O projeto ambicioso da Gerando Falcões para criar a primeira Favela 3D

Os 14 milhões de brasileiros que moram em favelas podem virar parte da solução do problema da desigualdade

Por: Edu Lyra e Paula Fabiani 

O terceiro setor — representado por ONGs e empreendedores sociais — tem historicamente um papel fundamental na transformação sistêmica da vida da parcela mais pobre da população. Ele é ambicioso e inovador. Organizações não governamentais como a Gerando Falcões têm eficiência, velocidade e capacidade de execução porque penetram aonde o Estado não chega. No início da pandemia, por exemplo, o terceiro setor se fez presente na vida dos mais pobres semanas antes do governo. Enquanto o Estado tinha dificuldade para localizar os fantasmas brasileiros — quem não têm RG nem CPF —, as ONGs sabiam onde eles estavam e os chamavam pelo nome.

Fundada em 2011 na Cidade Kemel, bairro periférico de Poá, na região metropolitana de São Paulo, a organização Gerando Falcões começou como uma iniciativa que oferecia atividades extracurriculares a crianças e adolescentes, além de cursos de qualificação profissional a jovens e adultos da região.

Dez anos depois, cresceu exponencialmente e se converteu numa aceleradora de desenvolvimento social, que apoia hoje mais de 100 líderes e organizações de favelas em 19 estados do Brasil.

UM PROJETO AMBICIOSO

O que ela quer, agora, é ainda maior, mas está longe de ser inviável: implementar a primeira Favela 3D — digna, digital e desenvolvida — do país. Trata-se de um projeto multissetorial, com participação do governo e da iniciativa privada, para dar autonomia social e financeira à Vila Itália, favela de São José do Rio Preto, no interior paulista. O Favela 3D vai atuar tanto no trabalho de base tradicional — construindo casas, regularizando o uso da área e melhorando a infraestrutura — quanto na criação de ferramentas sociais transformadoras, como programas de capacitação e empreendedorismo que deem soberania financeira aos moradores e tornem a comunidade autossustentável.

A ideia no médio e longo prazo é fazer da Vila Itália um projeto piloto que possa ser replicado Brasil afora. Os 14 milhões de brasileiros que vivem em favelas estão habituados a ser ignorados pelo poder público, vistos como problema ou ter seu potencial desperdiçado por falta de oportunidades. Com o Favela 3D, eles passam a ser parte da solução, agentes ativos da própria emancipação.

LÍDERES FAZEM A DIFERENÇA

O método para alcançar esse objetivo é o mesmo que consolidou a Gerando Falcões como uma das principais iniciativas sociais do país: localizar as lideranças capazes de gerar mudanças locais na quebrada, investir em treinamento e capacitação para a população e acompanhar os resultados com afinco, usando sistemas como o SROI (sigla em inglês para retorno social do investimento), que quantifica o impacto social em valores financeiros. Uma análise feita com apoio do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis) mostrou que, a cada 1 real investido nas iniciativas avaliadas, 3,50 reais são gerados na forma de benefício para a sociedade.

Foi identificado também que o investimento social da ONG “paga-se socialmente” (payback) já no segundo ano após o investimento, algo raro para a maioria dos ativos financeiros disponíveis no mercado. É o melhor dos dois mundos: propósito e inovação, uma combinação do conhecimento da favela com o conhecimento das empresas que estão mudando o mercado.

São avaliações de impacto como essas que dão à Gerando Falcões a segurança de estar no caminho certo, justificando assim perante seus apoiadores e sociedade civil a relevância de seu Programa de Aceleração. É assim que toda essa expertise é levada aos quatro cantos do país, revolucionando a maneira como encaramos o urbanismo e o desenvolvimento social nas periferias brasileiras.

INSTRUMENTO AOS MORADORES

Olhar para trás, para o que foi realizado, identificar o que deu certo, o que poderia ter sido diferente e de fato avaliar exige tempo e dedicação. Mas é assim que conseguimos evoluir e dar escala ao que fazemos. E é reorganizando a forma como o dinheiro circula na favela e dando instrumentos a seus moradores que o Brasil vai criar condições para quebrar o círculo vicioso da desigualdade, transformar os excluídos em cidadãos e fazer com que a miséria vire item de museu.

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