reúno com minhas equipes e discutimos abertamente todos os temas importantes. Há cada um ou dois meses, reúno toda a empresa, presto contas de todos os resultados e esclareço qualquer pergunta, feitas de forma anônima ou diretamente. Também aceito sugestões de todos os níveis, porque tenho como filosofia que qualquer pessoa, independentemente da posição que ocupa na organização, influencia e contribui para o resultado. Todo mundo tem o seu impacto, sua contribuição.

Da mesma forma que me comporto em casa, me comporto na empresa; as mesmas mensagens e imagem que transmito em casa também transmito no trabalho.

Tudo na vida são experiências. Todas trazem um aprendizado. Aliás, gosto muito desta palavra: “experiência”. Pode ser boa ou ruim, contudo, sempre resulta em aprendizado. Se não fosse a minha experiência anterior, por exemplo, eu não teria tido a oportunidade que estou tendo com a Husqvarna, sendo ainda mais feliz no que faço do que antes. Trabalho em uma região de que gosto muito e onde conheço todos os países. Por isso que digo sempre que nunca se trata de um problema, e sim de um desafio. Neste caso eu comprovei a minha própria teoria.

Para melhor enfrentar nossos desafios profissionais, é fundamental seguir se atualizando sempre. Mesmo que sejamos uma pessoa muito apreciada na empresa, no momento em que não conseguirmos mais acompanhar os demais em conhecimento, entender novas tendências e as rápidas mudanças de mercado, deixaremos de fazer parte do negócio e teremos que sair. Daí a importância da atualização ser uma constante. O mundo não para de evoluir e temos de acompanhá-lo, seja em termos técnicos, modelos de negócios e, principalmente, em relação ao comportamento das pessoas. Não pare, pois não existe um momento de relaxamento nos quesitos estar atualizado e ampliar a rede de contatos.

Nunca é demais lembrar que, além dos avanços da tecnologia, o perfil das novas gerações é bem diferente, e há uma questão importante sobre como lidar com elas e com suas expectativas. São vários aspectos, além de uma série de incertezas. O mundo vive realmente um momento que requer bastante atenção, cuidado e concentração. É necessário que haja foco e se mantenha a mente calma nesta fase de muita informação, mas também de muitas fake news e notícias distorcidas.

Tudo está acelerando muito rápido, de uma forma que as pessoas não conseguem acompanhar, tamanha a velocidade. Usa-se uma plataforma de informática hoje, por exemplo, e amanhã talvez ela já esteja obsoleta. Há pressão de todos os lados por conta dessas mudanças e também devido às instabilidades globais políticas e econômicas. Assim, quem está nesta ciranda precisa se adaptar.

Trace seu caminho e não pule etapas

Quando fiz minha escolha por Engenharia Mecânica, foi por uma decisão pessoal, sem participação de minha família, que me deixou totalmente livre para escolher. Não tive nenhuma mentoria naquele processo.

Hoje sou o mentor de alguns jovens executivos, que estão na faixa entre 30 e 35 anos. Meu papel é passar para eles o máximo de experiência que adquiri durante toda a minha carreira. No geral, simplesmente escuto qual é o objetivo que eles têm. Assim como tracei os meus lá atrás, começo a ajudá-los a montar uma base sólida para que cheguem aonde eles querem. Acho que isso é o mais importante.

Alguns têm uma grande ambição, e me identifico com isso, porque também tenho as minhas. Mas reitero: é preciso montar uma base sólida. E mais: é preciso saber onde se está, qual a sua situação nesse momento, para depois então traçar um caminho rumo ao seu objetivo. Se você não sabe onde está, não saberá qual caminho seguir. Ciente disso, estabeleça sua estratégia e não pule etapas, pois isso pode ser prejudicial. Faço este mesmo trabalho no dia a dia com toda a minha equipe. Gosto disso, de me comunicar com o pessoal e de fazer com que cada um deles construa também o seu caminho.

O que eu chamo de base pode ser traduzido por educação sólida. Quando você desenvolve seu plano de carreira, tem que construí-lo sobre uma base sólida. Aqui conta a sua formação educacional, seus treinamentos e suas atualizações de conhecimento ao longo da carreira. Na escola ou na faculdade, não adianta julgar qual matéria vai usar no futuro, qual não. Sinceramente, não é o momento de se avaliar isso. O momento é de se dedicar plenamente para todas as matérias daquele curso, pois não se sabe o que vem pela frente. Então, simplesmente se dedique e monte essa base forte. A educação é primordial, em qualquer fase. Mas, no início da caminhada, é ainda mais importante.

Ser feliz

A satisfação profissional, na verdade, acontece quando você entra em determinado segmento de negócio, seja como empreendedor ou como colaborador em uma empresa, e se deixa guiar pela cultura que ali se encontra. Quando se cria afinidade e se identifica com a filosofia do negócio, isso já é um passo para que você perceba que é ali o lugar onde tem potencial de ser feliz.

