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Choque nos balanços: a Faria Lima esqueceu que fica no Brasil?

Resultados das empresas refletem economia nacional, mercado se surpreende e derruba preços

“O Brazil não conhece o Brasil.” A frase, que abre a música de Maurício Tapajós e Aldir Blanc Querelas do Brasil, eternizada na voz de Elis Regina, poderia bem ser a trilha sonora da temporada de balanços do terceiro trimestre de 2021. A recuperação econômica desigual, aparentemente, atingiu em cheio a capacidade analítica de investidores.

A Faria Lima, após dois anos de mercado super aquecido, esqueceu de olhar para a parte do país que empobreceu. Não viu que parcela relevante da população está com mais medo da inflação e dos juros altos do que feliz de poder novamente aplicar no CDI ou em títulos com rentabilidade do IPCA.

A surpresa com os resultados do trimestre é evidente. Está estampada no comportamento das ações após a divulgação dos balanços. Diversas companhias — onde só aparecem 'nomões' — viram suas ações desabarem cerca de 30%, ou até mais, após o anúncio dos números de julho a setembro. Não se trata de uma correção trivial.

Aconteceu com Magazine Luiza, o ícone brasileiro da digitalização no varejo em 2020, e com Stone, que era o projeto mais admirado no setor de adquirência. A Natura &Co, então, a companhia que revitalizou o mercado de capitais nacional, apanhou mais que gato em desenho animado na bolsa após anunciar o desempenho do trimestre. Via, dona das Casas Bahia e do Ponto Frio, despencou porque dobrou provisões trabalhistas, mas teria caído mesmo sem esse susto.

Para começar a colocar em números, é preciso ver o seguinte: Magazine Luiza chegou a valer R$ 165 bilhões na B3 e agora é avaliada em R$ 61 bilhões. Natura &Co passou dos R$ 75 bilhões e nesse momento está em R$ 42 bilhões. Stone, listada na Nasdaq, provou do mesmo fel: a ação despencou mais de 30% em um só pregão e a empresa voltou para os níveis do IPO, há três anos. Depois de bater US$ 35 bilhões, no começo deste ano mesmo, está valendo menos de US$ 6,5 bilhões. Via, que passou dos R$ 40 bilhões, está agora com valor abaixo de R$ 9 bilhões.

Todas essas máximas foram alcançadas em 2021. E os valuations atuais não foram atingidos nem mesmo no auge do estresse com a pandemia, em março de 2020, quando o mundo perdeu a referência de segurança sanitária por um período.

Afinal, o que o balanço dessas companhias trouxe que causou tanto espanto? Resultados, em geral, são quase um não evento na vida de uma empresa na bolsa. Mas, desta vez, os balanços escancaram o momento complicado da economia sobretudo para as classes mais baixas.

O Índice de Preço aos Consumidor (IPCA) já rompeu os dois dígitos e acumula uma alta de 10,67% em 12 meses até outubro. A taxa Selic começou o ano em 2% e está agora em 7,75%, com algumas projeções para o fim do ano já beirando os 10%. Enquanto isso, apesar de o desemprego ter registrado em agosto a melhor taxa —  ainda em 13,2% — desde maio de 2020, a renda média do trabalhador caiu quase 10,5% na comparação anual.

Magazine Luiza e Via tiveram redução nas vendas em loja, onde as classes mais baixas concentram as compras, e as empresas perderam margem junto com parte mais rentável da receita (que está no balcão da loja física) — 8% e mais de 14%, respectivamente. As varejistas também viram recuar a receita ao encontrar uma taxa de juros bem mais salgada para descontar seus recebíveis. A Natura &Co teve queda nas vendas no Brasil, de dois dígitos. No consolidado de América Latina, o recuo foi de quase 9% no trimestre, com queda de 47% no Ebitda. Com o fim do home office, as revendedoras naturalmente perderam produtividade e o engajamento diminuiu.

A Stone está ajudando na bancarização e na digitalização do microempreendedor individual (MEI), mas o mercado parece ter se esquecido que esse tíquete é menor. E que quando você começa um negócio, ataca primeiro o filé e depois vai para as beiradas, onde existe crescimento, mas o custo fica maior. Também faltou na conta que o dinheiro está mais caro. A queda na margem assombrou.

