Balanços do segundo trimestre expõem contrastes no setor de turismo
ARTIGO: Aéreas venderam mais, mas viram o lucro despencar com o combustível; hotéis resistiram e plataformas digitais ampliaram resultados


Fábio Godinho
Executivo no setor de turismo
Publicado em 23 de agosto de 2026 às 06:00.
Os balanços do segundo trimestre das companhias de turismo de capital aberto com atuação relevante na América Latina revelam contrastes: a receita cresceu na maior parte das empresas, mas lucro e Bolsa contaram histórias diferentes. Nas aéreas, o faturamento avançou e o lucro caiu; hotéis preservaram rentabilidade e plataformas digitais ampliaram receitas e lucros.
Na aviação, a receita cresceu mais que a oferta. Na Latam, a capacidade aumentou 8,9% e o aumento de preços foi de cerca de 17,5%. Na Copa Airlines, a capacidade cresceu 16,5% e a tarifa média subiu 8,7%. Na Delta, a capacidade aumentou apenas 1%, enquanto a tarifa média avançou 12%. Na American Airlines, a receita líquida cresceu 16,3%. Ou seja: as empresas conseguiram cobrar mais mesmo ampliando a oferta.
O choque veio do combustível, cujo custo para a aviação praticamente dobrou no segundo trimestre de 2026. As tarifas subiram, mas cobriram apenas parte desse aumento. O lucro líquido caiu 48% na Latam; 54% na Copa e 88% na American Airlines. No Brasil, a Azul reduziu a oferta em 10,6% e passou de lucro de R$ 1,29 bilhão para prejuízo de R$ 1,04 bilhão.
Na hotelaria, o motor foi outro. Na Hilton, a receita líquida cresceu 6,5% e o lucro, 9%. Na Marriott, a receita avançou 4,8% e o lucro ficou estável. Uma explicação está no perfil das viagens: segundo o IBGE, apenas 14,7% são feitas de avião no Brasil, enquanto carro e ônibus somam 62,6%. Nos Estados Unidos, 8,3% são aéreas e 91,7% feitas de automóvel, segundo a U.S. Travel Association. O peso do transporte terrestre ajuda a explicar a resiliência da hotelaria diante da alta das passagens aéreas.
As plataformas digitais tiveram os resultados mais consistentes. No Airbnb, a receita líquida cresceu 17% e o lucro, 27%. Na Expedia, a receita avançou 14% e o lucro, 166%. Na Booking, a receita cresceu 8% e o lucro, 116%.
As próprias aéreas também disputam a intermediação. A receita da Latam Travel cresceu 62%. Na Azul, a demonstração não separa a receita da Azul Viagens; a linha que reúne carga e pacotes avançou 15%.
Na distribuição presencial, o movimento foi inverso. A receita líquida caiu 6,5% e o prejuízo aumentou 59%, o pior resultado da categoria. No Brasil, as reservas cresceram apenas 4,1%, mesmo com as passagens aéreas 52,4% mais caras em 12 meses até junho e o tráfego doméstico 0,6% maior no trimestre, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Os números sugerem perda relevante de participação de mercado.
A Bolsa adiciona outra camada. Desde o início do ano até 30 de junho, antes da divulgação dos balanços, Delta e Copa subiram 35% e 29%, enquanto Latam e American Airlines avançaram 7,9% e 17,9%. Pelo conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos, Israel e Irã, o barril do Brent, que estava na região de US$ 60 antes da escalada, chegou a US$ 120 em 29 de abril. Em junho, porém, havia recuado para cerca de US$ 75, ajudando a explicar parte da alta das aéreas. Entre os hotéis, Marriott e Hilton subiram 19,5% e 15%, e a Airbnb avançou 5,4%. Expedia e Booking caíram 9,7% e 16,8%; nesse caso, o mercado refletia dúvidas sobre o impacto da inteligência artificial na busca e na compra de viagens. O segmento mais penalizado foi a distribuição presencial, com queda de 37%, maior que a das demais categorias analisadas.
O alívio do petróleo durou pouco. Em julho, o Brent voltou a superar US$ 100 e, em meados de agosto, estava perto de US$ 90, com o conflito no Oriente Médio ainda em aberto. Combustível, capacidade e disciplina tarifária continuarão definindo o segundo semestre das aéreas.
Para os intermediários, o desafio é estrutural. A inteligência artificial muda a pesquisa e a organização da viagem, mas não elimina a distribuição. As plataformas online conservam força em oferta, tecnologia e vantagem competitiva de preços. A venda presencial precisa justificar sua comissão com curadoria, financiamento e suporte à solução de viagens complexas. Crescer não basta. Vence quem transforma demanda em margem e oferece razão clara para pagar pela intermediação.
BOX | Turismo global com operação na América Latina: 2T26 vs 2T25
| Companhia / segmento | Receita líquida | Lucro líquido | Ação no 1S26 |
| AVIAÇÃO | |||
| LATAM | +27,6% | queda de 48% | +7,9% |
| Copa | +25,7% | queda de 54% | +29,0% |
| Delta | +18,7% | queda de 25% | +35,0% |
| American | +16,3% | queda de 88% | +17,9% |
| Azul | +0,7% | lucro → prejuízo | n.a. |
| HOTELARIA | |||
| Marriott | +4,8% | estável | +19,5% |
| Hilton | +6,5% | +9,0% | +15,0% |
| DISTRIBUIÇÃO ONLINE | |||
| Airbnb | +17,0% | +27,0% | +5,4% |
| Expedia | +14,0% | +166,0% | -9,7% |
| Booking | +8,0% | +116,0% | -16,8% |
| DISTRIBUIÇÃO PRESENCIAL | |||
| CVC | -6,5% | prejuízo aumentou 59% | -37,0% |
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Fábio Godinho
Executivo no setor de turismoExecutivo com mais de 20 anos de experiência no setor de turismo. Foi presidente de companhia aérea, de redes de hotéis e de companhias de distribuição de produtos turísticos. Atualmente, atua como conselheiro
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