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Foco em 2024 está em reduzir a alavancagem, diz CEO do GPA

Marcelo Pimentel diz que o ano será de consolidação do plano de ganho de rentabilidade que já levou a empresa a margens maiores

Pimentel: foco segue na proximidade e no mercado de São Paulo (GPA/Divulgação)
Pimentel: foco segue na proximidade e no mercado de São Paulo (GPA/Divulgação)
Raquel Brandão

11 de dezembro de 2023 às 15:46

No processo de recuperação do GPA, cujos números mais atuais foram apresentados hoje a investidores e analistas, o maior esforço está em reduzir a alavancagem, que terminou o terceiro trimestre a 5,9x e que segue sendo um ponto de atenção do mercado.

É justamente a alta alavancagem que faz a empresa ser avaliada em apenas R$ 1 bilhão, observa um gestor que acompanha o papel. “O plano é factível e o trabalho feito até agora está sendo bem-sucedido. Se conseguirem executar tudo, o papel tem potencial de dobrar”, diz. Após um salto de mais de 12% ontem, hoje a ação também chegou a liderar as altas do Ibovespa, negociada a R$ 3,97.

No ano, porém, a queda acumulada chega a 75%, em grande parte pelo spin-off das operações do colombiano Éxito. “O mercado está com uma postura de ‘show me first’”, avalia uma pessoa ouvida pelo EXAME In. As ações do GPA têm uma das maiores posições vendidas da bolsa, com investidores apostando na queda dos papéis.

Para deixar o mercado menos cético da recuperação da empresa, o CEO, Marcelo Pimentel, argumenta que é preciso ser “muito sólido na estratégia”. Uma empresa em turnaround, diz ele em entrevista ao EXAME In, precisa de foco — e o foco do novo GPA está em reduzir a alavancagem e aumentar a rentabilidade das operações.

Pimentel entrou no grupo no começo de 2022 para capitanear a mudança de rota. Desse processo de turnaround, dois terços já estão completos. A coroação deve vir com o alcance da margem entre 8% e 9% projetada pela empresa para o fim de 2024.

As mudanças passam especialmente por um forte trabalho de reestruturação de capital. A empresa vendeu ativos non core e fez sale leaseback de 11 imóveis. Nos últimos meses, anunciou a venda sua fatia de 13% no Éxito, que vai trazer quase R$ 800 milhões para o caixa no primeiro trimestre, e a venda de sua participação na CNova para a Casino, trazendo mais R$ 54 milhões. Há, ainda, a sede administrativa, em São Paulo, colocada na mesa para venda.

Com objetivo de diminuir a queima de caixa, a empresa foi arrumando a casa na frente operacional. Novos planos de negociação com fornecedores, que já respondem por mais de 50% das compras do grupo, permitiram a companhia a ter um sortimento mais assertivo e reduzir em 9 dias o estoque. “Reduzimos em 12% os produtos de baixo giro. Deixando só produtos relevantes”, conta Pimentel.

Esse trabalho também tem levado um percentual de quebra cerca de 4 pontos percentuais menor, para 5,9%. O objetivo, conta Pimentel, é de que esse indicador fique ainda 1 ponto percentual menor no ano que vem, o que reduz em alguns milhões a pressão de custos, por exemplo.

“Experiência para o cliente como um todo está melhorando, o desafio é fazer isso com dosagem de investimento”, conta o executivo, admitindo que o capex de 2024 deve ser “levemente menor” do que o atual. Em nove meses, o investimento do GPA foi de R$ 647 milhões em 2023, já em queda em relação ao mesmo período de 2022. “Estamos atrelando ao percentual da venda, não vamos sair do ‘range’ de 2,5% a 3% da venda”, explica.

Se a receita crescer muito ou o cenário macroeconômico mostrar melhora mais forte, os planos podem mudar. Por isso a empresa não bate o martelo sobre a quantidade de lojas a abrir em 2024. “Deve ficar em torno de 40 a 45 unidades”, conta Pimentel. Quando anunciou o guidance no fim de 2022, a companhia projetou até 300 novas lojas até o começo de 2025. O ritmo, por enquanto, foi de 49 novas lojas de janeiro a setembro.

A única certeza é de que o foco desses investimentos estão nas lojas de proximidade, o Minuto Pão de Açúcar, e no estado de São Paulo, onde Pimentel ainda vê muito espaço de crescimento. Ao longo desse período de reestruturação, mais de 80 Minutos Pão de Açúcar foram inaugurados.

No segmento de supermercados da bandeira Pão de Açúcar os esforços se concentram em melhorar o nível de serviço e, com isso, a rentabilidade. Nesse ano, ao menos 51 lojas foram reestruturadas, com aumento da área de perecíveis (que já superam 50% das vendas) e oferta de serviços, como sommelier e especialistas em queijo, por exemplo. Até mesmo o layout interno das lojas mudou.

A ideia, conta Pimentel, é ampliar isso ao longo de 2024 e trazer parte dessa estratégia para a bandeira Extra, que é mais popular, mas que deve receber atenção de ganho de margem ao longo do próximo ano.

A companhia também identificou que ao menos 90 lojas do Pão de Açúcar podem receber áreas de alimentação, com restaurantes e lanchonetes do próprio grupo. “Dá muito certo e o custo-benefício para o cliente é ótimo. É uma fonte de receita incremental e cuja margem é ótima”, diz ele. Hoje, por exemplo, algumas unidades já têm cafés, “pizzarias” e “restaurante japonês”.

De acordo com Pimentel, o que os diferencia da concorrência premium e de proximidade é a inteligência do uso da base de dados. Para isso, ele cita também a renovação do programa de fidelidade Cliente Mais, que tem trazido mais clientes de maior tíquete e frequência de compras. 

Essa capacidade de entender o hábito de consumo dos clientes também é um ativo a monetizar, segundo o executivo. Uma das novas apostas do grupo para receita extra são as atividades de retail media, um mercado de R$ 2,6 bilhões no Brasil em 2023. Hoje, conta Pimentel, a empresa já é a segunda maior nesse mercado, embora 2024 seja o primeiro ano completo de atividades nesse segmento.

Pimentel voltou a afirmar que não há sinalização do Casino de como deve ser a saída do grupo francês da base acionária do GPA, mas diz que as conversas, no contexto operacional, continuam. Do lado do mercado, o adeus dos franceses é esperado como um upside para o papel, tal qual aconteceu com o Assaí neste ano.

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Raquel Brandão

Raquel Brandão

Repórter Exame IN

Jornalista há mais de uma década, foi do Estadão, passando pela coluna do comentarista Celso Ming. Também foi repórter de empresas e bens de consumo no Valor Econômico. Na Exame desde 2022, cobre companhias abertas e bastidores do mercado