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ESPECIALISTAS: Educar é projetar o futuro. Esse é o desafio do novo MEC.

No dia do anúncio do novo ministro da educação, Camilo Santana, ex-governador do Ceará, diretora pedagógica da Bahema Educação escreve sobre o que carecemos

Novos tempos: "A educação midiática e digital são aspectos fundamentais a serem enfrentados em currículos contemporâneos", aponta Sônia Barreira (Bússola/Reprodução)

Novos tempos: "A educação midiática e digital são aspectos fundamentais a serem enfrentados em currículos contemporâneos", aponta Sônia Barreira (Bússola/Reprodução)

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Sônia Barreira

20 de dezembro de 2022, 17h16

Um projeto educativo se faz olhando para o futuro. Em qualquer nível, as decisões que se tomam acontecem a partir de uma projeção, uma aposta, que alguns podem chamar de sonho, outros podem chamar de ideal. Isso acontece no plano individual, quando uma família escolhe e matricula seu filho em uma escola, porque entende que aquela instituição vai oferecer a ele os ingredientes necessários para sua realização na vida adulta. Ocorre também no plano coletivo, quando, na escola, uma equipe decide atualizar seu currículo, analisa as novas necessidades sociais e alinha seu projeto pedagógico para preparar seus alunos e alunas para o futuro; e deve acontecer, em qualquer país, quando são desenhadas políticas públicas. Neste momento, o Brasil enfrenta este desafio e precisa projetar suas ações e programas no Ministério da Educação (MEC), visando a formação do cidadão do amanhã.

Olhar para trás é evidentemente importante. Não se pode perder a oportunidade de aprender com o passado, tanto com os erros como com os acertos. Fundamental também é buscar o que foi deixado de lado, para reconstruir e dar continuidade, como as políticas de inclusão social e ampliação das oportunidades para os grupos historicamente marginalizados terem acesso ao ensino superior de qualidade, com suas condições de permanência asseguradas. Não percamos tempo!

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em 2017, ainda não chegou plenamente à sala de aula. Ela propõe, entre outras coisas, um ensino com foco nas competências e não nos conteúdos. Formar alunos para resolver problemas, fazer propostas e projetos e usar o conhecimento disciplinar para fazer frente às demandas que a realidade impõe é, nesse sentido, imprescindível. Já sabemos que ensinar conteúdos fora de contexto, deturpados pelos livros didáticos e memorizados sem entendimento são perda de tempo e de recursos. No entanto, essas práticas ainda dominam o cenário escolar. Dar seguimento à implantação da BNCC, em parceria com estados e municípios, é urgente e importante.

A reforma do Ensino Médio é outra política que tem recebido menos atenção do que o necessário, dada a sua pertinência nessa construção de futuro. É preciso desenvolver programas bem estruturados de suporte à sua implantação e avançar na reconfiguração das avaliações, que vão permitir o alinhamento com os processos de seleção para o ensino superior — pois é sabido que se avaliação não muda, nada muda. Ainda nesta direção, é igualmente urgente uma atenção especial para as séries finais do Ensino Fundamental, que seguem vítimas do excesso de conteúdos descontextualizados e abandonadas no âmbito da transição da infância para a juventude. Esta etapa requer programas voltados para a saúde mental, para os processos de construção da identidade subjetiva e social que possam ajudar a realizar uma educação verdadeiramente socioemocional.

Não se pode deixar de considerar as necessidades que surgiram nos últimos cinco anos e para as quais não há, concretamente, nada em andamento. A educação midiática e digital são aspectos fundamentais a serem enfrentados em currículos contemporâneos. A compreensão de como o conhecimento e a informação são construídos no universo computacional é um passo essencial para a construção da cidadania digital.

No entanto, é fundamental considerar que nada disso será suficiente para a construção de uma sociedade menos desigual se a escola não for o espaço para a educação antirracista, especialmente no contexto brasileiro, em que mais da metade da população se autodeclara negra. É preciso ir além da renovação curricular — condição essencial para o cumprimento das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que sozinhas não dão conta dos inúmeros desafios relacionados às desigualdades raciais na educação. É urgente racializar o debate educacional, assumir os inúmeros desafios que a escola tem para promover a equidade na aprendizagem e desconstruir a falsa ideia de igualdade ainda muito defendida por muitos educadores e educadoras. Nada disso será possível sem que se faça chegar às escolas práticas verdadeiramente antirracistas que, por sua vez, não poderão prescindir de uma formação consistente, estruturada e contínua de todos os agentes escolares, sobretudo gestores e professores.

Essas proposições não são novas. Ao contrário, estão no debate sobre qualidade educacional dos últimos anos, bem como o consenso que está posto entre os especialistas de que a qualificação docente é condição essencial e que depende de ações sistêmicas envolvendo formação básica, remuneração, avaliação e atualização permanente.

Este novo MEC que agora se anuncia tem como tarefa precípua a indução destas mudanças. Mas para que a construção deste projeto de futuro seja ampla e responda aos interesses do país, deve buscar as contribuições do terceiro setor e de parte do  setor privado que, consciente de seus privilégios, pode disponibilizar ferramentas, instrumentos, materiais e planos de trabalho a serviço da educação pública que vai forjar o cidadão do amanhã.

*Sônia Barreira é diretora pedagógica da Bahema Educação e fundadora da Escola da Vila