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Fim do inverno das big techs? Ações da Amazon sobem 10% e impulsionam Wall Street

Otimismo com setor vem mesmo com crescimento menor do que o de 2022, mas diante de perspectiva de queda de juros a partir de dados macroeconômicos

Andy Jassy, CEO da Amazon: balanço positivo e acima do esperado  (David Ryder/Getty Images)
Andy Jassy, CEO da Amazon: balanço positivo e acima do esperado (David Ryder/Getty Images)

27 de abril de 2023 às 20:09

As ações da Amazon chegaram subiram mais de 10% nesta quinta-feira, 27, depois de a companhia divulgar dados de crescimento superiores às estimativas de mercado tanto em receita quanto em lucro: a primeira linha do balanço mostrou faturamento de US$ 127,4 bilhões, aumento de 9,45% em relação ao mesmo período do ano anterior, e a última linha trouxe US$ 3,2 bilhões positivos, ante prejuízo de US$ 3,8 bilhões. O lucro veio 50% maior do que as expectativas de mercado, como apontou o Wall Street Journal.  Para o segundo trimestre, a companhia forneceu um guidance de receita entre US$ 127 bilhões e US$ 133 bilhões (expansão de 5% a 10% na comparação anual) e lucro operacional entre US$ 2 bilhões e US$ 5,5 bilhões (ante US$ 3,3 bilhões). A mensagem do CEO, Andy Jassy, é de que a companhia enfrentou um cenário macroeconômico turbulento de curto prazo, mas que há motivos para se manter confiante sobre o futuro.

Mais do que um sentimento, a previsão teve um quê quantitativo. Foi daí, especialmente, que veio o bom humor que impulsionou as ações, cuja alta arrefeceu ao longo do dia com ganho da ordem de 4,5% ao fim do pregão. A divisão de Cloud da empresa, que tem passado por desafios com o aumento dos juros -- e a consequente redução de investimentos de empresas --  cresceu 15,8% no primeiro trimestre. Apesar de um avanço em dois dígitos altos, a cifra representa uma desaceleração em relação ao ritmo do ano anterior, mas ainda ficou ligeiramente acima das expectativas de mercado, com uma receita de US$ 21,3 bilhões. Também conta ponto o fato de que a desaceleração nesse negócio não é uma exclusividade da Amazon: a Microsoft e o Google tiveram taxas de crescimento menores do que as registradas há um ano. Ainda nos resultados da companhia por divisão, foi visto com otimismo o resultado da vertical de propaganda, que cresceu 23% (a mesma taxa do primeiro trimestre de 2022) e já soma um faturamento de US$ 9,5 bilhões.

Como o WSJ aponta, os dados de crescimento vêm em um momento de reorganização da companhia. A Amazon, assim como tantas empresas de tecnologia, fez cortes e mais cortes para lidar com o 'inverno' das techs ao longo do último ano. Mais de 18 mil demissões foram realizadas e outras 9 mil devem ser concluídas até o próximo trimestre. Em ambiente de juros altos, a empresa também paralisou projetos secundários.

O otimismo com a Amazon vem em um momento de desaceleração da economia americana. O PIB dos Estados Unidos avançou 1,1% no primeiro trimestre, a uma taxa anualizada, número abaixo da expectativa do mercado, que era de alta de 2%. Todos os fatores macroeconômicos foram explorados em um dossiê da Exame, aqui. Há expectativas otimistas de que a alta do Fed (que deve levar as taxas de juros para 5% a 5,25%) seja a última antes de o Banco Central americano parar o ciclo de aperto monetário. Mas está longe de ser consenso.

As gigantes vão bem

Esse conjunto de fatores levou Wall Street a ter o melhor dia desde janeiro, impulsionado, do lado das empresas, pela divulgação de resultados de big techs. O sentimento é de que para algumas, e nesse caso as maiores, a resiliência foi determinante para uma recuperação significativa. Após o período de incertezas, o S&P 500 cresceu 2%, principalmente por Microsoft, Alphabet e Meta.

No caso da Microsoft, a receita geral aumentou 7%, para US$ 52,9 bilhões, superando as previsões. O lucro líquido aumentou 9%, para US$ 18,3 bilhões, contra estimativas de US$ 16,6 bilhões. E das nuvens, via o braço Azure, a empresa teve uma grata surpresa, com crescimento de 16% do lucro, abafando de vez os temores de uma forte desaceleração nos gastos de seus clientes corporativos após um boom de serviços digitais durante a pandemia de covid-19. Para o futuro breve, esperam os analistas, a Microsoft se reserva a mais uma vez dominar um posto de destaque no setor de tecnologia.

O motivo é a certeira aposta na empresa de Sam Altman, o inovador por trás da OpenAI, que desenvolve o ChatGPT. A empresa de Satya Nadella tem US$ 10 bilhões aplicados no novo negócio, com a garantia de que poderá usar a tecnologia de IA em qualquer um de seus já bem-sucedidos produtos. Uma aposta que ainda precisa se provar funcional e lucrativa, mas que deve trazer os primeiros frutos nos balanços finais do ano fiscal da empresa.

