Uma lição de como gerir supertalentos na demissão do técnico do Real Madrid
O espanhol Xabi Alonso não resistiu à pressão após perder a final da Supercopa da Espanha, numa decisão que vale ser vista além do futebol


Lucas Amorim
Diretor de redação da Exame
Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 16:17.
Última atualização em 15 de janeiro de 2026 às 09:57.
A gestão de talentos é um dos temas mais tratados pelo RH de grandes e pequenas empresas -- mas em poucos casos sua discussão chega a limites estratosféricos quanto no Real Madrid. O time mais vencedor da história do futebol paga R$ 1,5 bilhão de reais por ano em salários, e apenas sua maior estrela, o francês Mbappé, recebe R$ 150 milhões.
Juntar o máximo de grandes jogadores possível, com os maiores salários possíveis, e lutar pelos maiores títulos sempre foi o modus operandi do clube. Anos atrás, isso incluiu contar numa só escalação com craques como Zidane, Ronaldo, Beckham, Figo. Nos últimos meses, porém, o merengue desandou e o técnico Xabi Alonso acabou demitido nesta segunda-feira, 12.
No domingo o Real Madrid havia perdido a final da Supercopa da Espanha para seu maior rival, o Barcelona, num jogo que impulsionou a insatisfação do clube e de seus maiores craques, como Vinícius Jr., com a gestão de pessoas.
Jornais espanhóis revelaram que Xabi, ex-jogador do clube e campeão do mundo com a Espanha, levou para Madrid uma gestão de elenco que funcionou por dois anos no alemão Bayer Leverkusen. Elas incluíam exigências rígidas de horários e demandas como a obrigação de que os atletas voltassem juntos dos jogos, o que atrapalhou os planos de muitos deles com suas famílias.
Xabi também escalou vários jogadores fora de posição, demandando que eles se adaptassem a seu estilo, e não o contrário. O alemão Rüdiger, o uruguaio Valverde e o brasileiro Rodrygo estavam entre os insatisfeitos.
A diferença entre treinar e gerir
Numa entrevista em dezembro para a CBS, o ex-jogador francês Thierry Henry, um dos maiores atacantes do século, disse que Xabi estava "treinando demais e gerindo de menos". Na Alemanha, explicou Henry, Alonso teve liberdade para impor seu estilo e suas ideias. E foi campeão alemão invicto.
Mas numa grande empresa com grandes estrelas, como o Madrid, ele deveria ter permitido que os jogadores "dirigissem o carro", em vez de impor regras e um sistema tático rígidos.
É uma linha fina para gestores de quaisquer setores. A seleção brasileira de 2006, por exemplo, a mais talentosa dos últimos 20 anos, sucumbiu no mundial de 2006 por, segundo documentou a imprensa esportiva, faltar pulso firme no dia-a-dia.
Por outro lado, uma das maiores seleções da história, a de 1970, venceu as eliminatórias para a Copa do Mundo sob o comando de um jornalista que entendia pouco de tática, mas muito de gestão de plantel, João Saldanha. Ao atacante Tostão, por exemplo, um jovem promissor, disse: "você é titular absoluto, mesmo que jogue mal várias partidas".
"Isso me deu uma confiança enorme", revela tostão no livro "Tostão: tempos vividos, sonhados e perdido", da Companhia das Letras. Ele acabou artilheiro das eliminatórias e foi peça-chave na seleção que meses depois ganharia a Copa já sob comando de Zagallo, num dos times que reuniram mais craques entre os titulares na história.
Paralelo com as empresas
O autor de best-sellers de liderança Marcus Buckingham costuma dizer que times com supertalentos precisam focar em potencializar as forças, não em corrigir as fraquezas.
Um de seus principais conceitos é "o desempenho extraordinário não é replicável". Por isso, organizações falham ao tentar consertar seus melhores talentos, e acabam perdendo o foco daquilo que os torna excepcionais.
Vale para a seleção de 70, vale para o Real Madrid, e pode valer para negócios dos mais variados setores. O clube espanhol, aliás, anunciou como seu novo treinador, Álvaro Arbeloa, um ex-lateral de pouco brilho. A tendência é que ele dê mais liberdade para os craques do elenco serem eles mesmos. Cómo le gusta em Madrid.
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Lucas Amorim
Diretor de redação da ExameJornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, começou a carreira no Diário Catarinense. Está na Exame desde 2008, onde começou como repórter de negócios. Já foi editor de negócios e coordenador do aplicativo da Exame.
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