Para completar o quadro, todas essas companhias viveram o boom de digitalização em 2020 e o efeito extraordinário da vida no home office. Portanto, tiveram balanços fortes — Magalu e Natura &Co, por exemplo, experimentaram trimestres históricos no ano passado. E agora são as primeiras a sentir os tremores da piora do cenário doméstico. O quanto dura e o quão profundo serão os reflexos, só os próximos trimestres dirão. E tudo isso ocorreu no meio de uma alta significativa da energia, do combustível, de uma quebra na cadeia de suprimentos e da explosão dos fretes internacionais. Fácil, a vida do empresário não está. Muito menos, a do brasileiro médio.

A análise ainda inclui o fato de essas empresas, todas as quatro, estarem digitalizando o Brasil com seus negócios. E o custo desse esforço também foi ignorado. Olhou-se apenas para a piscina de oportunidades.

É possível dizer sem medo que as companhias, de alguma maneira, falharam em sua comunicação com os investidores, ao deixar tremenda surpresa ocorrer. Contudo, talvez elas próprias não tinham a exata noção do descolamento do Brasil em que viviam aqueles que as analisam. E quando a surpresa deixa de ser pontual e se generaliza, traz a inevitável pergunta: quem errou? Ainda que as empresas possam ter se equivocado aqui ou ali em algumas decisões, a virada de temperatura não foi pequena e seus efeitos não podem ser ignorados.

Alguns agora tentam dizer, tamanhas foram as quedas, que errados estavam os valores anteriores, da euforia. E que esses são os valuations corretos. Se as empresas perderam a credibilidade na sua comunicação, como algumas são acusadas, também é possível questionar se os investidores perderam a capacidade de dar preço.

Nesses momentos, não se pode esquecer que o mercado vive de narrativas. E é preciso encontrar uma justificativa para as dificuldades que os próprios fundos de investimento estão enfrentando. Ao menos, aqueles que aplicam em ações, os de renda variável, e os multimercados. Em novembro, até dia 11, os fundos de ações acumulavam resgates de R$ 2,8 bilhões — e não é nem a metade do mês. As carteiras multimercados, que estavam fortemente alocadas em ações até o meio deste ano, também têm mais saques que captações nesse período: o saldo está negativo em mais de R$ 600 milhões. Pode parecer pouco, mas como tendência é uma troca de mão e tanto, após quatro anos de captações líquidas fortes.

O Brazil

Nesse mesmo terceiro trimestre, o Brazil foi registrado no balanço da JHSF, uma holding de luxo que tem diversos negócios para o mesmo público AA — shoppings como o Cidade Jardim, empreendimentos como Fazenda Boa Vista, hotéis e restaurantes Fasano e ainda o aeroporto para aviões particulares Catarina. Trata-se de um dos poucos negócios que viram seu público alvo crescer em tamanho e em poder aquisitivo.

Como a companhia opera em mercados que foram fortemente afetados em 2020, com o fechamento do comércio devido à pandemia, a melhor comparação é com 2019 — exceto na incorporação, que explodiu no ano passado, e a comparação será na base anual.

A receita com shoppings, físicas e digitais, avançou mais de 53%, para R$ 73,1 milhões, entre julho e setembro, sobre o ano pré-pandemia. A margem bruta nesse período saiu de 66% para 64%. A frente de hospitalidade e gastronomia teve expansão de 35% na receita, para R$ 62,2 milhões. O aeroporto Catarina trouxe R$ 9,6 milhões à soma consolidada da receita líquida no período.

O segmento de incorporações foi o que mais se desenvolveu durante a crise da covid-19 e as vendas dispararam com a flexibilização do sistema de trabalho. Mesmo assim, a receita desse negócio ainda teve expansão, agora de 15%, sobre o incrível ano de 2020 e alcançou R$ 331,4 milhões, com margem de 73,4%. O resultado é que de 2019 para 2021, a JHSF mudou de patamar. A receita líquida consolidada passou de R$ 185 milhões para R$ 476 milhões, na comparação entre os terceiros trimestres.

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