Sam Altman, CEO e fundador da OpenAI: investimento de US$ 10 bilhões vindos da Microsoft (Chona Kasinger/Bloomberg/Getty Images)

Do lado da Alphabet, o negócio de publicidade via buscador Google voltou a crescer, com receita subindo 2% no primeiro trimestre de 2023, após uma queda de 2% no último trimestre de 2022. A receita total da controladora aumentou 3% - ou 6% antes do efeito dos movimentos cambiais - para US$ 69,8 bilhões, enquanto o lucro por ação caiu para US$ 1,17, de US$ 1,23 no ano anterior.

A empresa também está investindo em tecnologia de inteligência artificial (IA), fruto de um forte incomodo causado pelo sucesso do ChatGPT, embora o CEO Sundar Pichai tenha se negado a afirmar que a disparada do novo player, principalmente no meio corporativo, possa afetar sua margem de lucro no futuro.

“Existem vários segmentos em que não fomos primeiros, nem no mecanismo de busca e nem no primeiro navegador, em alguns momentos, não importa ser o primeiro. É normal que isso ocorra, a janela de oportunidade e o tempo de uma startup são muito diferentes em relação a uma empresa como o Google. Da nossa parte, o que eu posso dizer é que a premissa segue sendo manter o foco entendendo a melhor forma de usarmos a tecnologia e incorporá-la em nossos produtos e serviços”, disse o CEO em entrevista ao WSJ, no início do mês.

Mas ainda que os cenários pareçam otimistas como um todo, a Meta, que apresentou balanço com lucro líquido de US$ 5,7 bilhões, reforçou nesta quarta-feira, 27, que ainda tem monstros a enfrentar. O mais urgente deles é encerrar a reestruturação da empresa em maio, com mais um corte de funcionários sem número definido. Até o momento, mais de 20 mil postos foram cortados em duas fases, num achatamento de gestão que Mark Zuckerberg apelidou de “ano de eficiência”.

Com uma companhia mais enxuta, e os planos do utópico metaverso escondidos nos quartos dos fundos companhia, a Meta se volta aos negócios de sempre: em conversa com investidores, Zuckerberg definiu que seu plano é transformar a plataforma mais envolvente e sua publicidade mais eficaz, além de simplificar os processos internos.

Mark Zuckerberg, CEO da Meta: foco da empresa se torna IA e planos do metaverso ficam em segundo plano (Anadolu Agency)

Desde que a empresa lançou o Reels, seu feed de vídeo curto para rivalizar com a crescente ameaça do TikTok, suas recomendações baseadas em IA aumentaram o tempo gasto no Instagram em 24%, disse ele. Em meio ao crescente entusiasmo em torno do potencial da IA , Zuckerberg disse também que a Meta estava trabalhando em novos recurso para edição de vídeo rápida orientada por IA, algo que facilitaria a vida de produtores de conteúdo e aumentaria sua oferta de posts.

 “Não estamos mais atrasados ​​na construção de nossa infraestrutura de IA e, pelo contrário, agora temos a capacidade de fazer um trabalho de liderança neste espaço em grande escala”, disse Zuckerman ao acionistas.

Apesar do foco na IA durante sua fala, Zuckerberg reiterou seu compromisso de construir, em um plano mais longo e sem data para acabar, o metaverso de avatares, desconsiderando “a narrativa” de que a empresa estava se afastando do rebranding de poucos anos atrás. Se o norte para o crescimento aponta para IA, a Meta juntamente com seus pares do Vale do Silício indicam que pressões inflacionárias e problemas macroeconômicos ficaram no ano passado. Na economia como um todo? Claramente nesse caso ainda há muito mistério. Mas o que os números do primeiro trimestre estão ajudando a ver é que as empresas continuam, apesar do momento de elevado custo de capital, investindo em tecnologia e economia digital. Essa crença não mudou. Um alívio e tanto para as giant techs. Para dizer que o inverno terminou, porém, muito ainda falta.

Para que os gastos das companhias na frente tecnológica sejam realmente significativos, e impulsione a demanda, ainda falta o dinheiro voltar a parecer barato. E a perspectiva de retorno, mais rápida. E não faltam pessimistas relevantes no front. Ray Dalio, o guru da Bridgewater Associates, acha que os efeitos dos juros sobre a economia vão começar agora.

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Karina Souza

Karina Souza

Repórter Exame IN

Formada pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduada pela Saint Paul, é repórter do Exame IN desde abril de 2022 e está na Exame desde 2020. Antes disso, passou por grandes agências de comunicação.

André Lopes

André Lopes

Repórter

Com quase uma década dedicada à editoria de Tecnologia, também cobriu Ciências na VEJA. Na EXAME desde 2021, colaborou na coluna Visão Global, nas edições especiais Melhores e Maiores e CEO. Atualmente, coordena a iniciativa de IA da EXAME.

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