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A engenharia por trás do interesse da Mota-Engil na Odebrecht

Construtora portuguesa negocia compra de fatia da Odebrecht de olho numa carteira potencial de US$ 37 bilhões em novos projetos até 2032

Odebrecht Engenharia & Construção (Odebrecht/Divulgação)
Odebrecht Engenharia & Construção (Odebrecht/Divulgação)
Pedro Gil

Pedro Gil

Editor do Exame INSIGHT

Publicado em 27 de julho de 2026 às 15:59.

Última atualização em 27 de julho de 2026 às 16:55.

A Mota-Engil, maior conglomerado de construção de Portugal, negocia a aquisição de 40% da Odebrecht Engenharia e Construção. A informação foi divulgada pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, e confirmada por EXAME Insight com fontes que participam da operação.

O negócio tem potencial para criar uma das maiores plataformas de engenharia e infraestrutura do país. De um lado, a Odebrecht, com receita superior a R$ 5 bilhões no Brasil. Do outro, a Mota-Engil, construtora com € 5,3 bilhões de faturamento anual e uma carteira de obras de € 16 bilhões.

O acordo está encaminhado, mas há lições de casa que a Mota-Engil quer finalizar antes de avançar para uma eventual assinatura. Uma delas é "mastigar" a aquisição realizada no fim do ano passado da Empresa Construtora Brasil (ECB), a sexta maior empreiteira brasileira. O grupo português já tinha uma participação majoritária no negócio desde 2012, o que deve facilitar o processo de integração.

Mas outra tarefa, mais difícil, é finalizar a compra da Bahia Mineração (Bamin), em negócio estimado em € 5 bilhões. A investida, que pertence ao grupo Eurasian Resources Group (ERG), baseado no Cazaquistão, engloba a mina Pedra de Ferro em Caetité (BA), a ferrovia Fiol I e o Porto Sul em Ilhéus (BA).

Apesar das dificuldades, a Mota-Engil espera fechar a compra da Bamin até o fim deste ano. Seu principal concorrente, a Vale, que chegou a avaliar uma investida — muito por pressão do governo —, desistiu de fazer uma oferta por não ver compatibilidade estratégica ou retorno financeiro adequado no ativo.

O que tem de concreto

O interesse pela Odebrecht é antigo. A Mota-Engil tem a região da América do Sul como uma das prioridades do grupo até 2030. "O objetivo passa por crescermos na área da engenharia e construção, meio ambiente e concessões", diz reservadamente um importante executivo da Mota-Engil. "Sempre avaliamos projetos nessa vertente."

Do ponto de vista operacional, a Odebrecht não precisa da Mota-Engil. A construtora preservou capacidade técnica, carteira de projetos e presença em mercados estratégicos. A companhia encerrou 2024 com um backlog de US$ 4 bilhões, concentrado em operações no Brasil, Angola e Estados Unidos. As atividades internacionais respondiam por 74% da carteira contratada, com predominância dos segmentos de transportes, energia, refinarias e plantas industriais, responsáveis por quase 80% do total.

O principal benefício de um eventual acordo estaria, portanto, na frente financeira. Embora a Odebrecht tenha encerrado no início deste ano sua recuperação judicial — aberta em 2024, quando a dívida declarada era de R$ 4,6 bilhões —, a Novonor, sua controladora, continua em processo de reestruturação de cerca de R$ 38 bilhões em dívidas.

Essa situação limita o acesso da construtora a linhas de crédito, garantias bancárias e seguros exigidos para disputar grandes contratos de infraestrutura. A entrada de um investidor poderia ampliar a capacidade da OEC de financiar projetos e voltar a competir em igualdade de condições nas grandes licitações — como ela já fez no passado.

Odebrecht, ora pois?

Se fechar negócio, o maior desafio da Mota-Engil vai ser mensurar os compromissos remanescentes da Odebrecht decorrentes da recuperação judicial, além das contingências regulatórias e tributárias relacionadas aos acordos firmados após a Lava Jato.

Ainda assim, o pacote continua fazendo sentido para os portugueses, principalmente por aumentar a presença da construtora num mercado estratégico. A Odebrecht projeta adicionar US$ 37 bilhões em novos projetos até 2032, com metade da receita prevista concentrada no Brasil (50%) e um terço em Angola (33%), outro mercado prioritário na estratégia da Mota-Engil.

Enquanto a negociação com a Odebrecht avança, a Mota-Engil segue ampliando sua exposição ao mercado brasileiro. Após assumir o controle integral da ECB, a companhia venceu a PPP do túnel Santos–Guarujá e, em consórcio com a própria OEC e a Galápagos Capital, conquistou uma concessão rodoviária com investimentos estimados em R$ 4 bilhões.

Em nota, a Odebrecht diz que "não comenta especulações de mercado", mas que "a atração de um sócio estratégico integra o plano de negócios apresentado pela Odebrecht Engenharia & Construção na sequência de sua reestruturação financeira, já concluída".

A companhia diz ainda que "há um histórico de parcerias com a Mota-Engil ao longo de décadas e a participação, atualmente, como consorciadas em importantes projetos de infraestrutura no Brasil e África."

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Pedro Gil

Pedro Gil

Editor do Exame INSIGHT

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com

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