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Varejo

Selic e Shein: o duplo 'S' que derrubou o lucro e assombra os setores de consumo e varejo

Plataforma chinesa pode faturar R$ 16 bilhões neste ano e superar a líder Renner em vendas

Tsunami: aumento brutal da despesa financeira devasta balanços de 2022 (Viaframe/Getty Images)
Tsunami: aumento brutal da despesa financeira devasta balanços de 2022 (Viaframe/Getty Images)
Graziella Valenti

Graziella Valenti

28 de março de 2023 às 15:32

O segmento de consumo e varejo está sendo assombrado por um duplo 'S': a taxa Selic, que corrói os resultados por dentro e também a demanda, e o crescimento meteórico da empresa chinesa de e-commerce de moda Shein, que não para de crescer por aqui.

A Shein deve alcançar R$ 16 bilhões em vendas neste ano só no Brasil, o que — se confirmado — a tornará maior do que a Renner (LREN3), líder no segmento de fast fashion com modelo de roupa por departamento.  Essa é a expectativa que alguns executivos da empresa estão transmitindo ao mercado. A Shein é uma das companhias fechadas mais acompanhadas por analistas brasileiros.

O volume estimado para 2023 é o dobro dos R$ 8 bilhões do faturamento de 2022 e oito vezes o que se acredita ter sido a receita de 2021. Vale destacar que a companhia não divulga números nem no Brasil nem na China. Os números de 2022 e 2021 são cálculos do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).

Em fenômeno de menor proporção estão Shopee e AliExpress, mas que também estão conquistando espaço entre os pedidos online dos brasileiros. Competição maior e ambiente pior são as principais explicações para o que se viu nos resultados de 2022.

O EXAME In compilou o desempenho de 25 empresas do setor de consumo, incluindo produtos e varejo, e o que se vê é uma queda de 60% no lucro líquido, que saiu de R$ 12,1 bilhões para R$ 5,2 bilhões na comparação entre 2021 e 2022. Os números são da Trademap.

O vilão estampado nos números é óbvio: a despesa financeira. Os gastos com serviço de dívida e o aumento nos descontos de recebíveis fizeram essa conta saltar quase 80%, na comparação anual, para R$ 14,2 bilhões. Algumas companhias conseguiram melhorar suas margens operacionais no ano passado, mas isso não foi suficiente para estancar o sangramento de caixa na frente financeira.

Para ter uma ideia do que isso quer dizer: o lucro agregado de 2022 foi menor do que de 2020, auge da pandemia e da restrição de mobilidade da população. Naquele ano, a despesa financeira foi de R$ 5,1 bilhões e a última linha, no agregado, ficou positiva em R$ 8,2 bilhões — ou seja, 58% maior do que foi no ano passado.

Em janeiro, Frederico Trajano, presidente do Magazine Luiza (MGLU3), em entrevista exclusiva ao EXAME In, bem antes de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolher o Banco Central e a Selic como inimigos, já apontava para um possível excesso da dose. Na época, ele destacava que, sem dúvida nenhuma, o aumento do juro é prescrição adequada para combate à inflação. Mas fazia um alerta que a dosagem do remédio também podia matar o paciente.

A despeito do tom mais duro do Banco Central na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), cada vez mais economistas e analistas admitem que é sim preciso ter como meta a redução da taxa, ainda que isso signifique admitir alguma inflação. Rogério Xavier, fundador da SPX, em entrevista ao Brazil Journal foi o mais contundente ao tratar do assunto recentemente. Disse preferir uma inflação ligeiramente mais alta a um problema fiscal mais profundo.

Na grande maioria das vezes, o setor de varejo e consumo têm margens líquidas de apenas um dígito. Como sobreviver, então, a um custo financeiro de dois?

É principalmente por essa deterioração do lucro que o analista Luiz Guanais, do BTG Pactual, entende que o setor de varejo na bolsa não está tão descontado quanto parece. Ao contrário, o mais difícil começa agora, pois o custo da dívida já está salgado, a alavancagem já aumentou, o estoque de produtos das empresas voltou a subir e o desconto exigido para antecipação de recebíveis está ainda mais elevado.

Como cereja do bolo do ambiente macroeconômico e de concorrência, a crise do rombo bilionário da Americanas criou um problema extra, que foi a contração do crédito no varejo, o que pesa e muito para as grandes redes e, principalmente, para seus fornecedores — em especial, os menores.

Shein

O crescimento em velocidade meteórica da rede chinesa de comércio eletrônico de moda tem feito muitas varejistas quebrarem o silêncio. Há um grande incômodo com a questão tributária, uma vez que os produtos da plataforma não recolhem os mesmos impostos como as empresas de varejo tradicional fazem cotidianamente e elas se veem diante do que chamam de “concorrência desleal”. Guanais, do BTG, acredita que a Shein tem vantagens competitivas vindas de seu modelo de negócios, que tem foco nas vendas online (para além, portanto, da discussão fiscal).

A receita estimada da Shein para 2022, de R$ 8 bilhões – a empresa não divulga números detalhados sobre o Brasil –, já a coloca à frente de diversas varejistas e quase empatada com a Riachuelo (GUAR3), que teve uma receita líquida consolidada de R$ 8,6 bilhões no ano passado. É mais do que duas Marisa (AMAR3) e agora, a expectativa é que ultrapasse a líder Renner, que apresentou faturamento líquido de R$ 11,6 bilhões no ano passado. Apesar de no acumulado do ano a receita mostrar expansão superior a 20%, no quarto trimestre houve um ligeiro recuo de 0,2%.

