Um brasileiro vai comandar a Heineken — com um toque de AB Inbev
Rafael Oliveira herdou disciplina financeira da Kraft Heinz, empresa irmã da principal rival da cervejeira holandesa


Mitchel Diniz
Editor de Invest
Publicado em 23 de junho de 2026 às 11:52.
A Heineken anunciou nesta terça-feira, 23, a nomeação de Rafael Oliveira como seu novo presidente executivo. Ele tem 51 anos, dupla nacionalidade brasileira e britânica, e uma trajetória que atravessa Goldman Sachs, Kraft Heinz e JDE Peet's. A escolha não é casual. Coincide com um período turbulento para a segunda maior cervejaria do mundo, com volumes de vendas em queda. Oliveira, por sua vez, é conhecido por ter herdado a disciplina financeira dos lugares por onde passou. A Kraft Heinz é "cria" da 3G Capital assim como a AB Inbev e são conhecidas por partilhar dessa mesma postura de austeridade com custos. Agora, o executivo leva essa experstise para a concorrente.
O volume global de cerveja vendida caiu 1,2% em 2025 em relação ao ano anterior. Na Europa e nas Américas, a retração foi de 3,4% e 2,8%, respectivamente. No Brasil, um de seus maiores mercados, a queda pode ter chegado a 3%, segundo dados da própria companhia. Em janeiro deste ano, o CEO Dolf van den Brink, que estava no cargo há seis anos, anunciou sua saída. Nos bastidores, o diagnóstico era duro: a Heineken ficara para trás em eficiência de custos e retorno ao acionista em relação a rivais como AB InBev e Carlsberg.
Para piorar o cenário, a empresa ainda enfrentou uma disputa com varejistas europeus em 2025 que chegou a retirar suas marcas temporariamente das prateleiras. A reestruturação anunciada em fevereiro, com o corte de 6 mil funcionários, deixou claro que a companhia precisava de uma liderança com perfil de transformação — e por que não alguém de fora? A nomeação de Oliveira rompe com a tradição da Heineken de promover seus executivos internamente.
From banks to beers
Rafael Oliveira não chegou à Heineken pelo caminho convencional do setor cervejeiro. Antes de entrar no mundo do consumo, passou dez anos no Goldman Sachs, incluindo o posto de diretor executivo para mercados emergentes na Ásia, com base em Hong Kong. Iniciou a carreira no Brasil como analista de equity research no Banco Icatu e no Banco BBA Creditanstalt.
A virada para o consumo veio em 2014, quando entrou na Kraft Heinz, empresa criada a partir da fusão arquitetada pelo fundo brasileiro 3G Capital e pela Berkshire Hathaway de Warren Buffett. Ali, escalou postos ao longo de uma década: diretor-geral para Austrália, Nova Zelândia e Papua Nova Guiné, presidente para Europa, Reino Unido, Oriente Médio, Rússia e África, até chegar ao topo internacional como EVP e presidente de Mercados Internacionais, supervisionando um portfólio acima de US$ 7 bilhões em quatro continentes.
A saída da Kraft Heinz, em março de 2024, foi discreta. Oliveira anunciou que passaria meses no Quênia com a Pharo Foundation, trabalhando em projetos de educação para crianças em situação de vulnerabilidade. Sete meses depois, estava de volta ao mundo corporativo, desta vez para apagar um incêndio.
O teste na JDE Peet's
A JDE Peet's, maior empresa global especializada em café e chá, vivia uma crise de liderança quando contratou Oliveira em novembro daquele ano. Dois CEOs haviam deixado o cargo em menos de oito meses. A empresa acumulava anos de queda nas ações e enfrentava a alta histórica dos preços do café verde, que comprimia margens.
Em menos de um ano, Oliveira reorganizou a estratégia. Batizou o plano de "Reignite the Amazing" e enxugou o portfólio. De mais de 50 marcas, a companhia passou a concentrar esforços em três frentes — Peet's, L'OR e dez marcas locais icônicas lideradas pela Jacobs. Prometeu 500 milhões de euros em economias de produtividade até 2027. Os resultados de 2024 foram considerados sólidos: lucro bruto de 8,84 bilhões de euros, alta de 7,9% em relação ao ano anterior.
O desempenho chamou atenção. Quando a Keurig Dr Pepper concluiu a aquisição da JDE Peet's em abril de 2026, nomeou Oliveira para liderar a nova Global Coffee Co., empresa que reuniria as operações de café das duas companhias, com receita anual de cerca de US$ 16 bilhões. Foi dessa posição que a Heineken o recrutou.
Segundo o presidente do conselho da cervejeira, Peter Wennink, Oliveira combina visão estratégica com rigor operacional, qualidades que a empresa considera essenciais para acelerar a agenda EverGreen 2030, o plano de longo prazo da cervejaria que prevê crescimento equilibrado e sustentável até o fim da década.
Charlene de Carvalho-Heineken, principal acionista do grupo, também se manifestou. Para a família controladora, a capacidade comprovada de Oliveira de transformar estratégia em execução disciplinada foi o fator decisivo.
Sujeito à aprovação dos acionistas em assembleia extraordinária marcada para 5 de agosto, Oliveira assume formalmente em 1º de outubro de 2026, para um mandato de quatro anos. Ele chega a uma empresa que já tem um plano desenhado — e que talvez precise um pouco da cultura de sua principal rival para executá-lo.
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Mitchel Diniz
Editor de InvestJornalista há 20 anos, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pela FIA Business School. Passou pelas redações de Valor, Folha de S. Paulo, GloboNews e InfoMoney.
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