Cria-se, então, uma identidade e, principalmente, uma satisfação de poder contribuir com tudo aquilo. Aí você se sente realizado. Isso foi o que aconteceu comigo ao longo de minha carreira. Agora, se não se sente bem, por maior e melhor que seja a companhia, é melhor repensar sua condição.

Ensinar é dar exemplo

Todo líder deve ensinar pelo seu exemplo. Sempre! Mais do que falar, você é visto e reconhecido por aquilo que faz. A atitude é um exemplo para todos. Aquele que ainda é um estudante ou que está começando uma carreira e quer ter um exemplo, olhe o que fazem as pessoas bem-sucedidas as quais admira e pode copiá-las, sem medo. Esse é um caminho de sucesso que se pode adaptar conforme o plano traçado.

Digo sempre para o meu pessoal que tem cargo de liderança na empresa que estamos sendo observados o tempo todo. Falo isso para destacar que o líder funciona como um espelho. A pessoas o olham e pensam: “Quero me ver lá!”. Então, é muito importante que você dê o melhor exemplo com a sua atitude, não com o seu discurso. Isso vale para qualquer lugar ou situação.

O exemplo também é fruto da experiência e do conhecimento adquirido. Apoiar o desenvolvimento de outros profissionais transferindo conhecimento é um bem enorme. Quanto mais se ensina, na verdade, mais se aprende.

É preciso encarar os obstáculos de frente

Eu não canso de repetir que há de ser persistente quando se quer alguma coisa. Nada de desistir facilmente, de achar que não vai conseguir ou que não pode ir além. Se quer ir em frente, vá. Não é proibido ter ambição, desde que não seja desmedida e que não prejudique ninguém. Mas “não desistir” exige dedicação, ainda que tenha dias que a gente contribui mais, e outros, menos.

Por outro lado, temos de nos divertir com aquilo que fazemos. E quando um obstáculo aparece, agradeça, porque é a melhor maneira de desenvolver seu melhor, de gerar uma nova experiência para superá-lo. É como não canso de falar para minha equipe e para a empresa toda: ninguém tem problemas, mas sim desafios. Uma vez vencidos os desafios, temos que comemorar. Na verdade, quando entendemos a questão por esse ponto de vista, já iniciamos o processo para superá-lo. Um desafio provoca sua inteligência.

Se é grande o desafio, melhor ainda. Assim o aprendizado é maior, e é dessa forma que evoluímos como pessoa, como profissional, como empresa. Quando se encara os obstáculos de frente, sem fechar os olhos ou procurar evitá-los, acaba-se por achar um caminho. E quando se trilha por ele e se chega ao outro lado, é muito prazeroso dizer: “Consegui!”. Mas, evidentemente, há maneiras diferentes de encarar a mesma situação. De uma forma negativa, que não o leva a lugar algum; ou positiva, que o faz crescer. Faça sua escolha. E como ensinamento, como prática, é este o legado que deixo: procure enxergar os obstáculos como desafios.

Leitura, um hábito excepcional

Disse anteriormente que é preciso criar uma base sólida, e isso vale para este caso. Sinto que é preciso despertar em nossa juventude o amor e o prazer pela leitura.

Viajo muito pelo mundo inteiro e fico observando como os jovens de outras nacionalidades se comportam. Geralmente, quando estes estão viajando, uma coisa não falta na sua mochila: um livro. Eles criam desde muito pequenos o hábito e o gosto pela leitura. No Brasil, infelizmente, não conseguimos ainda desenvolver esse gosto pela leitura.

Vá atrás daquilo que você quer

Entendo que a grande maioria dos jovens tem um objetivo de futuro. E todos podem alcançá-lo. Se você tem um desafio relacionado à situação financeira ou às questões sociais, isso não deve ser um fator para impedi-lo de chegar aonde aspira. Não interrompa seus sonhos. Muito menos você deve parar e esperar que as coisas mudem por si mesmas. Não espere nada! Um segundo sequer. Vá atrás daquilo que você deseja.

Criar uma visão para as oportunidades que aparecem é bem diferente de resignar-se e ficar fechado. Vale a pena ser persistente. As coisas podem não acontecer no tempo que desejamos, mas tudo tem uma razão. Muitas vezes, quando o processo é muito rápido, nem sempre nos encontramos prontos. Pular etapas certamente fará diferença lá na frente.

Enfim, ainda quando todas as situações parecerem difíceis, devem ser encaradas. Você pode até mudar o seu objetivo no meio do caminho, porque vai adquirindo um novo aprendizado. Mas jamais deixar de ter um e de persegui-lo.

Alguns fatores fundamentais para alcançar um objetivo:

  1. determinação;
  2. nunca prejudicar outra pessoa para conseguir o que quer;
  3. divertir-se com o que se faz.

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