“Essa concorrência sem isonomia prejudica muito”, afirma João Nogueira Batista, novo presidente da Marisa. O executivo acaba de assumir o posto com a dupla missão de organizar a casa operacionalmente e também financeira. “Vamos ter de fechar quase 90 lojas, que são consumidoras e não geradoras de caixa. São cerca de 1,5 mil empregos ou mais. Eu não quero condições diferentes para nós, eu quero que eles [Shein] trabalhem dentro das regras.” Batista destaca que a questão é muito preocupante e impacta, inclusive, a geração de empregos. Ele enfatiza que não quer, com essa crítica, eximir a Marisa de seus problemas, mas alega que o cenário fica muito mais difícil.

O CEO da Marisa não está sozinho. Antes dele, o diretor financeiro da Renner, Daniel Martins, ao falar sobre o desempenho do quarto trimestre, também colocou o dedo na ferida ao dizer que existem competidores de varejo com atuação internacional que por princípio cumprem a lei, enquanto outros, não. De acordo com ele, o desconto da Shein frente à Renner, que pode superar 50%, cairia para algo entre 15% e 30%, se a empresa recolhesse corretamente os impostos.

E não são apenas as empresas. Neste fim de semana, o gestor da Fama Investimentos, Fabio Alperowitch, conhecido pela defesa dos valores ESG, também trouxe questionamentos sobre a Shein, após comparar produtos da plataforma com equivalentes na Renner e verificar que a rede brasileira tem um preço que é o dobro da chinesa.

“A Renner é a empresa de fast fashion mais responsável e comprometida do país, e tem credenciais para se colocar entre as mais responsáveis do mundo em seu segmento. Já a Shein, além das recorrentes suspeitas de trabalho análogo à escravidão moderna e trabalho infantil às quais a empresa não consegue responder, não paga impostos para vender seus produtos no Brasil, em uma competição desleal”, afirma. E cutuca a escolha dos consumidores: “A geração Z, que forma a base de consumidores da Shein, precisa se decidir pela coerência ou hipocrisia. Não dá para levantar um braço para defender direitos humanos e um planeta justo e usar o outro pra transgredir seus valores.”

O juro e o macro

Guanais, do BTG, aponta que a queima de caixa e o aumento da alavancagem financeira representam riscos de novas revisões negativas de projeções para o setor — já houve ajuste para baixo importante, nas linhas de receita, Ebitda e lucro líquido. Junto com a queda na demanda, a questão financeira é a maior preocupação devido ao ambiente macroeconômico de juros elevados.

Em levantamento com 23 companhias, ele aponta que diversas empresas de consumo e varejo mostraram piora na relação de cobertura de caixa para vencimentos de curto prazo, como a Petz, que saiu de 5,4 vezes para 2,1 vezes entre dezembro de 2021 e 2022. Outros exemplos, de segmentos diversos, são Carrefour, que passou de 2,3 vezes para 1,0 vez, C&A, que teve piora acelerada, passando de 8,5 vezes para 2,3 vezes, e Grupo SBF (Centauro e Fisia), de 2,6 vezes para 1,5 vez.

Existe a expectativa de que a Selic entre em trajetória de queda ainda dentro de 2023. Contudo, as apostas são de que o movimento será lento e gradual e não deve começar antes do meio do ano, na mais otimista das projeções. Dessa forma, os balanços continuarão ainda pressionados pela despesa financeira e a demanda, pelo ambiente macroeconômico de perda do poder de compra da população.

No segmento de varejo e consumo, mas longe da bolsa, a terça-feira, 28, foi emblemática: a Cervejaria Petrópolis obteve na Justiça proteção contra credores, com pedido urgente de recuperação judicial, e a rede Amaro solicitou homologação de seu plano de recuperação extrajudicial para reorganizar seus vencimentos.

O passado é uma roupa que não nos serve mais

A frase do compositor Belchior, eternizada na voz de Elis Regina, é exatamente o que muitos que avaliam o quadro atual de mercado não consideram. É preciso ter em mente, comentam alguns analistas, que os preços de bolsa do início de 2021 devem ser esquecidos. Ali, auge da euforia, eles refletiam uma combinação que já não existe mais: demanda aquecida e taxa de juro de 2% ao ano. A soma do valor de mercado das 25 companhias consideradas na amostra do EXAME IN, conforme levantamento do Trademap, era de R$ 480 bilhões, no fim de março de 2021. E agora? Juntas elas valem menos de R$ 225 bilhões.

A combinação de aumento da competição e pressão financeira está fazendo com que, cada vez mais, analistas e investidores questionem empresas se elas planejam fazer emissões de ações. O motivo? Porque faz sentido, conforme alguns já começam a admitir. Ainda que o ambiente de renda variável não esteja dos mais favoráveis, talvez pior seja permitir que o consumo de caixa se acelere, com o aumento do serviço das dívidas (os juros periódicos que são pagos sobre os compromissos). É o que decidiram, por exemplo Dasa e Hapvida, ambas do setor de saúde.

Considerando a dívida atual e o aumento que se prenuncia com a queima de caixa, os múltiplos de mercado atual não são tão descontados quanto parecem. É o outro lado da moeda: se não está uma pechincha para o investidor, significa que tampouco uma emissão representa uma diluição absurda.

É preciso admitir a realidade.

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Graziella Valenti

Graziella Valenti

Editora Exame IN

Criadora do EXAME IN, espaço dedicado à cobertura de negócios, com foco em mercado de capitais. Na EXAME desde março de 2020, ficou 13 anos no Valor Econômico, oito como repórter especial, sete anos na Broadcast, do Grupo Estado.

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