Mercado em K: Megadeals impulsionam valor, mas 'meio da pista' segue parado
Entre janeiro de 2025 e maio de 2026, foram anunciadas 74 operações de M&A acima de US$ 10 bilhões, mas dinheiro não se espalhou de maneira uniforme


Alexandre Pierantoni
Managing Director e Head de Investment Banking da Kroll no Brasil
Publicado em 16 de agosto de 2026 às 07:00.
Última atualização em 16 de agosto de 2026 às 10:34.
Quem acompanhou de perto o mercado de fusões e aquisições em 2025 viu uma recuperação desigual. O ano terminou com cerca de US$ 4,5 trilhões em transações, alta de 35% sobre 2024 e o maior valor já registrado. O recorde, porém, não veio de uma multiplicação dos negócios, mas de operações maiores — e passou longe de provocar a mesma euforia no middle market.
Essa diferença ajuda a entender o cenário para 2026. Um levantamento da Mergermarket com executivos seniores de M&A mostra um mercado mais otimista com a atividade, mas ainda seletivo. As tensões geopolíticas perderam espaço entre as principais preocupações, enquanto o desalinhamento de preço entre compradores e vendedores ganhou protagonismo como obstáculo às transações.
O resultado é um mercado mais confiante, mas sem disposição para pagar qualquer preço. De um lado, grandes operações voltaram a movimentar cifras bilionárias; de outro, negócios menores continuam enfrentando uma equação mais difícil para chegar à mesa. É uma recuperação em forma de K: enquanto uma parte do mercado acelera, a outra ainda tenta destravar valor.
Os megadeals ajudam a dimensionar essa concentração. Entre janeiro de 2025 e maio de 2026, foram anunciadas 74 operações acima de US$ 10 bilhões, segundo a Bain. Entram nessa lista o LBO de cerca de US$ 55 bilhões da Electronic Arts e grandes transações envolvendo data centers, alimentos e mídia.
O problema é que esse dinheiro não se espalhou de maneira uniforme. Em algumas leituras, o número de operações menores caiu ao menor nível desde 2016.
Desigualdade geográfica
A América do Norte manteve a liderança, com o valor das transações crescendo mais de 50% em 2025. Nos Estados Unidos, expectativas de juros menores, maior disponibilidade de dívida e um ambiente regulatório mais favorável ajudaram a destravar grandes operações.
A Europa foi a surpresa. O valor das transações avançou cerca de 27% em 2025 e, segundo a Bain, cresceu 77% no acumulado até maio de 2026. Parte do movimento vem de consolidações dentro do próprio continente, em setores como telecomunicações, indústria e serviços financeiros.
Oriente Médio e África, ainda sobre uma base menor, cresceram cerca de 65%, para US$ 121 bilhões, impulsionados principalmente pelos fundos soberanos. A Ásia-Pacífico avançou em ritmo mais moderado.
A América Latina aparece no outro braço do K. É a única grande região em que a maioria dos investidores consultados pela Mergermarket espera piora das condições de financiamento em 2026. Mais da metade prevê crédito mais caro e restritivo, combinação que pressiona avaliações e dificulta o fechamento de negócios.
Por aqui, exceções
Para o Brasil, vale uma leitura à parte. O país fechou 2025 com cerca de 1 877 transações, alta de 7,6%, e R$ 313,5 bilhões em valor reportado, avanço de 15,8%, segundo a TTR Data. O valor cresceu quase duas vezes mais rápido que o número de negócios.
A diferença brasileira está na força do capital doméstico. Investidores nacionais participaram de mais de 80% das operações anunciadas no país em 2025, ajudando a manter o mercado ativo mesmo quando compradores estrangeiros ficaram mais seletivos.
Mas o K também aparece na distribuição desse capital. Tecnologia liderou em número de operações, enquanto infraestrutura, energia, recursos naturais, mineração e serviços financeiros concentraram os grandes cheques. São setores que oferecem exatamente o que o mercado passou a premiar: escala, geração de caixa e ativos capazes de justificar grandes aportes mesmo com custo de capital elevado.
O private equity também voltou a ganhar espaço. O valor transacionado por fundos no Brasil mais que dobrou em 2025, para perto de R$ 57 bilhões, embora o mercado de venture capital tenha seguido na direção oposta, com retração no valor investido.
Os primeiros números de 2026 reforçam a divisão. O primeiro trimestre movimentou cerca de US$ 15,9 bilhões, alta de 30%, mesmo com o número de operações concluídas caindo de 198 para 153. É talvez a representação mais simples do atual ciclo: mais dinheiro trocando de mãos em menos negócios.
O que vem pela frente
Para o restante de 2026, a leitura é de otimismo cauteloso. A expectativa de queda dos juros, a maior liquidez global e a força do mercado americano sustentam a perspectiva de mais atividade. Ao mesmo tempo, situações especiais e ativos estressados devem continuar atraindo fundos em busca de oportunidades de turnaround.
O resultado é um mercado com dinheiro disponível, mas ainda seletivo — sobretudo na hora de chegar a um acordo sobre preço.
Essa, aliás, deve continuar sendo a principal trava para os negócios. Depois de pandemia, guerras e disputas comerciais, compradores e vendedores aprenderam a operar em meio à incerteza. O desafio agora é aproximar avaliações. Para isso, ganharam espaço estruturas como earn-outs, rollovers, crédito privado e seguros de representações e garantias. O caixa, porém, continua sendo a moeda mais forte.
A janela, portanto, está aberta, mas não para todos. O capital privilegia escala, qualidade e teses claras, sobretudo em tecnologia, infraestrutura, energia e serviços. A inteligência artificial adiciona uma nova camada a esse movimento ao aumentar a demanda por data centers, energia e infraestrutura.
É mais uma manifestação da recuperação em K que marca este ciclo: enquanto grandes ativos e setores favorecidos atraem capital, outra parcela do mercado ainda esbarra em financiamento e preço. Para quem estrutura transações, o desafio em 2026 será identificar de que lado desse K está cada ativo — e encontrar uma estrutura capaz de fazer o negócio sair do papel.
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Alexandre Pierantoni
Managing Director e Head de Investment Banking da Kroll no BrasilAlexandre Pierantoni é Managing Director e Head de Investment Banking para a América Latina e Brasil, baseado no escritório de São Paulo.
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