O dilema da Amil enquanto Bain e Advent avançam pela operadora
Com proposta esperada entre R$ 14 bilhões e R$ 17 bilhões, fundos avançam na due diligence; José Seripieri Filho, o Júnior, atual dono, pode permanecer como sócio


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 07:00.
Última atualização em 12 de agosto de 2026 às 10:38.
Dono da operadora de saúde Amil, José Seripieri Filho, o Júnior, despista sobre o interesse dos fundos americanos Advent e Bain Capital na companhia. "Minha vida está um inferno. Eu não aguento mais falar dessas fofocas. Cada hora é uma coisa", diz ao EXAME Insight. "Estou trabalhando para fazer a Amil dar cada vez mais lucro".
Segundo a coluna Capital, do jornal O Globo, Advent e Bain Capital estão em processo final de due dilligence na companhia. O processo corre há pelo menos um ano. A proposta deve girar entre R$ 14 bilhões a R$ 17 bilhões, apurou o Exame INSIGHT. A demora é compreensível: ninguém faz um cheque desse tamanho em um mês.
O interesse da Bain Capital pela Amil não é novo. Quando a UnitedHealth Group (UHG), então dona da operadora, colocou o negócio à venda, em 2023, o fundo disputou a aquisição com Júnior — os dois eram os únicos na corrida. Desta vez, porém, a conta ficou mais salgada. Com a Amil avaliada entre R$ 14 bilhões e R$ 17 bilhões, a Bain passou a dividir o cheque com a Advent. Caso a transação avance, Júnior pode continuar como acionista da companhia, com uma participação minoritária de até 15%.
Por que agora?
Quando a UnitedHealth decidiu sair da Amil, a operadora combinava escala com uma situação financeira deteriorada. Em 2022, a companhia faturou pouco mais de R$ 26 bilhões, mas registrou prejuízo de R$ 1,7 bilhão e, no momento da venda, tinha geração de caixa negativa na casa de R$ 2 bilhões. Um dos principais problemas estava nos planos individuais, segmento no qual a empresa acumulava perdas e havia tentado reduzir sua exposição. A UnitedHealth chegou a transferir uma carteira de mais de 300 mil beneficiários, mas a operação enfrentou resistência regulatória e acabou sendo revertida.
Mas o negócio tinha valor. A Amil ainda tinha cerca de 5,4 milhões de beneficiários de planos médicos e odontológicos, cerca de 6% do mercado, e uma rede com 31 hospitais e 28 clínicas médicas. A venda foi efetivada em torno de R$ 11 bilhões, considerando aproximadamente R$ 9 bilhões em passivos assumidos por Júnior.
Mesmo assim, a saída foi pesada para a UnitedHealth: a companhia anunciou uma baixa contábil de cerca de US$ 7 bilhões ligada à venda, em grande parte decorrente de perdas cambiais acumuladas.
O que mudou
Desde que retomou o controle da Amil, Júnior colocou em marcha um turnaround que já aparece nos números. A companhia, que vinha de anos de dificuldades sob a UnitedHealth, encerrou 2024 com lucro de R$ 620 milhões e, em 2025, alcançou R$ 1,9 bilhão de resultado recorrente — além de R$ 5,4 bilhões de lucro contábil, impulsionado por R$ 3,5 bilhões em efeitos extraordinários.
A melhora veio acompanhada de maior eficiência na operação: a sinistralidade caiu 4,4 pontos percentuais, com impacto positivo de cerca de R$ 800 milhões nos custos médicos, enquanto as receitas com planos avançaram 9,7%.
Ao mesmo tempo, a Amil voltou a crescer: terminou 2025 com 6,1 milhões de clientes e adicionou 415 mil vidas em planos médicos e 467 mil em odontológicos.
Isso significa dizer que o negócio, que antes era barato, agora não é mais. O upside que Junior teria ao efetivar a venda do negócio é relevante.
Orfã de tese relevante
A Bain Capital fez na NotreDame Intermédica um dos investimentos mais emblemáticos do private equity na saúde brasileira. O fundo comprou o grupo de Paulo Barbanti em 2014 por R$ 1,6 bilhão.
A tese estava na verticalização: uma operadora capaz de controlar parte relevante do custo assistencial por meio de hospitais e clínicas próprios. Sob a Bain, a NotreDame profissionalizou a gestão, acelerou aquisições — foram oito em um intervalo de três anos — e expandiu a operação para além de São Paulo. O número de beneficiários, que era de cerca de 2,4 milhões em 2014, chegaria a 7,6 milhões em 2022.
A saída começou com o IPO de 2018. Na oferta, a Bain vendeu parte de suas ações ao mercado por meio do fundo Alkes II, numa operação que poderia movimentar até R$ 2,8 bilhões considerando as parcelas primária e secundária e os lotes adicionais.
A Bain continuou reduzindo sua posição depois da abertura de capital até deixar o investimento. Quatro anos depois do IPO, quando a NotreDame se combinou com a Hapvida, em 2022, o grupo resultante tinha valor de mercado de aproximadamente R$ 85 bilhões.
Desde então, a Bain não repetiu no Brasil uma aposta de private equity em saúde assistencial com a escala e o protagonismo da NotreDame. Isso não significa que tenha abandonado o setor: em 2021, por exemplo, a Bain Capital Tech Opportunities investiu R$ 450 milhões na Bionexo, plataforma de tecnologia para o mercado de saúde. Mas falta ao portfólio brasileiro uma nova tese comparável à NotreDame. É aí que entraria a Amil.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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